quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Cunhado de São Pedro


       Era um velho que tinha uma filha e três filhos. Um dia, apareceu um rapaz que lhe pediu a filha em casamento. Assim que acabou de se casar pegou a mulher e foi-se embora com ela, sem querer que a moça levasse nada, nada, da casa do pai. Só mesmo a roupa do corpo foi o que ela levou. Porque o rapaz era São Pedro, portanto não havia de conduzir para sua casa coisa que tivessem ranço de pecado.
      A moça vivia muito bem. Porém, tinha um desgosto: era que o marido não passava um dia que fosse em casa, pois sendo pastor de ovelhas não podia nunca deixar de levar os animais para o pasto. O irmão mais velho da moça indo visitá-la, ela contou-lhe isso. Então o rapaz esperou que o cunhado voltasse. Quando foi de noite, que ele chegou, disse:
      - Cunhado, minha irmã se queixa de que você desde que se casou ainda não pôde parar um dia que fosse, em casa, por causa das ovelhas. Eu amanhã vou pastorar elas e o cunhado fica em casa.
      São Pedro disse que sim. Quando foi no outro dia de manhã, chamou as ovelhas e entregou-as ao cunhado, recomendando-lhe que por onde elas passassem ele passasse também; onde elas parassem, ele parasse também; de tarde, quando elas voltassem, ele voltassem também. Aí, as ovelhas partiram, seguindo o rapaz no coice do rebanho.
Depois de caminharem muito, chegaram à beira de um grande rio, sobre o qual tinha uma ponte que era formada por uma espada de prata, de gume para cima, afiado que nem navalha. As ovelhas meteram o pé e passaram. Quando o rapaz viu aquilo disse:
      - Qual! Quem é que vai passar aqui por cima? Eu, não!
      Sentou-se debaixo de um pé de árvore, na beira do rio, e ficou bem de seu, o dia inteiro. Entretanto, São Pedro que o vinha acompanhando de longe, passou por ele sem ser visto e seguiu atrás das suas ovelhas. Quando foi chegando de tarde, lá vêm as bichinhas. Assim que elas chegaram perto da ponte, São Pedro se escondeu. Logo que passaram a ponte o rapaz enfiou atrás delas. Ao chegar em casa, São Pedro já estava lá bem desencalmado.    Perguntou ele:
      - Então, cunhado, como se foi?
      -
Eu, bem.
      – Acompanhou os animais até no pasto?
      - Acompanhei, sim.
      – E não viu nada no caminho?
      - Eu, não.
      – Então não viu nada?
      - Eu, não.
      Disse São Pedro à mulher que seu irmão não servia e mandou-o embora. No dia seguinte veio o segundo cunhado e fez o mesmo que o primeiro. No terceiro dia veio o caçula, ao qual São Pedro fez a mesma recomendação que fizera aos outros dois. Respondeu-lhe o rapazola com firmeza
:
     - Deixe estar, cunhado. Não tenha medo.
     São Pedro, não satisfeito, acompanhou-o de longe, como tinha feito com os dois mais velhos, espiando-os. Quando as ovelhas chegaram à beira do rio, que passaram pelo gume da espada, o rapaz ficou olhando, e disse:
      - Assim como vocês, ovelhinhas, bichinhos de Deus, passaram, e esta espada não vos ofendeu, eu também hei de passar e ela não há de me ofender.
     Mal foi botando o pé na espada e esta virando-se numa ponte, passando ele perfeitamente. Quando São Pedro viu isso voltou logo para casa, para passar o dia com sua mulher, porque compreendeu que o cunhado daria conta do recado.
     Chegando mais adiante, viu o moço duas pedras enormes que batiam uma na outra, lançando faíscas de fogo ao redor, que fazia medo. As ovelhas passaram entre as duas pedras, sem nada sofrer. O rapaz também passou. Com muito receio, mas passou. Quando chegou mais longe, estavam dois leões, que eram uns monstros, brigando em termo de se acabar, arrancando-se os pedaços, de danados que se achavam. As ovelhas passaram entre os dois leões. O rapaz também passou. Andando um bocado, encontrou um campo coberto de capim muito verde e viçoso, onde estavam pastando uns cavalos tão magros, que estavam se quebrando pela espinha. Passaram as ovelhas e o rapaz as seguiu. Depois encontrou um campo coberto de capim seco, esturricado, e uns animais muito gordos, muito bonitos, pastando. Passaram as ovelhas e ele. Mais além deu numa fogueira enorme, donde saía cada língua de fogo que parecia um fim de mundo. As ovelhas meteram o pé dentro daquela labareda toda, passando sem se queimar. O rapaz fez o mesmo. Finalmente deu num jardim, que era uma babilonha de grande, bonito que era uma maravilha, onde as ovelhas pararam então, começando a pastar.
     O rapaz ficou abismado de ver tanta flor, tanta roseira vindo abaixo de rosas. Então disse:
     - Eu vou apanhar umas rosas para levar à minha irmã. 
     Começou a colher rosas. Colheu, colheu, e foi botá-las dentro do chapéu, voltando para colher mais. Tornando a ir botá-las dentro do chapéu só encontrou ali cinco rosas. Disse:
- Ora, senhor, as ovelhas me comeram as rosas!
     Foi buscar outro bocado de rosas, botou dentro do chapéu e tornou a ir buscar mais. Voltando, só encontrou cinco rosas dentro do chapéu. Estava nessa lida, abaixo e acima, quando viu as ovelhas se prepararem para voltar para casa. Aí, ele agarrou no chapéu e nas cinco rosas, acompanhando as ovelhas. Ao chegar em casa, São Pedro o recebeu muito satisfeito.
     Jantaram, conversaram muito e por fim São Pedro perguntou-lhe o que havia visto no caminho. O moço referiu tudo quanto se passara. Então São Pedro explicou-lhe: as ovelhas eram as almas dos bons; o rio, com a ponte de prata, era o Jordão, onde São João batizou Cristo; as duas pedras e os dois leões, as comadres e os compadres que brigam neste mundo e quando morrem vivem eternamente a brigar no outro; os cavalos magros pastando no campo verde, os ricos ambiciosos, que vivem neste mundo na abundância, sem nunca estarem fartos de dinheiro; os animais gordos pastando no campo seco, os pobres fartos por natureza; a fogueira, o purgatório; o jardim, o paraíso; e aquelas cinco rosas, as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Depois de dito isso, São Pedro lavou os pés da mulher, lavou os do cunhado, botou os dois nas palmas da mão e subiu com eles para o céu.

