Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Marcelo Gleiser

Assim Termina o Livro Que eu Terminei: A Simples Beleza do Inesperado.

      Algo havia mudado em mim; uma cumplicidade com o peixe, com a vida, a humildade de ser apenas uma criatura dividindo o mesmo planeta com tantas outras. Homens, animais, todos lutamos pela sobrevivência. A natureza não sabe. Mas nós sabemos, ou deveríamos saber, nos declarndo Homo Sapiens literalmwnte "homem sábio". Onde encontramos essa sabedoria? No modo como dividimos o mundo com outras criaturas? Onde está a sabedoria quando matamos um leão ou um elefante a tiros, quando matamos um tubarão ou salmão por divertimento, para nos vangloriat, como se fossem troféus? Quais os valores morais que guiam o dedo que puxa o gatilho ou arranca o peixe da água? Existem muitas formas de concretizar os nossos desejos e impulsos, de buscar por grandes realizações e descobertas, que não envolvem a matança de vidas inocentes. Existem muitas formas de nos aproximar da Natureza sem mutilar suas criações.      Sempre soube disso, mas achava que soltar o peixe era sufici...

Além da Lógica, A Bruxa de Copacabana texto de Marcelo Gleiser

     Durante minha adolescência, meus pais adoravam oferecer jantares. Tínhamos em torno de um porsemana, com convidados  diversos. Um dia no almoço, quando eu tinha 17 anos, meu pai anunciou que na semana seguinte teríamos um convidado muito especial para jantar, o senhor João Rosas, ex-ministro da Justiça de Portugal, acompanhado de vários amigos. Léa, minha madrasta, que gostava mais ainda de festas do que meu pai, lambeu os beiços e começou a pensar no menu. Após muitos preparos e ansiedade, chegou o dia do famoso jantar. A casa estava linda, cheia de rosas, que era o tema da noite. Os convidados chegaram em torno das 20 horas e ficaram conversando animadamente na sala de visitas. Dentre eles o senhor Rosas, como era conhecido, um homem diminuto de nariz aquilino e porte nobre, com um lenço amarelo de seda elegantemente dobrado no bolso de seu blazer azul-marinho. Meu pai, anfitrião exemplar, aproximou-se do convidado de honra.  João, o que po...

O Menino e o Mar, (Prólogo) de Marcelo Gleiser

Um homem se aproxima do seu eu verdadeiro quando atinge a seriedade de duma criança que brinca. Heráclito      O menino firmou sua vara de pesca num tubo afincado na areia e olhou para o mar. As ondas rolavam preguiçosamente até a beira, enquanto o sol descia por trás dos prédios. As moças com seus biquinis minúsculos já haviam partido. Os jogadores de vôlei desciam as redes, pensando no chope que iriam beber com os amigos. A praia de Copacabana suspirava, cansada dos abusos de tanta gente. Restavam apenas o menono e alguns outros pescadores, homens aposentados sem muito o que fazer, barrigas estufadas de tanta cerveja, a pele curtida pelo sol de incontáveis tardes à beira d'água. Conheciam bem o moleque de 11 anos, que retornava ao mesmo local três vezes por semana com disciplina jesuita. A rotina não mudava: três anzóis no final da linha, cada um com uma isca de sardinha ou, quando o dinheiro dava, de camarão. O menino corria até a beira e arremessava os anzóis o mais l...