quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Tudo por causa da Escrava Isaura!!

Ex-catadora de papel mantém biblioteca com 22 mil livros
Vanilda na biblioteca.

Em 1998, a mineira Vanilda de Jesus Pereira sofreu um derrame cerebral. Impossibilitada de retomar o trabalho de babá, passou a recolher papéis nas ruas. Havia um tipo, porém, que não servia à reciclagem: os livros. Hoje seu acervo reúne cerca de 22 mil títulos, disponíveis na biblioteca Graça Rios, que fundou na favela de Paquetá, em Belo Horizonte.


Desde muito cedo Vanilda manifestava interesse pela literatura, apesar de ter estudado apenas até a sexta série. O pai, analfabeto, achava leitura coisa à toa. Mulher tinha que aprender a cozinhar e a ser boa esposa.


Em 1977, aos 14 anos, a menina foi trabalhar como babá. Certo dia, esqueceu de fazer uma tarefa. A patroa encontrou-a com um livro aberto: “Onde você quer chegar lendo?”, esbravejou. Foi demitida. Com o dinheiro que dispunha, tratou de comprar o livro da discórdia – Escrava Isaura. “Queria terminar de ler a história, uai…”. Quinze dias depois, a prima da ex-patroa a contratou. Além do novo emprego, ganhou passe livre para a biblioteca da casa. “Aqui você pode ler tudo.”


Vanilda de Jesus Pereira com as crianças na biblioteca
A cada salário, mais livros. Guardava-os embaixo da cama. Com o tempo, o espaço ficou pequeno. Em vez de livrar-se dos títulos, alugou um barraco para abrigá-los. Em 2002 um jornalista descobriu o espaço. Só então Vanilda deu-se conta de que possuía uma biblioteca. Aprendeu a catalogar os livros com a escritora Graça Rios (“Coloquei seu nome na biblioteca para homenageá-la em vida”), e passou a receber doações de outras entidades.


Hoje, além de livros, a ex-catadora de papel, ex-empregada doméstica e ex-babá oferece alimento, aulas de reforço escolar e pré-vestibular para 130 crianças e jovens, além de alfabetizar adultos, oferecer sala de informática e ateliê de costura. “Nada foi planejado. Fui fazendo o que era possível”, reforça.


O empenho se expandiu além dos limites da favela. Com a ajuda de voluntários, leva almoço para os acompanhantes de enfermos de hospitais públicos. “Muitos vêm do interior, com pouquíssimo dinheiro, e essa comida é muito importante para eles.” Para arrecadar fundos, promove seis eventos por ano, como jantares e desfiles de moda.


O projeto foi um dos 15 finalistas do prêmio Vivaleitura 2008. Ainda que não tenha se sagrado vitoriosa, Vanilda alegra-se com o reconhecimento. Só acha estranho quando não entendem sua dedicação. “Só por ser pobre e ter pouca cultura não posso ajudar os outros?”. E faz questão de encerrar a conversa com uma frase de Madre Teresa de Calcutá. “É assim: ‘Não tem pobre que não tem o que dar e nem rico que não precise receber’.





Biblioteca Graça Rios: Rua Glauber Rocha, 334. Belo Horizonte-MG. Tel.: (31) 3498-1547.

Matéria de:Bruno Hoffmann / Lucas Carrasco, para o site: http://www.almaquebrasil.com.br/

Estou no Estante virtual

Preciso esvaziar minha estante, visite meu acervo...
 http://www.estantevirtual.com.br/acervo/reggyna

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Sopa de Pedra, David Martins

