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Mostrando postagens de 2026

O Olhar e o Carnaval, crônica de Mariana Bertolucci

Eu sempre adorei a folia e as  fantasias de Carnaval . Não tinha a disciplina e a técnica do balé clássico (que eu também amava), tampouco a imponência e o acabamento dos trajes e nem o frio na barriga antes de entrar no palco nas apresentações de final de ano da tia Lenita, minha professora amada que hoje está de aniversário. Um jeito diferente e mais descontraído de encarnar um personagem e contar uma história cheia de liberdade e purpurina. Era como esperar o ano inteiro a   festa da liberdade , como faz a turma da escola de samba, se preparando, ensaiando, economizando e esperando pelo maior espetáculo da terra. O mundo inteiro assiste, e a   festa   popular contagia. Lembro das minhas primeiras  fantasias  e trajes com muito carinho, mas hoje falarei só das  fantasias . A de índia com penas rosa-choque foi a primeira — eu era tão pequena que nem a parte de cima minha mãe colocou — e, depois, a de melindrosa, que é essa da foto acima. No tempo em q...

Método Rítmico, poema de Yusef Komunyakaa (USA)

Se você estivesse preso em uma caixa dentro de outra caixa no interior de uma floresta, sem o canto dos pássaro, sem grilos roçando as pernas, sem folhas caindo de galhos manchados, você ainda ouviria o ritmo do seu coração. Uma maré vermelha de peixes encalhados oscila na areia, copulando sob a lua cheia, & nós podemos chamar a isso o primeiro ritmo porque o sexo é o que fez despertar a língua & ensinou a mão a tocar bateria & adotar flautas de bambu antes de serem feitas de madeira & mito. Em cima & embaixo, dentro & fora, o pistão conduz uma casa dos sonhos. A água pinga até esculpir uma xícara em uma laje de pedra. Primeiro, não maior que um dedal, que guarda alegria, mas cresce até medir o ritmo da solidão que derrete o açúcar no chá. Há uma temporada para as cobras soltarem arco-íris na grama, para os gafanhotos cantarem no estrume. Sim, sim, sim, sim é uma confirmação de que a pele canta para as mãos. O Mantra da chuva de primavera abre a rosa & enred...

Trapo, poema de Fernando Pessoa

O dia deu em chuvoso A manhã, contudo, esteve bastante azul. O dia deu em chuvoso Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso. Bem sei: a penumbra de chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível, Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso. Carinhos? Afetos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso. Boca bonita da filha do caseiro, Polpa de fruta de um coração por comer... Quando foi isso? Não sei... No azul da manhã... O dia deu em chuvo...

Canção do Vento e da Minha Vida, poema de Manuel Bandeira

O vento varria as folhas O vento varria os frutos, O vento varria as flores...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De frutos, de flores, de folhas. O vento varria as luzes O vento varria as músicas, O Vento varria os aromas...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De aormas, de estrelas, de cânticos. O vento varrria os sonhos E varria as amizades... O vento varria as mulheres.      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De afeto e de mulheres. O vento varria os meses E varria os teus sorrisos... O vento varria tudo!      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De tudo. ( Em: Bandeira -Seleta em Prrosa e Verso, 1975, págs. 151-152)

Buganvília 1 , Pepetela

     A buganvília continua a crescer.      Apareceu no alpendre ao lado da casa, mesmo por baixo do meu quarto e ninguém sabe como. António diz que deve ter sido cortada antes do pai comprar a quinta e ter ficado alguma raiz. Eu vi o primeiro ramito aparecer. Era tenrinho, de um verde tenrinho. Mais tarde cobriu-se de espinhos. Outro raminho surgiu e depois mais outro.      Desde o princípio, o Lucapa, o nosso pastor-alemão, tem horror à buganvília. Não é por causa dos espinhos, pois já antes de ela ter os espinhos o Lucapa a odiava. Passava de lado e ladrava para ela. Um dia tentou mesmo esmagar com as patas o único raminho que na época ela tinha. Várias folhas foram arrancadas e ficaram espalhadas pelo chão. O ramo ficou estropiado, mas sobreviveu.      O Lucapa contempla a sua impotência e ladra. Creio que protesta para um ponto qualquer no futura. Em: O Cão e os Caluandas, Pepetela, pág. 17

