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A Igreja do Diabo (1 e 2), Machado de Assis

(1) Uma Idéia Mirífica*      Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater outra religiões, destruí-las de uma vez.       - Vá, pois, uma igreja, conclui ele. Escritura contra Escritura,breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abrão. E depois, enquanto a outras religiões se combatem, se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante d...

A Igreja do Diabo (3 e 4) Machado de Assis

(3) A Boa Nova Aos Homens      Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito  de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleits mais óntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.       - Sim, sou o diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo,...

Minha Voz Não Silencia Porque Poeta Não Cala, Antonio Carlos Nóbrega

Nem na faca, nem no grito, nem na tapa, nem na bala, nem na forca, nem na força, nem na dor que a tudo estala. Minha voz não silencia porque poeta não cala. Nem no açoite, nem no tiro, nem na lança que empala, na angústia, na tortura, nem na morte que avassala. Minha voz não silencia porque poeta não cala. Minha voz vem do peito e da garganta de Homero, de Lorca e Lourival, Bob Dylan, Leminski e João Cabral, de Camões, de Cecília que encanta. É a voz que exalta, grita e espanta a amargura, a tristeza, e a tudo embala. É o grito do mundo, da senzala, de Drummond, Vilanova e Neruda. Da beleza e do sonho não desgruda... É que a voz de um poeta nunca cala. Nem no fogo, afogado, nem no ódio que embala, nem no berro, nem no ferro, nem na cela, sem a fala. Minha voz não silencia porque poeta não cala. Nem na tranca, nem no tranco, nem no tronco da senzala. Nem na trama, nem no golpe, na mentira que entala! Minha voz não silencia porque poeta não cala. O racismo, a mentir...

Nascido em 21 de Junho: Machado de Assis

  Imagem:book center Brazil Machado de Assis, por Rubem Braga. São trechos de um programa de televisão em que Machado de Assis é entrevistado 50 anos depois de sua morte. Suas respostas são frases que ele mesmo escreveu em crônicas, contos ou romances.   Repórter — O senhor gostava muito de jogar xadrez com o maestro Artur Napoleão, não é verdade? Machado — “O xadrez, um jogo delicioso, por Deus! Imaginem da anarquia, onde a rainha come o peão, o peão come o bispo, o bispo come o cavalo, o cavalo come a rainha, e todos comem a todos. Graciosa anarquia…” Repórter — Por falar em comer, é verdade que o senhor era vegetariano? Machado — “… eu era carnívoro por educação e vegetariano por princípio. Criaram-me a carne, mais carne, ainda carne, sempre carne. Quando cheguei à idade da razão e organizei o meu código de princípios, incluí nele o vegetarianismo; mas era tarde para a execução. Fiquei carnívoro.” Repórter — Que tal acha o nome da Capital de Minas? Mach...

O Que a Memória Ama Fica Eterno, Fabíola Simões

    Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender.     O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.    É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.    Diante do tempo, envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória, ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos...

Pós Isolamento. Ofertas

Tão logo termine o isolamento, o grupo LivroErrante vai enviar os livros já lidos e que precisam voltar aos seus donos e ou aos leitores que ainda estão na fila de leitura.  Além disso, alguns livros vão estrear no grupo. Foram oferecidos e vão começar a circular brevemente.   Fidel, O Tirano Mais Amado do Mundo , Humberto Fontova Nunca tinha lido nada que me levasse a saber sobre Fidel e Cuba, sob outro ângulo que não fosse o do libertador/salvador que tivesse tirado um pequeno e belo país de uma ditadura sanguinária e exploradora e levasse esse mesmo pais a ter uma ótima medicina e educação, mesmo ainda sendo um país pobre. Com o livroficou bem claro quem e como a mentira foi forjada e continua sendo aceita como um dogma.  Nunca tive Fidel na conta de pessoas a quem admirei, nem jamais achei que Cuba fosse o divulgado. O autor apenas me informou que Fidel, e hoje Raul Castro, dependem muito dos USA, inclusive e até na fantasia de que é um pais inimigo. O...

Nosso Grupo de Leitura e o Isolamento

Nosso grupo de leitura não parou com a pandemia. Isolados, não estamos indo às agências dos Correios, mas  devoramos nossas filas de livros e agora temos muitos pacotes prontos para envio tão logo seja possível sair de casa com segurança, mesmo que ainda usando máscaras.       E os livros circulantes?  Onde estão e para onde vão?  O Guardião de Memórias, Kim Edwards: Está no Recife  vai para Porto União, (SC) Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie:está em Fortaleza vai para Rio de Janeiro Homens Imprudentemente Poéticos  Valter Hugo Mãe: Está em Ribeirão Preto vai para cidade do Rio de Janeiro Imperatriz do Fim do Mundo, Ivanir Calado: está no Rio de Janeiro (Rio) vai para Belo Horizonte (MG) O Maravilhoso Bistrô Francês,  Nina George: está em Macaé (RJ)  vai para  Rio de Janeiro Meio Sol Amarelo, Chimamanda Ngozi Adichie: Ribeirão Preto  vai para Ri o de Janeiro Melodia Mortal, Pedro Bandeira e...