Conto do folclore brasileiro

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Prece do Amazonense em São Paulo, Milton Hatoum

Teatro Amazonas



Poema inspirado em Carlos Drummond de Andrade
 

Espírito do Amazonas, me ilumina,
e sobre o caos desta metrópole,
conserva em mim ao menos um fio
do que fui na minha infância.

Não quero ser pássaro em céu de cinzas
nem amargar noites de medo
nas marginais de um rio que não renasce.

Teatro Amazonas, início da construção:1884,
inauguração em 1886
O outro rio, sereno e violento,
é pátria imaginária,
paraíso atrofiado pelo tempo.

Amazonas:
Tua ânsia de infinito ainda perdura?
Ou perdi precocemente toda esperança?
Os que te queimam, impunes,
têm olhos de cobre,
mãos pesadas de ganância.

Ilhas seres rios florestas:
o céu projeta em mapas sombrios
manchas da natureza calcinada.

Tento abraçar a imagem fugidia
de um barco à deriva no mormaço
com os mitos que a linguagem inventa.

Espírito amazonense, tímido talvez,
e desconfiado para sempre,
não me fujas em São Paulo,
nem me deixes à mercê
dos pesadelos que incendeiam o mundo.

Se o Brasil te conhecesse
antes do fim que se aproxima,
salvaria tua beleza? Teus seres desencantados?
Entenderia a ciência tua infinita riqueza?

Milton Hatoum - clique na imagem para conhecer o autor.
Abre a janela de um barco
ante meus olhos,
e que ao teu profundo rio conduza
a memória de línguas estranhas
e tantas histórias ocultadas:
Amazonas.