Recomendo: O Lugar das Coisas Possíveis, Nadezhda Bezerra

Falo novamente de Nadezhada Bezerra porque em dezembro li um livro dela que achei muito bom.  São crônicas curtinhas, algumas delas bem divertidas, outras muito doces... todas muito bem escritas.   Com muito talento Nadezhada prende o leitor com assunto diversos, simplérrimos, cotidianos. Ela é precisa nos toques de humor, de ternura, na capacidade de enxergar  crônica nas coisas mais inusitadas.  Recomendo muito a leitura de O Lugar das Coisas Possíveis. Leia a  autora no blog: Otávio,   postado em 14 de janeiro de 2026 Obrigada Por Vir, postado em 24 de novembro de 2023

Fada da Rua Favorita, soneto de Luciano Maia

antes que a noite finde e se conclua o derradeiro gesto do luar ainda se vesta de mistério e lua o seu corpo de enigmas sem par. Seu gesto com aquele compactua e um fascínio de lua, singular cai sobre as pedras toscas desta rua a favorita rua do meu bar. Quem lhe dará o bem que ela lhe quer? Quem das perdas de noite se ressarce nas dádivas de amor dessa mulher? Se o seu gesto é sem medo e sem disfarce e se a paixão do mundo ela souber quem saberá por ela apaixonar-se? Em: Dunas, livro de sonetos, Luciano Maia, Academia Cearense de Letras 1984, pág.81

Acima de Tudo Ame, poema de Rupi Kaur

acima de tudo ame como se fosse a única coisa que você sabe fazerno fim do dia isso tudo não significa nada esta página onde você está seu diploma seu emprego o dinheiro nada importa exceto o amor e a conexão entre as pessoas quem você amou e com que profundidade você amou como você tocou as pessoas à sua volta e quanto você se doou a elas. Sobre a autora: Nascida em Panjabe, Índia Naturalizada: canadense Livros: A Cura pelas Palavras O Que o sol Faz Com as Flores Os Outros Jeitos de Usar a Boca Meu Corpo Minha Casa

Recomendo: Vidas de Algodão, contos de Ednice Peixoto

     Em dezembro fiz uma pequena viagem muito valiosa:  revi a encantadora Natal (RN) e estive no lançamento do livro de Ednice Peixoto, que eu só conhecia virtualmente.        Comecei assim, mas não vou falar da capital potiguar. Vim falar de Vidas de Algodão que comecei a ler ainda no hotel e terminei em casa:  São 39 contos que a autora selecionou entre os tantos que escreveu ao longo dos anos e que resolveu, agora sem timidez, mostrar ao público.        O livro caiu bem com o que gosto. Contos fáceis de ler, sem finais óbvios nem elaborados... nada do que chamo "sessão da tarde".  Conto realista, triste, engraçada, do tipo "nada a ver" como dizem os mais jovens. Ednice, que conheci grande leitora no velho e querido Orkut, sempre soube, escrevia muito bem.  Acho que ela também sabia disso, mas só recentemente perdeu a timidez e resolveu se lançar. Fez muito bem! Vidas de Algodão é um livro que eu rec...

O Livro da Vida, conto de Natascha Duarte

     Dois seres distintos encontram-se, pela primeira vez, num cenário épico, grandioso, como tudo por ali.           -  Choveu, foi?           - Ainda chove, não vê?      - É que estou dormindo e acho que não vou acordar, ouço apenas o barulho.      - E como é isso de não acordar?      - Bem, não sinto dor e... Aonde você vai? Falávamos sobre a chuva.      O gigante dera as costas ao homem, de repente, e bradou:      - Não tenho muito tempo e tenho muita pressa, sou como o vento sem trégua, seguindo por uma rota inespecífica, mesmo aqui - a voz do gigante se distanciava.      - Se tinha pressa, por que foi que veio? - o homem gritou.      - Porque um banho muda tudo e agora é hora do seu, espere...      - No céu se toma baaanho?      - Sim, aqui tambééémmm.     Seguiu-se um...