      Descia o Sol no horizonte. Pela estrada, coberto de poeira, seguia Frei Bernardo, o rosário a tilintar, a barriga a dar horas.
Longa tinha sido a caminhada, isto para não mencionar a lonjura que ainda tinha de palmilhar até chegar ao mosteiro.
     Se era vivo de espírito, não era menos robusto de corpo, o nosso frade. Cem léguas caminharia, tivesse ele a barriga cheia... mas, não se via nem galinha transviada, nem macieira a convidá-lo sem o dono por perto. Nada, coisa alguma que se pudesse comer.
Pouco faltava para ele maldizer a sua vida, quando avistou uma quinta no horizonte: o seu santo protector nunca se esquecia de velar por ele! Sorriu, satisfeito. Afinal, não há mal que sempre dure. Com um pouco de sorte, alguma coisa lhe dariam para comer.
Mas os tempos não iam de feição para se fazer caridade. A vida estava muito difícil, os anos de seca não deixavam os cereais germinar, os legumes definhavam nas hortas, os animais morriam de fome e de sede. Acrescentem-se os impostos que os senhores da terra nunca se esqueciam de mandar cobrar a tempo e horas, os homens que tinham partido para longe, guerrear sabe-se lá que inimigos numa terra distante. O pouco que cada um conseguia extrair da terra ressequida, em sua casa o aferrolhava, que ninguém sabia o que ainda podia estar para vir. Tudo isto o nosso bom frade bem o sabia. Mas não lhe faltava nem bonomia, nem engenho e arte para resolver qualquer problema que lhe surgisse, por mais complicado que ele fosse. Se não se podia ir pela estrada real, dava-se a volta por atalhos, e não era por isso que um homem deixava de chegar ao seu destino.
     À medida que encurtava a distância que o separava da casa de paredes de pedra escura da região e telhado de colmo, uma ideia foi ganhando forma na sua mente. Apanhou uma pedra do chão e sorriu. Era uma pedra redondinha. Limpou o pó que a cobria e bateu à porta.
     - Quem é? - Gritou uma voz de mulher.
     - Deus te salve, boa mulher! Não terás por aí uma panela que me emprestes e um poucochinho de água que me dês? É que aqui mesmo acendo umas brasinhas e faço uma sopa de pedra.
     - Essa agora! Não querem lá ver? Havia de ter graça! - exclamou a mulher, rindo, os dedos cruzados sobre o ventre empinado pelo pimpolho que em breve daria à luz. - Sopa de pedra? Nunca de tal coisa ouvi falar!
     - Pois olha que é um manjar que se faz muito lá na minha aldeia, e é de muito alimento. Queres ver?
     É claro que a curiosidade da mulher era mais do que muita, e ela não a escondia, observando o frade com o mesmo espanto com que olharia para uma galinha com cinco cabeças.
     - Sempre estou para ver como é que vossemecê faz esse petisco - disse ela, abanando a cabeça, meio incrédula, meio divertida.
     - É simples, já vais ver. Ponho esta pedra dentro da panela com água e deixo ferver - explicou ele, mostrando o seixo reluzente.
     A mulher não queria acreditar, mas como a curiosidade era mais forte, lá foi buscar uma panela com água.
Frei Bernardo juntou meia dúzia de cavacas, acendeu um lume bem espevitado, meteu-lhe o tacho em cima com a pedra lá dentro, cruzando em seguida os braços como quem está à espera que qualquer coisa aconteça, e depois sentou-se tranquilamente, desfiando o seu rosário. Passados momentos, já a água fervia... com a pedra lá dentro.
     A mulher, sempre desconfiada, não tirava os olhos do frade.
     - Sabes que mais - disse ele - vou prová-la. - Hmm... parece que precisa de um bocadinho de sal.
     E a mulher foi buscar o sal. Frei Bernardo agradeceu, e voltou às contas do seu rosário.
    A mulher, como se nada daquilo lhe dissesse respeito, ia no entanto arranjando afazeres que a obrigassem a rondar por ali. Sempre queria ver. O frade fingia não dar pela presença dela que, a certa altura, não resistiu mais e perguntou:
     - Então, e é boa... essa sopa?
     - Boa? Fica sabendo que é das coisas mais saborosas que eu já comi. E então se me trouxesses uma batatinha, ou uma folhinha de couve, ainda ficava melhor.
     A mulher lá foi à horta e regressou com duas batatas, uma cebola, três folhas de couve. Frei Bernardo não se fez rogado. Uma boa sopa de hortaliças já ele tinha a ferver, diante dele. No entanto, passado algum tempo, virou-se para a mulher e disse:
     - Esta sopinha não está nada má, mas se lhe juntasse um dentinho de alho, um fio de azeite, duas rodelas de chouriço... ah! Então até os anjos do Céu seriam capazes de a comer.
     A sopa cheirava que era um regalo, disso ninguém poderia duvidar. A mulher entrou em casa e de lá saiu trazendo o que faltava.
   - Sabes o que te digo? És uma boa alma. Vai buscar duas gamelas e senta-te aqui comigo, que a sopa chega bem para os dois.
     Eis como Frei Bernando se deliciou com uma bela sopa, num local onde, de outro modo, bem sabia que nada lhe teriam dado para comer.
    - E a pedra? - perguntou a mulher, quando chegaram ao fundo da panela.
    - A pedra? Olha, essa, levo-a comigo, que me há-de servir outras vezes.
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David Martins é autor português.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Epigrama, Gregório de Mattos


Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.


Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.


O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta


Verdade, honra, vergonha.


Quem a pôs neste socrócio?(1)... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.


Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.


Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.


Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.


Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.


Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.


E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.


Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça


Bastarda, vendida, injusta.


Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha


Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.


E nos frades há mangueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.


Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.


O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.


À Bahia aconteceu


O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.


A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.


Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.


(1) - Socrócio: roubalheira, rapinagem - palavra criada por Gregório de Mattos.
(2) - Relacionado ou composto por sandice; tolo, idiota..
(3) - Antigamente era o oficial de justiça ( que tinha obrigação de prender), gado que vai pastar no verão.
(4) - Corpo dos clérigos ou dos eclesiásticos de uma igreja, de um país.
(5) - Choradeira de criança, fazer um mal e apresentar-se como vitima.

domingo, 26 de setembro de 2010

4 domingos para Antônio Maria (final)

     Nos domingos anteriores, postei crônicas do jornalista, compositor e boêmio pernambucano nascido em 1921 no Recife e falecido no Rio  de Janeiro em  1964. Hoje, para encerrar, transcrevo:

 "Oração para Antônio Maria, pecador e mártir", escrita por Vinícius de Moraes em julho de 1968:





"Nós saíamos os dois do "Vogue", e depois de deixar Aracy no táxi que a levava ao seu subúrbio, seguíamos de carro até o Leblon, às vezes acompanhando a matilha madrugadora de vira-latas a transitar entre as calçadas do Jardim de Alá; havia sempre um que parava para fazer pipi, o que provocava o reflexo dos outros, e era aquela mijação feliz — que eu nunca vi raça de bicho mais contente da vida que vira-lata carioca ao nascer do Sol. Parecia, mal comparando, uma fileira de lingüiças semoventes, uma a cheirar o rabinho da outra.