(Publicado na Revista Amazônia, O Estado de S. Paulo, domingo, 25 de novembro de 2007).


sábado, 25 de junho de 2011

Crônica cantada:Bolsa de Grife - Vanessa da Mata



Bolsa de Grife
Vanessa da Mata
Comprei uma bolsa de grife
Mas ouçam que cara de pau
Ela disse que ia me dar amor
Acreditei que horror
Ela disse que ia me curar a gripe
Desconfiei mas comprei
Comprei a bolsa cara pra me curar do mal
Ela disse que me curava o fogo
Achei que era normal
Ela disse que gritava e pedia socorro
Achei natural

Ainda tenho a angustia e a sede
A solidão, a gripe e a dor
E a sensação de muita tolice
Nas prestações que eu pago
Pela tal bolsa de grife

Nem pensei
Impulso
Pra sanar um momento
Silenciar barulhos
Me esqueci de respirar

Um, dois, três
Eu paro
Hoje sei que tenho tudo
Será?
Escrevi em meu colar
Dentro há o que procuro

Meu amigo comprou um carro para se curar do mal

terça-feira, 21 de junho de 2011

Horóscopo poético: Câncer: 21 de junho a 20 de julho,Vinicius de Moraes



Câncer
Vinicius de Moraes
Você nunca avance
Em uma mulher de câncer.
Seu planeta é a lua
E a lua, é sabido,
Só vive na sua.
É muito apegada
E quando pegada
Pega da pesada.
É a mulher que ama
Com muito saber
No tocante à cama
Não sei lhe dizer...


(Com o signo câncer, o blog LivroErrante encerra a publicação dos versos de Vinicius de Moraes iniciada em julho de 2010 com Leão).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Juriti, Cassimiro de Abreu


Na minha terra, no bulir do mato,
A juriti suspira;
E como o arrulo dos gentis amores,
São os meus cantos de secretas dores
No chorar da lira.

De tarde a pomba vem gemer sentida
À beira do caminho;
— Talvez perdida na floresta ingente —
A triste geme nessa voz plangente
Saudades do seu ninho.

Sou como a pomba e como as vozes dela
É triste o meu cantar;
— Flor dos trópicos — cá na Europa fria
Eu definho, chorando noite e dia
Saudades do meu lar.

A juriti suspira sobre as folhas secas
Seu canto de saudade;
Hino de angústia, férvido lamento,
Um poema de amor e sentimento,
Um grito d’orfandade!

Depois... o caçador chega cantando.
À pomba faz o tiro...
A bala acerta e ela cai de bruços,
E a voz lhe morre nos gentis soluços,
No final suspiro.

E como o caçador, a morte em breve
Levar-me-á consigo;
E descuidado, no sorrir da vida,
Irei sozinho, a voz desfalecida,
Dormir no meu jazigo.

E — morta — a pomba nunca mais suspira
À beira do caminho;
E como a juriti, — longe dos lares —
Nunca mais chorarei nos meus cantares
Saudades do meu ninho!

Para o amigão Luiz, com um abraço.


Cassimiro de Abreu em caricatura de
André Lemes

Cassimiro José Marques de Abreu
04 janeiro 1839, Barra de São João (RJ) - 18 outubro 1860,Friburgo (RJ)
Escola literária: romantismo
Obras mais importantes:
Primaveras (1859) - Poesias
Meus Oito Anos - Poesias
Camões e o Jau" (1856) -Teatro
Cassimiro de Abreu é o patrono da cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras ocupada atualmente por Cícero Sandroni.

Fonte:
http://www.dominiopublico.gov.br/,
www.wikipedia.com.br
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/casimiro-de-abreu/casimiro-de-abreu.php

sábado, 18 de junho de 2011

Crônica cantada: História de Lily Braun, Chico Buarque e Edu Lobo.


Chico Buarque e Edu Lobo
Como num romance
O homem dos meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam
Feito um zoom
Ele me comia
Com aqueles olhos
De comer fotografia
Eu disse cheese
E de pose em pose
Fui perdendo a pose
Até sorrir feliz
E voltou
Me ofereceu um drinque
Me chamou de anjo azul
Minha visão foi desde então
Ficando flou
Como no cinema
Me levava as vezes
Uma rosa e um poema
Foco de luz
Eu feito uma gema
Me desmilinguindo toda
Ao som do blues
Abusou do scotch
Disse que meu corpo
Era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale no decote
Disparei com as faces
Rubras e febris
E voltou
No derradeiro show
Com dez poemas e um buque
Eu disse adeus
Já vou com os meus
Numa turne
Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar
Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fernando António Pessoa Nogueira - Por ele mesmo