Adeus, poema de Ondjaki

no jardim da minha casa encruzilhei-me com uma lesma. ela ofereceu um olhar. vi o mundo pela sedução da lesma: tudo ardilhado de simplicidade. ofereci uma tristeza: ela quase cedeu a transparências. aprendi com a lesma: uma tristeza não deve ser emprestada. o mundo, mesmo partilhado é muito a pele de cada qual. na falta de dedos a lesma fez adeus com o corpo. e veio a chuva reaprendemos assim o lugar de nossas almas. Em: Materiais Para Confecção de Um Espanador de Tristezas, Ed. Caminho, 2009

O Moço do Saxofone, conto de Lygia Fagundes Telles

     Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca. Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavucando. Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música ...

Beleléu, explicação de Luís Fernando Veríssimo

 Beleléu - lugar de localização indefinida.   Fica além das Cucuias, na fronteira  com Cafundó do Judas  e Raio Que Os Parta do Norte. Beleléu tem características estranhas.  Nenhum de seus matos tem cachorro, as vacas estão todas no brejo - e todos os seus economistas são brasileiros. Imagem: Fraga, Extraclasse

Otávio, conto de Nadezhda Bezerra

      Moravam juntos na época. Ele, meus pais, grávidos de mim, e meus tios, grávidos de minha prima.      Um dia  saíram pra trabalhar e voltaram com Otávio. Era novinho.      Já é um treino pra vocês, eles diziam. Elas, ameninadas, davam de ombros e jogavam bola na calçada com barrigões prestes a parir.  Duas meninas esperando duas meninas. Mas só souberam depois de nascidas.      Otávio tomava mamadeira ainda. Segundo eles, não dava trabalho. Segundo elas, dava mais trabalho que eles.       Outro dia virou assunto na cozinha de casa com a visita dos meus tios. Chamada de vídeo com meu pai pra saber o que aconteceu com Otávio.  Depois com minha mãe, pra cruzar as versões.  Nenhuma conclusão satisfatória.       Eu falei que Otávio é um bode? Pois é. Em: O Lugar das coisas Possíveis, Nadezhda Bezerra. Ed. Opera, 2024, pág.13

Motivos, poema de Letícia Letrux

foi sem querer: o pulo que colocou água dentro do teu ouvidoo quiabo no pote que ficou escondido num canto da geladeira por quase três meses a conta de gás caída atrás do móvel da sala minha língua que deu nos dentes na mesa do bar sobre seu defeito mais secreto foi sem querer: (eu chorando no carro no dia do meu aniversário procurando uma vaga há quase uma hora janeiro inferno caos eu só queria dar um mergulho mas não tinha vaga não tinha vaga estava envelhecendo e não tinha uma vaga white people problems você chocado com meu descontrole você me criticando por tornar um passeio tão maravilhoso num caos eu chorando passando marcha e nada de vaga resolvo desistir leblon ipanema copacabana arrisco ir pra urca invento uma vaga já esperando a multa não estamos nos falando parece que você esqueceu que é meu aniversário e que eu posso parece que eu esqueci que meu aniversário não me possibilita de nada o mar está uma lixeira estou tão obsediada que entro assim mesmo afundo no raso e entre de...