Você ria uma grande gargalhada, contente com o seu Cadillac velho, com a explosão da aurora no mar, com os vira-latas transeuntes e com seu novo amigo e poeta. E depois de passar pela casa de Caymmi, para ver se o baiano ainda ralentava a noite, acabávamos nos Pescadores enfrentando um filé com fritas, ou uns ovos com presunto — os melhores de Copacabana, porque eram feitos para a nossa grande fome. O pão era fresco e a cerveja bem gelada. Depois você me deixava em casa, eu dilacerado de saudades de tudo: de você, das conversas na boate amiga, onde dois barões, von Schiller e von Stuckart, disputavam em carinho e gentileza. E sobretudo da mulher amada ainda não tida. Você, maciste ao volante, cantava a marcha que tinha feito para a minha infinita dor-de-corno:

É muito tarde pra esperar por ela
Ela não vem ouvir a tua voz
Esquece, amigo porque a vida é bela
A noite é grande e cabe todos nós...

Um elo forte e viril se fizera entre nossas almas, e nós passamos a ser imprescindíveis um ao outro. A noite — que esperança! — não era grande, era pequena para a nossa gula de vivê-la em toda a sua plenitude. Tudo passava tão rápido, nós olhávamos as moças dançando, Aracy cantava, surgia a figura amiga de Fernando Ferreira, de repente a porta da boate deixava filtrar a luz da manhã. "Ele", como dizia Américo Marques da Costa, tinha despontado. Mais um dia, mais uma morte. Muitas mortes morremos nós, meu Maria, antes que a sua acontecesse para deixar-me mais só vivendo as minhas. Tantos já se foram, atraídos pela Grande Noite... Evaldo Rui, Bicudo, Stuckart, Waldemarzinho, Louis Cole, Alzirinha, Mauro, Dolores, Ozorinho, Ismael Filho, Ari... Mas em compensação ai estão Paulinho Soledade e Carlinhos Niemeyer, respirando por um fole só, mas cada dia fazendo mais viração; Verinha, esse amor de Verinha, uma graça total, a nossa boa Araça, rainha das vagotônicas, e o querido Rinaldinho, que neste particular nada lhe fica a dever, ele e sua gargalhada que o rádio silenciou. E de vez em quando ainda acontece uma grávida, em geral moça do Norte. Porque a verdade, meu Maria, é que depois da pílula, moça carioca quase não muda mais de silhueta. Às vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Agora só se faz música para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50. Todo mundo faz música com objetivo: comprar apartamento, ter um carrinho, ganhar popularidade, dobrar o cachê, vencer Festival, namorar as moças, bater papo furado. Isso não quer dizer que os caras não sejam ótimos compositores: eles o são. Mas tudo é feito num espírito muito toma-lá-da-cá, cada-um-por-si-e-Deus-por-todos. Assim, a meu ver, perde a graça. Aliás, não é culpa deles. Em absoluto. É o "esquema", como está em moda falar. Eles têm que estar na onda, senão não tem apartamento, não tem carro, não tem cachê, não tem Festival, o papo micha e as moças não dão. Ficam, por assim dizer, marginalizados, e aí nem o "Globo" nem a "Record" querem nada com os infelizes. Em resumo, meu Maria, não se perdeu a música; perdeu-se a sua dignidade.
 Mas por um motivo eu sei que você gostaria de estar vivo: as moças. Elas estão, meu Maria, cada dia mais lindas e esportivas, havendo mesmo uns espécimes de se espetar na parede com alfinete. E acho que você iria gostar do "Antonio's", um restaurante novo do Leblon onde todo mundo vai, e tem de certo modo o espírito do velho "Maxim's" dos anos 51/53.
 De vivo mesmo, meu bom Maria, há Oscar Niemeyer e Di Cavalcanti, certamente os dois maiores homens do atual Brasil. Di está, nos seus 70, a coisa mais jovem, trêfega, inteligente e lírica do mundo, pintando cada dia mais lindo e batendo o melhor papo da República. E Oscar então, desse nem se fala. Elevou-se muito acima de todos, pelo gênio, pela consciência política, pela compreensão humana, pela simplicidade autêntica.