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa, nasceu em Lisboa em 13 de Junho de 1888.
Filho de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.(resumido pelo blog)
Estado civil: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será "tradutor", a mais exacta a de "correspondente estrangeiro" em casas comerciais. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. É o seguinte o que, de livros ou folhetos, considera como válido: "35 Sonnets" (em inglês), 1918; "English Poems I-II" e "English Poems III" (em inglês também), 1922; livro "Mensagem", 1934, premiado pelo "Secretariado de Propaganda Nacional" na categoria Poema". O folheto "O Interregno", publicado em 1928 e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas e, sobretudo, à Igreja Católica. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da Ordem dos Templários de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: "Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação".
Posição social: Anti-comunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935.


In Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2003, pp. 203 - 204
(O blog fez edição por questão de espaço)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Rio da Minha Aldeia - Tom Jobim e Fernando Pessoa


Clique na imagem para ouvir a música
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.http://som13.com.br/antonio-carlos-jobim/albums/perfil-vol2/o-rio-da-minha-aldeia

Aniversariante do dia: Fernando Pessoa


A Outra
Amamos Sempre no Que Temos
 
<> <>
AMAMOS sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
O barco pára, largo os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos?
À Outra.
Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora e minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem é a boca?
Da Outra.
Os remos já caíram na água,
O barco faz o que a água quer.
Meus braços vingam minha mágoa
No abraço que enfim podem ter.
Quem abraço?
A Outra.

Bem sei, és bela, és quem desejei...
Não deixe a vida que eu deseje
Mais que o que pode ser teu beijo
E poder ser eu que te beije.
Beijo, e em quem penso?
Na Outra.

Os remos vão perdidos já,
O barco vai não sei para onde.
Que fresco o teu sorriso está,
Ah, meu amor, e o que ele esconde!
Que é do sorriso
Da Outra?

Ah, talvez, mortos ambos nós,
Num outro rio sem lugar
Em outro barco outra vez sós
Possamos nos recomeçar
Que talvez sejas
A Outra.

Mas não, nem onde essa paisagem É sob eterna luz eterna
Te acharei mais que alguém na viagem
Que amei com ansiedade terna
Por ser parecida
Com a Outra.

Ah, por ora, idos remo e rumo,
Dá-me as mãos, a boca, o ter ser.
Façamos desta hora um resumo
Do que não poderemos ter.
Nesta hora, a única,
Sê a Outra.


Este blog vai trazer Fernando Pessoa e seus heterônimos nas quintas-feiras dias: 16,23 e 30 de junho

sábado, 11 de junho de 2011

Crônica cantada:A Carta - Renato Russo e Erasmo Carlos


A Carta
 Benil Santos e Raul Sampaio

Escrevo-te estas mal traçadas linhas
Meu amor
Porque veio a saudade visitar meu coração
Espero que desculpes os meus erros por favor
Nas frases desta carta que é uma prova de afeição
Talvez tu não a leias, mas quem sabe até dará
Resposta imediata me chamando de meu bem
Porém o que me importa é confessar-te uma vez mais
Não sei amar na vida mais ninguém
Tanto tempo faz
Que li no teu olhar
A vida cor de rosa que eu sonhava
E guardo a impressão
De que já vi passar
Um ano sem te ver
Um ano sem te amar
Ao me apaixonar por ti não reparei
Que tu tivestes só entusiasmo
E para terminar amor assinarei
Do sempre sempre teu

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Criança e o Adolescente Brasileiros Estão Lendo Mais.


     Segundo informa a Câmara Brasileira do Livro, as vendas de livro infanto-juvenis cresceram 9,6% em relação ao ano anterior. Ednilson Xavier, presidente da Associação Nacional de Livrarias informou que crianças e adolescentes são responsáveis por 15% do faturamento das lojas .Estas informações foram dadas ontem, dia 08.06 durante o 2º Encontro Nacional do Varejo do Livro Infantil e Juvenil, realizado dentro do 13ª Salão Nacional do Livro Infantil e Juvenil, no Rio de Janeiro.