O Mar dos Meus Olhos, poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos Não pela cor Mas pela vastidão da alma E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos Ficam para além do tempo Como se a maré nunca as levasse Da praia onde foram felizes Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens… Há mulheres que são maré em noites de tardes… e calma

Cavalo Das Nuvens, conto de Cícero Belmar

Para Silvinha       O céu de minha infancia era cheio de bichos de nuvem. Olhávamos para ele com o mesmo olhar de quem gosta de cinema. Havia uma grama verdinha, ao lado do rio; e nós dois, eu e minha irmã, deitados de papo pro ar, olhávamos as imagens efêmeras.      As nuvens passando. Não ficou vestígio, só a memória do que vimos.      - Está vendo aquela? Um carneiro!       Ríamos.      Agora é um coelho       As nuvens são como águas do rio. Passam       As águas do rio a gente sabe onde vão dar.      Vento fresco da manhã.      - Eu acho que as nuvens ficam nervosas com o vento. Ficam mais apressadas.      O vento, você sabe o quê? É o cavalo das nuvens. Em: O Livro das Personagens Esquecidas, Cícero Belmar, ed. CEPE, 2022, pág.89

Apenas Um Cisco no Olho, crônica de Clarice Lispector

E de repente aquela dor intolerável no olho esquerdo, este lacrimejando, e o mundo se tornando turvo. E torto: pois fechando um olho, o outro automaticamente se entrefecha. Quatro vezes no decorrer de menos de um ano um objeto estranho agrediu meu olho esquerdo: duas vezes ciscos não identificados, uma vez um grão de areia, outra um cílio. Das quatro vezes tive que procurar um oftalmologista de plantão. Da última vez que perguntei àquele que realiza a sua vocação através de cuidar por assim dizer de nossa visão do mundo: por que sempre o olho esquerdo? É simples coincidência?   Ele respondeu que não. Que, por mais normal que seja uma vista, um dos olhos vê mais que o outro e por isso é mais sensível. Chamou-o de olho diretor. E este, por ser mais sensível, prende o corpo estranho, não o expulsa.   Quer dizer que o melhor olho é aquele que é a um só tempo mais poderoso e mais frágil, atrai problemas que, longe de serem imaginários, não poderiam ser mais reais que a ...

Nada Mais, conto de Ednice Peixoto ( Novos Talentos )

O primeiro objeto que Rita encontrou foi um par de brincos sob o travesseiro. Duas argolas prateadas. Não se assustou. Certamente Mariana, sua sobrinha de dez anos, tinha deixado os brincos ali na hora de brincar de gente grande. Colocou-os na estante para devolver, não sem antes fazer Mariana entender que não apressasse o tempo da infância. Domingo na hora de ir à missa, ao procurar o rosário, encontrou na gaveta um sutiã vermelho um número menor que o seu. Do sutiã vinha um perfume de sândalo misturado a cheiro de bebida que uma mancha bem no peito não deixava dúvida. Chateada, porque aquela coisa escarlate deveria ser de Rosana, a irmã destrambelhada que tem, jogou o sutiã sobre o cabide para entregar depois. Ao acordar naquela segunda-feira, a cabeça lhe dói como bebedeira de véspera. Mas nada bebera além das duas taças de vinho, quantidade mínima para provocar tamanho enfado. A dor, a água fria do banho alivia o suficiente para se apresentar à mesa, onde todos se encontram, esmiu...

Minhas Leituras de 2025

Três escritoras brasileiras que me deram orgulho. Seus  livros  são: Meu Nome É Meu , Natascha Duarte  São contos inteligentes e de fácil leitura. Natascha tem uma escrita leve e muito agradável. Lançado pela editora Urutau, pode ser adquirido clicando aqui Siga Natascha Duarte no Intagram O Lugar Das Coisas Possíveis , Nadezhda Bezerra  Minha segunda leitura dessa autora formidável.  O Lugar das Coisas Possíveis é um livro de crônicas cotidianas, doces e bem escritas. O livro pode ser adquirido pela Editora Ópera Siga a autora no Instagram Vidas de Algodão , Ednice Peixoto Primeiro livro dessa formidável escritora potiguar, lançado em dezembro em Natal. São 49 contos bem trabalhados. Uns são realistas outros nem tanto. Todos, porém,  sem finais previsíveis. Leitura muito agradável e que eu recomendo. Siga a autora no Instagram O Lugar das Coisas Possíveis,Nadezhda Bezerra Vidas de Algodão, Ednice Peixoto