quarta-feira, 3 de junho de 2015

Os Sons de Antigamente,Rubem Braga

        

          Conta-se na família que, quando um pai comprou a nossa casa de Cachoeiro esse relógio já estava na parede da sala; e que o vendedor o deixou lá, porque naquele tempo não ficava bem levar.
   (Hoje, meu Deus, carregam até uma lâmpada de 60v elas, até o bocal da lâmpada, e deixam aquele fio solto no ar.)
   Há poucos anos e o relógio para minha casa de Ipanema. Mais velho do que eu, não é de admirar que ele tresande um pouco. Há uma  corda para fazer andar os ponteiros, outra para fazer bater as horas. A primeira é forte, e faz o relógio se adiantar: de vez em quando alguém me chama a atenção, dizendo que o relógio está adiantado quinze ou vinte minutos, e eu digo que é a hora de Cachoeiro. Em matéria de som, vamos muito mais adiante. É comum o relógio marcar, digamos, duas e meia, e bater solenemente nove horas. " Esse relógio não diz coisa com coisa" - comenta um amigo severo. Explico que é uma pequena disfunção audiovisual.
   Na verdade essa defasagem não me aborrece nada; há muito desanimei de querer as coisas deste mundo todas certinhas, e prefiro deixar que o velho relógio badale a seu bel-prazer. Sua batida é suave, como costumam ser a desses Ansonias antigos; e esse som me carrega para noites mais antigas da infância. Às vezes tenho a ilusão de ouvir, no fundo, o murmúrio distante e querido do Itapemirim.
   Que outros sons me chegam da infância? Um cacarejar sonolento de galinhas numa tarde de verão; um canto de cambaxirra, o ranger e o baque de uma porteira na fazenda, um tropel de cavalos que vinha vindo e depois indo no fundo da noite. E o som distante dos bailes do Centro Operário, com um trombone de vara ou um pistom perdidos na madrugada.
   sim, sou um amante da música, inda que desprezado e infeliz. Sou desafinado, desentoado, um amigo diz que tenho orelha de pau. Outro dia fiquei perplexo ouvindo uma discussão de jovens sobre um som que eu achava perfeito e eles acusavam de flutter,wow,rumble,hiss e outros males estranhos.
   Meu amigo Mário Cabral dizia que queria morrer ouvindo Jesus Alegria dos Homens; nunca soube se lhe fizeram a vontade. A mim, um lento ranger de porteira e seu baque final, como na fazenda do Frade, já me bastam. Ou então a batida desse velho relógio, que marcou a more de meu pai e, vinte anos depois, a de minha mãe; e que eu morra às quatro e quarenta da manhã com ele marcando cinco e batendo onze, não faz mal; até é capaz de me cair bem.
(A Traição das elegantes)
Nota: o blog manteve a grafia original.