     A Câmara Brasileira do Livro diz ,ainda, que aproximadamente 2,5 mil livros do total de 12.000 novos títulos lançados em 2010, foram de literatura para crianças e adolescentes. O que ratifica o que diz a diretora da fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Ísis Valéria Gomes, para quem a maior produção é resultado do maior interesse desse público.
     Outro dado que deixa este blog feliz é o de que é das crianças e adolescentes a liderança no ranking de crescimento de leitura.
      Recebi de minha filha a matéria de jornal, de onde estou dando essas informações. Ela é uma das que sabe o quanto valorizo a leitura, o quanto insisto em dizer que não adiante incentivar leitura entre adultos porque o adulto não lê se não foi criança leitora.
Frequentemente me declaro desesperaçada com relação à possibilidade de ver boas práticas sociais e me baseio no fato de ver no dia a dia uma quantidade absurda de jovens e adultos analfabetos funcionais. Sim. dentro da sala de aula de universidade pública, um número grande de aprovados em vestibular que não consegue se expressar falando e menos ainda escrevendo.
     E o que esperar de cidadania de quem lê mal, escreve pior, não entende o que lê e nem se faz compreendido quando escreve?
      Notícia como esta,  publicada aqui pelo Diário de Pernambuco, é um alívio! Me faz crer que a geração de meus netos conseguirá se impor pela qualidade e não pela grosseria e falta de educação. 
     A população que hoje reina  vazia de conteúdo nas salas de aula, nos cinemas, bares, restaurantes e vias públicas talvez seja a última mostra da falta que faz um livro. Os próximos jovens, bons leitores atuais,serão menos violentos, sofrerão menos violentos, serão melhores estudantes, também melhores professores. Saberão pensar, enfim.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Bilhete de Loteria, Anton Tchekhov

                                                                     

Ilustração da Poty
     Ivan Dimítritch, homem de classe média gastando com a família 1200 rublos por ano e muito satisfeito com a sua sorte, certo dia, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.
- Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando os pratos da mesa. –  Espia se não saiu a tabela das tiragens.
- Saiu,sim– respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não foi o teu bilhete que sumiu no penhor?
- Não, eu fui levar os juros na terça-feira e o encontrei.
- Que número?
- Série 9499, bilhete 26.
- Humm... vamos ver...… 9499 e 26.
Ivan Dimítritch não acreditava em sorte de loteria e, em outra ocasião, jamais coferiria a tabela das tiragens, mas agora, por falta  de assunto  e porque o estava mesmo diante dele, passou o dedo de cima para baixo pela coluna dos números de série. E no mesmo instante, como que zombando de sua falta de fé, logo na segunda linha em cima,  apareceu  diante de seus olhos, nítido e claro o numero 9499! Sem olhar  o número do bilhete, sem pensar, ele baixou o jornal para os joelhos num movimento brusco e, como se alguém lhe tivesse jogado um jato de  água fria, sentiu um arrepiozinho agradável no  ventre - uma cócega ao mesmo tempo pungente e gostosa.
     - Macha, 9499 é a série! disse ele em voz surda
     A mulher olhou para seu rosto admirado e assustado, e compreendeu que ele não estava brincando.
     - 9499? – perguntou ela, empalidecendo e soltando na mesa a toalha dobrada.
     - Sim, sim… é sério
     - E o número do bilhete?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Oração para Marilyn Monroe, Ernesto Cardenal


01.06.1926 - 05.08.1962
Senhor,
recebe esta moça conhecida em toda a terra pelo nome de Marilyn Monroe
ainda que este não seja o seu nome verdadeiro
(mas Tu conheces o seu nome verdadeiro, o da pequena orfã).
violentada aos 9 anos,
a empregadinha de loja que quis se matar aos 16
e agora se apresenta diante de Ti sem nenhuma maquilagem
Sem seu Agente de Imprensa
Sem fotógrafos e sem assinar autógrafos
sozinha como um astronauta diante da noite espacial.
Ela sonhou quando menina que estava nua em uma igreja
(de acordo com a Time)
diante de uma multidão prostrada, com as cabeças no chão
e tinha que caminhar na ponta dos pés para não pisar nas cabeças.
Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras.
Igreja, casa, cova, são a segurança do seio materno
mas também é mais que isso.

