Pular para o conteúdo principal

Assim Começa o Livro Que Eu Comecei: A Contagem dos Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie

     Sempre desejei que outro ser humano me conhecesse de verdade. Às vezes, passamos anos convivendo com anseios que não conseguimos nomear. Até que a fenda surge no céu, se alarga e nos reela para nós mesmos, como a pandemia fez, pois foi durante o confinamento que comecei a esquadrinhaar minha vida e a dar nome a coisas há muito não nomeadas.  No começo, jurei que aproveitaria ao máximo esse isolamento coletivo; se a ínica escolha era ficar em casa, então eu iria passar óleo todos os dias nas pontas cada vez mais finas de meu cabelo, beber oito grandes copos d'água, correr na esteira, me dar ao luxo de dormir muitas horas e massagear meu rosto com séruns caros. Escreveria novas matérias a partir de anotações de viagens antigas que nunca tinha usado e, se o confinamento durasse tempo suficiente, talve finalmente tivesse fôlego necessário para escrever um livro Mas em pouco tempo, já estava dando voltas dentro de um poó sem fundo. Era um turbilhão de palavras e alertas, e senti que todo o progresso humano estava sendo revertido até atingir um estágio de confisão ancestral que, àquela altura, já deveria estar extinto. Não toque no rosto, lave as mãos, não saia de casa, passe álcool em gel, lave as mãos, não saia de casa, não tique no rosto, mas certa manhã a palma da minha mão roçou na minh bochechae e congelei, com a torneira ainda aberta.

Em: A Contagem dos Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie, Ed. Cia da Letras,2025, págs. 9-10

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Beleza Total, Carlos Drummond de Andrade.

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um di...

O Mendigo do Viaduto do Chá, Regina Ruth Rincon Caires

     A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.       Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

Vamos Pensar? (31)