E há os estudantes. Estão maravilhosos, e dando lição de cultura aos pais e professores. Saem à rua como um fogo que se alastra, fazendo comícios relâmpagos, topando as paradas com a polícia e conseguindo unir todas as camadas da população, com exceção dos milicos. Outro dia nós saímos em passeata cívica, e éramos 100.000 na Avenida Rio Branco: estudantes, intelectuais, clero, donas de casa, protegidos por um extraordinário esquema de segurança bolado pelos próprios garotos. Uma beleza. Se alguma coisa de bom tem que sair deste país, vai ser à base do novo movimento estudantil. E, naturalmente, Chico Buarque de Holanda."


Veja aqui os outros domingos para Antônio Maria

sábado, 25 de setembro de 2010

Crônicas da M.P.B: Garçom

http://www.youtube.com/watch?v=kKBRegu5L14



Garçom

Reginaldo Rossi

Garçom! Aqui!
Nessa mesa de bar
Você já cansou de escutar
Centenas de casos de amor...
Garçom!
No bar todo mundo é igual
Meu caso é mais um, é banal
Mas preste atenção por favor...
Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração...
E pra matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou me embriagar
Se eu pegar no sono
Me deite no chão!...
Garçom! Eu sei!
Eu estou enchendo o saco
Mas todo bebum fica chato
Valente, e tem toda a razão...
Garçom! Mas eu!
Eu só quero chorar
Eu vou minha conta pagar
Por isso eu lhe peço atenção...
Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Tarde de Cordel no Recife

Tarde de Cordel
Onde? Livraria da Jaqueira
Endereço:Rua Antenor Navarro 138 - Jaqueira
O que vai haver? Lançamento dos livro: “Mulheres: do Preconceito à Justiça”; “Patativa do Assaré - Um Poeta do Sertão”; e “Folclore Brasileiro”.
Quem vai estar lá? Rivani Nasario, conhecida como a cangaceira do cordel,  e os cordelistas:Meca Moreno, Davi Teixeira e José Evangelista.

Contados, astuciados,sucedidos e acontecidos do povinho do Brasil (4) José Cândido de Carvalho

Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicom



     Lulu Bergantim veio de longe, fez dois discursos, explicou por que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém entendeu, expediu dois sôcos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de Curralzinho Nôvo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda Carlos Gomes e dos versos atirados no rosto de Lulu Bergantim pela professora Andrelina Tupinambá, o novo prefeito de Curralzinho sacou do paletó na vista de todo o mundo, arregaçou as mangas e disse:


     -Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!


     E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando “o teu- cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-côr” que o ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:
    - Ou vai ou racha! 
     E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:
     - Agora a gente vai fazer serviço de tatu!
     O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o Sentinela Municipal, do “salutar benefício do chamado precioso líquido”. Por fôrça de uma proposta de Cazuza militão, dentista prático e grão mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na praça das Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição, quando Lulu Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com pedidos e apelações. E discurso fez, com faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:
    - Não abro mão. Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.
    Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Nôvo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:
   -Por essas e outras é que não atravessei o Rubicom!
    Lulu foi embora embarcado em nunca mais. Sua estátua ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de enxada na mão. Para sempre Lulu Bergantim.


Nota: optei por manter a grafia original
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José Cândido de Carvalho
1914 - 1989 -é de Campo dos Goytacazes -  RJ
Seu nome é sempre associado à  obra O coronel e o Lobisomem(1964). Porém a primeira publicação de José Cândido  de Carvalho aconteceu 25 anos antes : Olha Pro Céu Frederico (1939). Foi bacharel em  direito e colaborou em  diversos jornais e na revista O Cruzeiro. Também é autor de:
O Rei Baltazar - romance
Gil no cosmos - infanto-juvenil
Por que Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon,
Ninguém mata o arco-íris,
Os mágicos municipais 
Um ninho de mafagafos cheio de mafagafinhos. ____________________________________________________________________

Este conto é ultimo de 4 que o blog publicou( dias 3, 10,17,24) durante o mês de setembro. Todos foram  retirados do livro Porque Lulu Bergantim Não Atravessou o  Rubicom e em  todos eles mantive a grafia usada à época em  que foram  escritos. 
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

The challenges of scientific an environmental journalism: the second-generation biofuels



In today's world, the development of alternative sources of energy is becoming more necessary in order to solve the global problems of energy supply, climate change and other environmental issues. However, as some of these processes are in their early stages, their feasibility and impacts are not possible to measure. In the case of biofuels, the new generations are being heavily criticised whilst they are being researched. This book brings a series of articles about the second-generation biofuels, analysing their repercussions in economic, technological and environmental fields. The book also presents an analysis on scientific and environmental journalism, discussing the role of the media in society; the role of science and environmental reporting; the problems journalists face; the challenges posed by the increasingly commercial media; and interviewing journalists to learn how they deal with their work environment challenges. This discussion is of public interest and could be useful to several groups, from Journalists ?as well as Journalism students? to Environmentalists, Scientists and their respective Public Relations.


About the Author


Juliana Sampaio Pedroso de Holanda, MA in International Journalism from the City University London, completed with Distinction (2007-2008). BA in Journalism from the Federal University of Pernambuco, Brazil (2000-2004). Freelance Journalist.