sábado, 4 de junho de 2011

Texto musical:"Quando o sono não chegar, Cordel do Fogo Encantado



Quando O Sono Não Chegar
 Cordel do Fogo Encantado

Neste quarto de fogo solitário
No telhado um letreiro esfumaçado
Candeeiro no peito iluminado
O cigarro no dedo incendiário
O cinzeiro esperando o comentário
Da palavra carvão fogo de vela
Meus dois olhos pregados na janela
Vendo a hora ela entrar nessa cidade
Tô fumando o cigarro da saudade
E a fumaça escrevendo o nome dela
O prazer de quem tem saudade
é saudade todo dia
O prazer de quem tem saudade
é saudade todo dia
Ela é maltratadeira
Além de ser matadeira
ô saudade companheira
De quem não tem companhia
Eu vou casar com a saudade
Numa madrugada fria
Na saúde e na doença
Na tristeza e na alegria
Quando o sono não chegar
No mais distante luga
No deserto beira mar
Dia e noite noite e dia


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Tem Coisa Mais Linda?

     Um integrante, o Rick, da comunidade Livro Errante, nos trouxe como proposta de comemoração de aniversário de 4 anos, colaborar com a garotinha Laura, de Sorocaba-SP. Por que vamos colaborar com a Laurinha? Ora, porque para viciados em livros que somos, tem coisa mais fofa que uma mensagem destas?   
Olá pessoal!!
Meu nome é Laura. Tenho 7 anos, sou uma menina muito simpática, e tenho muita energia e vontade de descobrir tudo. Meu sonho, é ter uma biblioteca, primeiro, quero ajudar meus amiguinhos e quem sabe, até mais e mais crianças!!!
Eu gosto muito de ler. Tive essa curiosidade despertada quando tinha 4 aninhos, e comecei a frequentar a escolinha,o maternal. Minha professora, Tia Cris, nos ensinou um grande bem que podemos ter para a vida toda. Ela montou pra gente uma casinha(com materiais reciclaveis), a casinha da história e da poesia. Nossa... eu e meus amigos não víamos a hora de chegar para conhecermos mais uma super história. Era uma viajem muuuito legal. (eu até sonhava depois, quando ia dormir rsrsr). Bom, além de outros valores que ela nos ensinou, esse, o da leitura, me acompanha até hoje!
EU AMO LER!!!! Ahh!! esse ano eu aprendi a ler! é o maxímo. Eu leio tudo!! Meus pais estão se esforçando bastante pra poder fazer meu sonho se tornar real. Como não podemos fazer tudo do dia pra noite, vai demorar um pouquinho, mas a nossa fé é muito grande e eu sei que conseguiremos. A prateleira meu pai já conseguiu, é apenas uma, mas já é um grande progresso. Até uma parte da casa ele vai reformar. eu tenho um paizão não é??!!!
Quero conseguir mais livros para que ela cresça, e peço a ajuda de quem possui livros que não os use mais, usado, em bom estado, infantil ou adulto, que possam ajudar para que nossa biblioteca fique maior!!
"Tia Cris, eu agradeço do fuundo do meu pequeno coração, e pra te mostrar meu amor e retribuir o amor que você nos deu, seu carinho em ensinar, a biblioteca vai se chamar...

"BIBLIOTECA ANA CRISTINA xxxxxxx"

tia cris rsrsr
obrigada!!!
 
(Nota: a publicação da mensagem, bem como imagem de Laura foram feitas com autorização da mãe de criança.)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Aniversariante do dia: Zuenir Ventura

