terça-feira, 31 de outubro de 2017

Dia D - Sentimental, Carlos Drummond de Andrade

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências este cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar"

In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Seleta em prosa e verso,Rio de Janeiro:Ed.Record1985,p.165-166
Imagem: Caricaturista Gilmar.


Veja mais Carlos Drummond de  Andrade  em: 

 Agradável Supresa

Drummond em Defesa de Nara Leão

Porque hoje é... 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Mendigo do Viaduto do Chá, Regina Ruth Rincon Caires

    A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.
      Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Guriatã Um Cordel Para Menino, Marcus Accioly






XXI
do trem-de-ferro

Quem grita na noite?

Não vejo ninguém,
é o eco do grito
do apito do trem,
é a boca-da-noite
que grita também,
é o eco do eco
que ecoa no além.

Quem grita na noite?

Não vejo ninguém,
é o grito da ponte
debaixo do trem,
é o vento que chora
por morte de alguém,
é o coro das almas
que dizem amém.

Quem grita na noite?

Não vejo ninguém,
é a boca-do-túnel
na frente do trem,
é o grito sem grito
de um eco que vem
dos montes que aos montes
ecoam mais cem.

Quem  grita na noite?

Não vejo ninguém,
é o sonho-barulho
das rodas do trem,
é a luz de uma estrela
que tange belém
no sino-silêncio
que a noite não tem.

Quem grita na noite?

Não grita ninguém,
é o trem dos fantasmas
nos trilhos sem trem,
é a voz dos dormentes
que às vezes contém
o grito da vida
que a morte detém.


.







LXIX

— A ILha é bela
dela eu fui filha
trilha por trilha
trilhei por ela
quando era aquela
espiga-de-ouro
que o vento louro
me havia as queixas
entre as bochechas
feito um besouro.

Fui sem partir
vim sem voltar
(neste lugar
ficar é ir)
pude seguir
graças à brisa
que aqui desliza
e às cabras-cegas
curva as bonecas
penteia e alisa.

Do Sul ao Norte
Oeste a Leste
a Ilha veste
sua cor forte
de um verde corte
dágua do mar
e sobre o ar
pesa um céu nu
que é tão azul
de se chorar.

Além das canas
seus altos mastros
tocam nos astros
que têm pestanas
crescem lianas
da terra aos sóis
e entre cipós
sobem os pensos
jardins suspensos
de girassóis.

O tempo gira
pelo contrário
(ai, mundo-vário
ai, mundo-vira)
nada é mentira
tudo é verdade
quando é de tarde
o galo canta
e o sol levanta
com a claridade.

Mas quanto ao Bicho
que dizer dele?
— Sou eu ou ele
encolho ou espicho
no meu capricho
meio-animal.
— Ele é fatal
mas nesta Ilha
toda a luz brilha
contra o seu mal.




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