Paperback: 88 pages

Publisher: LAP LAMBERT Academic Publishing (July 19, 2010)
Language: English
ISBN-10: 383837987X
ISBN-13: 978-3838379876
Product Dimensions: 9.1 x 5.9 x 0.3 inches
Shipping Weight: 5.6 ounces
$49,34 (http://www.amazon.com/challenges-scientific-environmental-journalism-second-generation/dp/383837987X/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books)


(Do site: amazon.com)

Estadão: 419 dias sob censura


Frequentes vezes, informei aqui sobre a censura ao Estadão, e mais de uma vez perguntei a razão de nunca ter visto reação alguma de quem em outros tempos gritava a plenos pulmões contra a censura à imprensa.
Volto então para dizer da minha imensa felicidade por ver no próprio Estadão que houve reação. Enfim, alguém  abriu a boca.

Imagem Agência estado.

Ví, adorei e recomendo.

Estive recentemente em São Paulo e fui conhecer o Museu da Língua Portuguesa. Recomendo a todos. Vi a exposição atual que é de Fernando Pessoa, mas não é só por ela a minha recomendação. O museu é uma concepção inteligentíssima. Sem ver não dá para ter ideia de como é possível interagir, mas é possível sim e a gente faz instintivamente. É passeio válido  para crianças,  adultos, estudantes, professores, para todos na verdade. Voltando  a São Paulo vou lá novamente. Aliás desde agora recomendo  ao  turista, gastar o dia inteiro naquele triângulo: Museu e Estação da Luz, e do outro lado da rua a Pinacoteca. duvido que não goste.




A seguir informações retiradas do site:
O Museu da Língua Portuguesa está localizado no centenário prédio da Estação da Luz em São Paulo, cidade com o maior número de pessoas que falam português no mundo (aproximadamente 11.000.000 de habitantes).




Marco histórico da Cidade de São Paulo, o prédio da Estação da Luz, com sua arquitetura inglesa do início do século XX, passou por um apurado processo de restauro e adaptação para receber as instalações do Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em março de 2006. Museu da Língua Portuguesa

Exposição temporária:
Fernando Pessoa, plural como o universo



A exposição está em cartaz na sala de exposições temporárias do Museu da Língua Portuguesa
De 24 de agosto de 2010 até 30 de janeiro de 2011
De terça a domingo, das 10 às 18h


Bilheteria: de terça a domingo, das 10h às 17h.
Museu: de terça a domingo, das 10h às 18h.
Não abre às segundas-feiras.
R$ 6,00
Estudantes com carteirinha pagam meia-entrada.
Professores da rede pública com holerite (contra-cheque) e RG, crianças até 10 anos e adultos a partir de 60 anos não pagam ingresso.


Não há venda antecipada de ingresso.
Aos sábados, a visitação ao museu é gratuita.

Horóscopo poético - Libra 23 de setembro a 22 de outubro

LIBRA
Vinicius de Moraes



A mulher de libra
Não tem muita fibra
Mas vibra.
Quer ver uma libriana contente?
Dê-lhe um presente.
Quando o marido a trai
A mulher de libra
balanças mas não cai.
Se você a paparica
Ela fica.
Com librium ou sem librium
Salve, venusina
Que guarda o equilíbrio
Na corda mais fina.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Poema para um mercado.


Sr. João Levi - Imagem Rev.Época on line

Construído por imigrante,
este prédio tão gigante,
em toda parte do mundo é falado.
25 de janeiro, dia do seu aniversário,
receba esta homenagem de um dos seus permissionários.
Nós todos vamos embora,
mas vêm outros proprietários.
Deus que conserve esta estrutura
por muitos mais centenários.

João Levi Miguel

(dedicado ao Mercado Municipal de São Paulo)

Quarta-feira é dia de conto: Por Um Pé de Feijão

Por Um Pé de Feijão

Antônio Torres


     Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (á nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida.
     Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar.
     Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar?
     E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braços seriam bastantes para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e aí é que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta.
     No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava à professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio-dia e a professora disse que podíamos ir, saí correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pela boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão.
     Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe.
     E eu vi os olhos da minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que antes havia arrancado os pés de feijão:
- Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido?
     E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca.
     À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu banco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado.
     Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando.
     - Ainda temos um feijãozinho-de-corda no quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos.
     E disse mais:
     - Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou. Então eu pensei: O velho está certo.
     Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Capa de livro: Pronto Pra Guerra

O livro:

Pronto Pra Guerra
Autor: Leandro Paiva
Ed. OMP - 2009
Assunto: Futebol






Capa: Leonardo Castelo Branco
Foto: Leandro Paiva
Projeto gráfico: Heitor Costa.
 

Neste livro, o assunto central é o tema da inclusão. O assistente social e consultor de reabilitação Romeu Kazumi Sassaki discute os conceitos inclusivistas, aborda a inclusão na escola, na saúde, no mercado de trabalho, nos esportes, nas artes e no turismo. O autor analisa o desenho universal para ambientes físicos e também as leis e políticas integracionistas e inclusivas.(Site da Saraiva)











Melhores livros do primeiro semestre 2010

Brochura,280 pags. Ed.Record
R$34,90 Americanas.