Recado de Primavera.
Zuenir Ventura  

Meu caro Rubem Braga:
     Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a primavera chegou. Na véspera da chegada, não sei se lhe contaram, você virou placa de bronze, que pregaram na entrada do seu prédio. O próximo a ser homenageado é seu amigo Vinicius de Moraes, e é essa lembrança que me faz parodiar o “Recado de primavera”, que você mandou ao poeta quando ele se tornou nome de rua.
     Sua crônica foi lida na inauguração da placa, durante uma cerimônia rápida e simples, para você não ficar irritado. A idéia foi da Confraria do Copo Furado, um alegre clube de degustadores de cachaça que não existia no seu tempo. Antes que alguém dissesse “mas como, se Rubem só tomava uísque!”, o presidente da confraria, Marcelo Câmara, se apressou em lembrar que Paulo Mendes Campos uma vez revelou que o maior “orgasmo gustativo” do velho Braga, na verdade, foi bebendo uma boa pinga num boteco do Acre. Paulinho, que deve estar aí a seu lado, só faltou dizer que você sempre foi um cachaceiro enrustido.
     Temendo uma bronca sua, Roberto, seu filho, fez tudo na moita: não avisou a imprensa e não comunicou nada a nenhuma autoridade ou político. De gente famosa mesmo só havia Carlinhos Lyra e Tônia Carreiro. Aliás, sua eterna musa declamou aquele soneto que você ficou todo prosa quando Manuel Bandeira incluiu numa antologia, lembra-se?
     Tônia se esforçou para não se emocionar, e quase conseguiu. Mas quando aquela luz do meio-dia que você tanto conhece bateu nos olhos dela, misturando as cores de tal maneira que não se sabia mais se eram verdes ou azuis, viu-se que estavam ligeiramente molhados, mas todo mundo fingiu que não viu.
     Depois da homenagem, subimos até a cobertura. Não sei se você sabe, mas Roberto levou uns quatro meses reformando o terraço. Agora pode chover à vontade que não inunda mais. O resto está igual: as paredes cobertas de quadros e livros, o sol entrando, a vista do mar. Quando chegamos à varanda, achamos que você estava deitado na rede.
     O pomar, mesmo ainda sem grama, está um brinco e continua absolutamente inverossímil. “Como é que ele conseguiu plantar tudo isso aqui em cima?”, a gente repetia, fazendo aquela pergunta que você ouviu a vida toda.
     Os dois coqueiros que lhe venderam como “anões” já estão com mais de três metros de altura. As duas mangueiras, depois da poda, ficaram frondosas e enormes, uma beleza. Vi frutinhas brotando nos cajueiros, nas pitangueiras e nas jabuticabeiras, pressenti promessas de romãs surgindo e esbarrei em pés de araçá e carambola. Agora, há até um jabuti.
     As palmeiras que ficam no canto, se lembra?, estão igualmente viçosas. Roberto jura que não é forçação retórica e que de madrugada vem um sabiá laranjeira cantar ali, diariamente, acordando os galos que deram nome ao morro que fica atrás. Assim, sua cobertura é a única que tem palmeiras onde canta o sabiá. (Roberto faz questão de dizer “a” sabiá, em homenagem ao Tom).      Há um outro mistério. Maria do Carmo, sua nora, conta que o pastor alemão Netuno, de sobrenome Braga, que você nem conheceu, pegou todas as suas manias: toma sol no lugar onde você gostava de ler jornal de manhã, resmunga e passa horas sentado, com as duas patas pra frente, apreciando o mar. A diferença é que dessa contemplação ainda não surgiu nenhuma crônica genial.
     Mas muita coisa mudou, cronista, nesses 16 anos. As “violências primaveris” de que você falava na sua carta a Vinicius não são mais o “mar virado”, a “lestada muito forte” ou o “sudoeste com chuva e frio”. Não são mais licenças poéticas, são violências mesmo.
     Para você ter uma idéia, a primavera desse ano foi como que anunciada por um cerrado tiroteio bem por cima de sua cobertura: os traficantes do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho voltaram a guerrear. Você deve ter visto aí de cima os tiros riscando a noite, luminosos, como na guerra do Golfo. Estamos vivendo sob fogo cruzado. Ainda bem que nenhuma bala perdida atingiu seu apartamento. Por milagre, aquela parede de trás ainda está incólume.
     O tempo vai passando, cronista. Chega a primavera nesta Ipanema, toda cheia de lembranças dos versos de Vinicius, da música de Tom e de sua doce e poética melancolia. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui - a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. E temendo, como todo mundo, as balas perdidas. Adeus.

     Este é um dos textos de Zuenir que ele mesmo escolheu como dos que mais gosta. Está no livro: Crônicas de Um Fim de Século( Ed. Objetica R$41,90)
Os demais preferidos são:
Chico Mendes  
Um idoso na fila do Detran
Peregrinos do sertão
Um grito contra a razão cínica
Uma lição de vida
A psicanálise da tortura
O ano do desacordo
Gênio da raça
Eu fui um homem qualquer
Portugal prova a liberdade
Da ilusão do poder a uma nova esperança
O vazio cultural
Jango transfere viagem e não sabe o que fazer
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