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Noturno, Ariano Suassuna

Têm para mim Chamados de outro mundo as Noites perigosas e queimadas, quando a Lua aparece mais vermelha São turvos sonhos, Mágoas proibidas, são Ouropéis antigos e fantasmas que, nesse Mundo vivo e mais ardente consumam tudo o que desejo Aqui. Será que mais Alguém vê e escuta? Sinto o roçar das asas Amarelas e escuto essas Canções encantatórias que tento, em vão, de mim desapossar. Diluídos na velha Luz da lua, a Quem dirigem seus terríveis cantos? Pressinto um murmuroso esvoejar: passaram-me por cima da cabeça e, como um Halo escuso, te envolveram. Eis-te no fogo, como um Fruto ardente, a ventania me agitando em torno esse cheiro que sai de teus cabelos. Que vale a natureza sem teus Olhos, ó Aquela por quem meu Sangue pulsa? Da terra sai um cheiro bom de vida e nossos pés a Ela estão ligados. Deixa que teu cabelo, solto ao vento, abrase fundamente as minhas mão... Mas, não: a luz Escura inda te envolve, o vento encrespa as Águas dos dois rios e continua a ronda, o Som do fogo. Ó meu ...

Um Livro, João Pedro Masséder

Levou-me um livro em viagem não sei por onde é que andei Corri o Alasca, o deserto andei com o sultão no Brunei? P’ra falar verdade, não sei Com um livro cruzei o mar, não sei com quem naveguei. Com marinheiros, corsários, tremendo de febres e medo? P’ra falar verdade não sei. Um livro levou-me p’ra longe não sei por onde é que andei. Por cidades devastadas no meio da fome e da guerra? P’ra falar verdade não sei. Um livro levou-me com ele até ao coração de alguém E aí me enamorei – de uns olhos ou de uns cabelos? P’ra falar verdade não sei. Um livro num passe de mágica tocou-me com o seu feitiço: Deu-me a paz e deu-me a guerra, mostrou-me as faces do homem – porque um livro é tudo isso. Levou-me um livro com ele pelo mundo a passear Não me perdi nem me achei – porque um livro é afinal… um pouco da vida, bem sei. Algumas obras do autor:   Fissura   Versos com Reversos  e  Palavra que Voa   Histórias a Muitas Mãos ,  Pequeno Livro das Coisas   Tudo É sem...

A Escrita do Deus, Jorge Luís Borges

     O cárcere profundo e de pedra; sua forma de um hemisfério quase perfeito, embora o piso (também de pedra) seja algo menor que um círculo máximo, fato que de algum modo agrava os sentimentos de opressão e de grandeza. Um muro corta-o pelo meio; este, apesar de altíssimo, não toca a parte superior da abóbada; de um lado estou eu, Tzinacan, mago da pirâmide Qaholom, que Pedro de Alvadaro incendiou; do outro há um jaguar, que mede com secretos passos iguais o tempo e o espaço do cativeiro. Ao nível do chão, uma ampla janela com barrotes corta o muro central. Na hora sem sombra (o meio-dia), abre-se um alçapão no alto e um carcereiro que os anos foram apagando manobra uma roldana de ferro, e nos baixa, na ponta de um cordel, cântaros de água e pedaços de carne. A luz entra na abóbada; neste instante posso ver o jaguar.      Perdi o número dos anos que estou na treva; eu, que uma vez fui jovem e podia caminhar nesta prisão, não faço outra coisa sen...

Acalanto Para Um Rio, José Eduardo Agualusa

Nada passa, nada expira o passado é um rio que dorme e a memória é um rio multiforme. Dorme do ria as águas e em meu regaço os dias dormem dormem as mágoas as agonias, dormem. Nada passa, nada expira O passado é um rio adormecido parece morto, mal respira acorda-o e saltará num alarido. Em: O Vendedor de Passados Filme: O Vendedor de Passados Brasil - 2015 Direção: Lula Buarque de Hollanda Roteiro: Isabel Muniz (Fonte: Campos Virtual Fiocruz )

Gato Ao Crepúsculo (poeminha de louvor ao pior inimigo do cão), Millôr Fernandes

Gato manso, branco, Vadia pela casa, Sensual, silencioso, sem função. Gato raro, amarelado, Feroz se o irritam, Suficiente na caça à alimentação. Gato preto, pressago, Surgindo inesperado Das esquinas da superstição. Cai o sol sobre o mar. E nas sombras de mais uma noite, Enquanto no céu os aviões Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde, Terminam as diferenças raciais. Da janela da tarde olho os banhistas tardos Enquanto, junto ao muro do quintal, Os gatos todos vão ficando pardos. (fonte: Socializando Leituras )

Porquinho da Índia, Manuel Bandeira (infantil)

Quando eu tinha seis anos Ganhei um porquinho-da-índia. Que dor de coração me dava Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão! Levava ele pra sala Pra os lugares mais bonitos e limpinhos Ele não gostava: Queria era estar debaixo do fogão. Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas… – O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada Em: Libertinagem (1930)

Coco do Pé de Manga, Jessier Quirino

As mangueiras tão de luto E as mangas de sentimento Derrubaram um pé de manga Pra fazer um apartamento. Um pé de manga Um pé de cupuaçu Um pé de jaca, um pé de coco E lindo pé de caju. Como é que pode Tamanho descabimento Derrubar um pé de manga Pra fazer um apartamento.   Um pé de manga Um pé de jaca e um pé de pinha De pitomba e graviola Daquela bem papudinha. Como é que pode Um cabra sem atributo Derrubar um pé de jaca Pra fazer um viaduto. As jacas de sentimento E as jaqueiras tão de luto Derrubaram um pé de jaca Pra fazer um viaduto. Um pé de jaca Um pezinho de romã Jambeiro, tamarinheiro Banana prata e maçã. Como é que pode Um cabra sem-vergonhento Derrubar um pé de jambo Pra fazer um apartamento.  Os jambeiros tão de luto E os jambos de sentimento Derrubaram um pé de jambo Pra fazer um apartamento. Um pé de jambo Um lindo pé de canela Sapoti, coisa mais bela E um pé de maracujá. É de lascar... Um pé de lima carregado Abacateiro florado Q'eu não posso nem lembrar. Letra ...