Em votação mensal, os membros da comunidade livro errante escolheram os melhores livros do primeiro  semestre de 2010
Prata do Tempo - Letícia Wierzchwski
Rio das Flores - Miguel de Souza Tavares
Os Homens Que Não Amavam As Mulheres - Stieg Larsson
O Que Cabe Em Duas Malas - Verônika Peters
O Olho  da Rua - Eliane Brum
O Castelo de Vidro - Jeanette Walls
Infiel - Miriam Goldemberg
Inês de Minha Alma - Isabel Allende
Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei - Malika Oufkir e Michèle Filoussi
Cris, A Fera - Davi Coimbra
Cisnes Selvagens - Jung Chang
Beleza e Tristeza - Yasunari Kwabata
A Trégua - Mario Benedeti
A Pérola - John Staimbeck
A Costa do Mosquito - Paul Theroux

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Segunda-feira poética: Richardson Nochelli



     








GULA

 Richardson Nochelli

Se soubesse o tamanho da minha fome
não se arriscaria servir-se de bandeja ao meu desejo.
Se entendesse o anseio ardente de ti que me corroe,
não deixaria sequer um dedo a mostra em minha presença.
Devoro-te!
Alimento-me de teus desejos, incorporando-os aos meus
e sou agora um amontoado de alucinações,
vive em mim como uma praga desejada,
como a peste convidada,
como a morte bem vinda.

domingo, 19 de setembro de 2010

4 domingos para Antônio Maria (3)

Guia Prático e Sentimental da Rio-São Paulo 


    Ao completar 60 viagens da rodovia Presidente Dutra, gostaria de contar as belezas, os perigos e os mistérios dessa estrada comprida. Há quase dois anos, todas as vezes que são Paulo dá saudade e chama, venho  fazendo esse caminho e o  considero o maior prazer de um  viciado  em automóvel. Se a estrada ja matou gente, não  a evitem por isso. O homem, morredor por excelência, tem morrido, tragicamente, em  todos os caminhos do mar,do  céu e da terra. É necessário, porém, saber andar naquela pista estreita. Se a reta tem  quase cem  quilômetros, o pneu pode não ter mais nem um minuto  de vida. Se a curva surgiu  de repente, vamos desenhá-la a capricho, ocupando menos da metade do  asfalto. Se, depois, o  terreno é ondulado, na baixa pode haver um  buraco ou um carro enguiçado. Tomados esses cuidados, o motorista deve apegar-se a uma ideia - chegar. O  tempo normal de uma viagem tranqüila é de seis horas. Mas, a tendência de quem  dirige é encurtar esse tempo, depois da terceira ida. Vitor Costa, em  automóvel Cadillac, já fez em  4 horas e 15 minutos. Eu mesmo, também em  Cadillac, consegui 4 horas e 25. Mas, o senhor Fernando Chateubriand, em Jaguar XK120, quando gasta mais de 3 horas e meia, fica de mau humor o dia inteiro. Nenhum dos leitores deve tentar essas marcas, não  só porque estaria viajando perigosamente, como também porque perderia o melhor do passeio: as paradas.

Jaguar XK120
     Saindo de noite, a primeira parada deve ser o jantar de Resende. Há um  restaurante sem nome, à esquerda de quem  vai, antes de chegar à zona residencial dos militares. Ali, come-se um  bife delicioso, feito na manteiga, com o molho do próprio  sangue e servido com  ervilhas e arroz. Levados por mim, José Condé, Odorico Tavares, Rubem Braga, Millor Fernandes, Reinaldo Dias Leme e Dorival Caymmi já provaram dessa comida e lamberam os beiços. É prudente, porém, ir à cozinha e conversar com um cidadão meio  atarracado, que se chama Oséas. Ele adora ser consultado sobre a qualidade da carne e diz sempre se a alcatra está melhor que o  filé.
     Depois de Resende é uma reta só, fascinante, instigando o pé contra o  acelerador. Passa por Queluz,Cruzeiro, Cachoeira Paulista, Lorena, Guaratinguetá, Aparecida, Pinda e chega a Taubaté, onde é sempre necessário reencher o  tanque, ver água, óleo, pneus. No primeiro posto à direita, há um  botequim freqüentado por  motoristas de caminhões e retirantes nordestinos dos "paus-de-arara". O elemento  local ouve conversa e fala com seu "r" oleoso, ótimo para quem  tenciona aprender inglês.Comem-se as lingüiças mais gostosas do mundo, fritas na hora, à vista do freguês. O  caminho que resta para São Paulo não  gasta hora e meia, a não ser que haja inverno e madrugada, quando o nevoeiro raras vezes falha e se cola no  pára-choque  do  automóvel, obrigando todo trânsito a 30 quilômetros de marcha lenta. Em São José dos Campos, num restaurante ao lado do Posta Parente, come-se uma galinha de arroz que nada é diferente das galinhas de sua casa. Logo depois, sente-se passagem para Jacareí, porque mulheres e crianças estão postas à margem da estrada oferecendo os seus famosos biscoitos. Só parei uma vez para essa transação. Depois, passei sem  diminuir a marcha e, para não  desacreditar de mim, resolvi não  acreditar nos biscoitos de Jacaraí. O resto é mais uma reta, até São Paulo, onde, se alguém nos espera, acontece uma porção de coisas boas.
     Só deve ir a São Paulo de automóvel quem  vai descansar, quem deixou as preocupações em  casa e pode merecer a estrada no  que ela sabe dar de melhor. Quem  vai a negócio, quem leva preocupação ou está sujeito a desencantos ao  chegar, deve, de preferência, tomar o trem  ou o avião. A estrada é para quem está em  estado de graça. A escolha dos companheiros também é muito importante. Todos os preparativos devem  ser feitos num máximo de sigilo, para evitar que alguém se ofereça como companhia e pôr-nos à vontade para convocar o que houver de melhor em matéria de apetite, sede e conversa. Devem  ser evitados aqueles que cochilam, os que mandam  fechar os vidros e os que pedem para  diminuir a marcha.
Dizem que é uma maravilha levar namorada recente, mas, para essa graça, embora muitos sejam  chamados, poucos são  os escolhidos. De um  jeito ou de outro, a Rio-São Paulo ainda é uma grande inspiradora. Das suas noites, do que se disse e sentiu em suas idas e vindas, nasceram  minhas pobres canções.

Nota:optei por manter a grafia original

sábado, 18 de setembro de 2010

Crônicas da M.P.B:Sinal Fechado



Sinal Fechado

Paulinho da Viola


– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E
você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo...
Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa - é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos...Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é...quanto tempo!
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone - Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente...
– Pra semana...
– O sinal...
– Eu procuro você
– Vai abrir, vai abrir...
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
– Por favor, não esqueça, não esqueça...
– Adeus!
– Adeus!
– Adeus!



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Prêmio Camões 2010

Imagem Agência Estado
O poeta maranhense Ferreira Gullar recebeu hoje, dia 17, diploma do Prêmio Camões 2010, a mais importante premiação entre os países de língua portuguesa. Com 80 anos recém completados Ferreira Gullar foi aplaudido de pé e agradeceu: "O sentido da vida é o outro, é o outro que dá sentido ao que a gente faz. Quando o reconhecimento chega nesse nível, a gente vê que valeu a pena."

Contados, astuciados,sucedidos e acontecidos do Brasil

Uma Questão de Vida ou de Gravata Borboleta
De José Cândido  de Carvalho em Porque Lulu Bergantim não  atravessou o  Rubicon

    O Môço Abreu Pestana montou, na Rua da Imperatyriz, banca de doutor em leis, chegado do Rio  e aparelhado para defender, no  civil e fora do  civil, qualquer causa por mais pau-de-formiga que fôsse. Era em São Félix, cidadezinha que vivia a bem  dizer das tetas de léguas em  derredor. Era branquinha de leite, com jardim de passear e igreja de rezar. O  dono de tôda essa ostentação morava no Beco do Cravo, em  casarão que vinha do mais recuado antigamente, o Major Leleu Calaça. Valia o major por um  saco de surucucus. O povo, contaminado de susto, passava diante de sua varanda em jeito  de vírgula, cabeça rebaixada,  quase na ponta do pé. Mas o môço abreu Pestana, doutor novinho em  fôlha, deixou de lado a fama do major e aceitou cobrar umas contas muito  dormidas dêle.Quando, no meio  da barba, no Salão Royal, Pestana assevereou que ia demandar contra Major Leleu Calaça, o  barbeiro, navalha no  ar, parou seu escanhoar. E recuando:
     -Virgem mãe! Não  cometa tal dislate!
     Mas o doutor cometeu e ganhou. O major teve que pagar tudo na bôca do  cofre, sem um  ai,sem um  gemido. Na asa dessa vitória a coragem do môço inchou. E inchando mandou fazer tabuleta que colocou no  consultório da Rua da Imperatriz. A tabuleta ria por cima dêsses dizeres:

       _______________________________
   DR.ABREU PESTANA ACEITA TUDO
 QUE É CAUSA. MESMO CONTRA O
  MAJOR LELEU  CALAÇA.              
     ______________________________
     O entêrro do môço veio logo em  seguimento. Tempos depois, em  conversa de varanda, o major afiançou que a morte do  doutorzinho não  teve raiz na demanda da Justiça nem no  desafôro da tabuleta. Foi motivada por falta de respeito. E clareando a dúvida:
     Onde já se viu um  sujeito aparecer em São Félix com aquela sem-vergonheza dependurada no pescoço, heim?
      A sem-vergonheza era uma gravata. A gravata borboleta do  doutor.

Nota: optei por manter a grafia original

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Pechinchas

escritor novo no pedaço...

Vem do Rio Grande do Sul  Antônio Xerxenesky, 26, com o romance "Areia nos Dentes" autor estreante na literatura brasileira; abaixo entrevista do gaucho concedida ao  caderno Ilustríssima da folha de São Paulo:






Folha - Foi difícil escrever e publicar?

Antônio Xerxenesky - Publicar é algo que se tornou muito fácil no Brasil. Há uma proliferação de pequenas editoras e, com o advento dos computadores, qualquer grupo de amigos pode abrir uma editora independente. Escrever um romance, porém, foi muito mais complicado. Os jovens são treinados para escrever contos, que, apesar de trazerem suas próprias complexidades, não precisam de muito fôlego. Um romance exige disciplina.

Folha - Como vê o seu livro no contexto da literatura brasileira contemporânea?

Antônio Xerxenesky - O que há de mais interessante na literatura brasileira contemporânea, creio, é a pluralidade de estilos. Há espaço tanto para narradores experimentais, como André Sant'Anna e Joca Reiners Terron, quanto para outros mais conservadores. Acredito que há uma abertura e uma liberdade imensas. O meu desafio pessoal é tentar aliar um estilo mais caótico com as velhas questões dos livros realistas. Ou seja: um pós-modernismo que não esquece que livros tratam, antes de mais nada, de seres humanos.
Folha - Que referências narrativas ajudam a definir o seu texto?
Antônio Xerxenesky - "Areia nos Dentes" apresenta "uma história dentro de uma história". O enredo de superfície é um pastiche de faroeste que busca, acima de tudo, divertir. Trata-se de uma mescla absurda de western spaghetti e clichês do cinema de terror. Enquanto isso, a narrativa de fundo, que mostra os bastidores de como esse faroeste é escrito, liga-se, no decorrer do romance, cada vez mais com a superfície. A "parte faroeste" é contada por um narrador nada confiável, e uma das graças de "Areia nos Dentes" é justamente descobrir as intenções ocultas por trás do simples desejo de contar uma história. A grande influência literária foi de Thomas Pynchon. Lendo seus romances "Against the Day" e "Mason & Dixon", assimilei o prazer que é mesclar alta cultura e baixa cultura, sem contar o deleite de fazer o narrador perder-se em digressões. Devo também mencionar o romancista Cormac McCarthy, que provou que ainda é possível escrever um faroeste nos dias de hoje. No cinema, a principal dívida é com Sergio Leone, que filma cenas absurdas com seriedade e paixão.
Folha - O seu livro saiu pelo selo artesanal "Não Editora", fora das grandes livrarias. Qual é a diferença de publicar o mesmo livro por uma "sim editora"?
Antônio Xerxenesky - A primeira grande diferença é que ser entrevistado pela Folha se torna algo possível. Além de conseguir alcançar a grande mídia, as editoras maiores têm um sistema de distribuição muito superior, o que permite que o livro atinja muitos novos leitores. A desvantagem, claro, é que não posso mais participar de cada pequeno aspecto da produção do livro, o que deixa um obsessivo como eu bastante nervoso.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Quarta-feira é dia de conto: No Retiro da Figueira, Moacyr Scliar


     Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... Era maravilhoso. Bem como dizia o prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranqüilo, um dos últimos locais – dizia o anúncio – onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao condomínio: Retiro da Figueira.
     Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à cidade – e eram uns bons cinqüenta minutos – ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes – e sobretudo dos guardas. Oito guardas, homens fortes, decididos – mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: “ah, mas ele deve ser formado em alguma universidade”. De fato: no decorrer da conversa ele mencionou – mas de maneira casual – que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
     Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança; trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém roubado e espancado; e quando uma amiga nossa foi violentada por dois marginais, minha mulher decidiu – tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de procurar um lugar seguro.
     Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se morássemos num edifício mais seguro o portador daquela mensagem publicitária nunca teria chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo enfiado sob a porta transformou-se – como dizia o texto – num novo estilo de vida.
     Não fomos os primeiros a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário; entre nossa primeira visita e a segunda – uma semana após – a maior parte das trinta residências já tinha sido vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto. E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança.
     Naquela semana descobri que o prospecto tinha sido enviado apenas a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo, só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores – e viu nisso mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
     Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da manhã começavam seu afinado concerto. Os pôneis eram mansos, as aléias ensaibradas estavam sempre limpas. A brisa agitava as árvores do parque – cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa para ver se estava tudo bem – sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez uma lista dos parentes e amigos dos moradores – para qualquer emergência, explicou, com um sorriso tranqüilizador. O primeiro mês decorreu – tal como prometido no prospecto – num clima de sonho. De sonho, mesmo.
     Uma manhã de domingo, muito cedo – lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham começado a cantar – soou a sirene de alarme. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um pouco assustados – um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao salão de festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
     O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir que não saíssemos naquele domingo.
     – Afinal – disse, em tom de gracejo – está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as quadras de tênis...
     Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente contrariado.
     Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada. Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho. Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não poderíamos sair – os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião o chefe dos guardas respondeu que, mesmo de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
     – E vocês, por que não nos acompanham? – perguntou o cirurgião.
     – E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.  Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas nós os víamos e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
      Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando nada daquilo.
     Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.
     Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós – amedrontado, pareceu-me – e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
     O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião decolou e sumiu.
   Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo que estão gozando o dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao nosso – que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.

Moacyr Scliar

Nota: o blog manteve a grafia original.