Turístico que espere.
No sábado passado escrevi sobre os meus mortos. No dia seguinte fui a um churrasco criollo (e admiravelmente bem temperado) em casa de uns amigos austríacos que depois de três anos de América aprenderam a dourar a carne com mais perícia do que muitos argentinos. Entre o vinho, chouriços, morcela e bifes excelentíssimos, a conversa flutuou sem rumo e sem preocupação. Finalmente alguém falou sobre os mortos.Era uma tarde luminosa e quente, tudo convocava à sonolência. Só uma senhora vienense, de 80 anos confessados, embora aparentando menos de 70, de pele estirada e olhos muito azuis, continuava insone e cheia de vida.Num castelhano fluido, que o acento germânico tornava mais saboroso comentou:
- Tive cinco maridos e uma infinidade de amigos. Muito poucas pessoas não gostaram de mim, e nunca entendi por quê. O pior é que elas me perseguiram, me faziam sofrer. Acostumada a ser bem querida, eu me sentia aflita. Depois que morreram continuei sem compreender, com pena daquela maldade absurda que com certeza nas as deixava em paz no outro mundo. Aí decidi pedir que me mandassem algum sinal de que tudo tinha acabado e de que estavam sossegadas.
-E mandaram?
-Todas. Nenhuma falhou.
Acordaram os que cochilava: alguns sorriam, vagamente incrédulos; outros encararam a senhora, vagamente incômodos. Perguntei:
-Que espécie de sinal?
-De vários tipos. Alguns foram tão íntimos, que prefiro não comentar; outros, mais simples. Posso contar um.
Estávamos todos atentos e seguíamos, as palavras da velha senhora, que falava devagar, sem tropeços, com um léxico perfeito e uma graça de 20 anos:
-Eu tinha chegado havia pouco de Europa e estava separada do meu terceiro marido, com uma filha pequenina. Quase sem dinheiro, trabalhava durante o dia como massagista e quatro vezes por semana cantava na Confeitaria Ideal, que naquela época apresentava uma espécie de show, à saida de última sessão dos cinemas. Não tinha tempo para nada. Por intermédio de um amigo alemão, aluguei um apartamento jeitoso, num petit-hotel de três andares da Rua Ayacucho. A dona havia dividido cada andar em dois, e a mim tocou a parte dos fundos do segundo. Pus a menina numa escola maternal e consegui que a mulher do porteiro fosse todas as tardes ficar com ela e preparar o jantar. Elsie era educadíssima, não chorava nunca e se acostumou a dormir sozinha, sem medo, até eu voltar de madrugada.
- O apartamento era escuro, mas na área de serviço havia uma janelinha bonita de dava para o pátio do térreo. Sempre adorei plantas, só que não sobrava dinheiro para nenhum luxo. Um dia ganhei uma flor-de-açúcar, que era uma glória.
- Todos os presentes, menos eu, sabiam o que era uma flor-de-açúcar. Explicaram-me que se tratava de uma planta rara, que pode crescer bastante e dá umas florezinhas rosadas, delicadíssimas. (Recorri mais tarde ao mestre Aurélio, que consigna flores de nomes preciosos: d’água, da cachoeira, de esperança, da noite, de amor, da paixão, das pedras, de redenção, de gelo,coral, de sangue, de pérolas, do céu, do norte… Tudo tão belo, que fiquei cismada no mistério dessas pétalas e dessas palavras densas de sugestões. Só a flor-de-açúcar não apareceu. Não importa. A velha senhora tinha ar honesto. Se ganhou uma, deve ser verdade. De resto, eu já disse, todos conheciam a planta.)
-Pus o vaso na janela, mas passei um arame em volta, para evitar que algum ventinho o derrubasse no pátio ou em cima da menina. O apartamento ganhou vida nova. Até a pequena ria e contava mais e passava horas olhando as florezinhas cor-de-rosa. Comecei a achar que tudo ia melhorar e que aquele vaso tinha nos trazido sorte.
- Foi aí que a proprietária deu para implicar comigo. Ela queria o apartamento para o filho, que ia se casar, e não sabia como me mandar embora. Naquele tempo as leis de aluguel não eram como hoje… Eu pagava direitinho, não incomodava ninguém, não fazia barulho, nunca tinha visitas: era impossível arranjar um pretexto para me desalojar. Ela quase não me cumprimentava, mas eu fingia não ver, e ia tocando.
- Um dia cheguei em casa exausta, depois de atender várias freguesias, e encontrei Elsie chorando alto: o vaso tinha caído da janela e se espatifado no pátio. Não entendi nada: e o arame? A mulher do porteiro então me explicou, morta de medo, que a proprietária tinha entrado lá em casa e desamarrado o arame. Depois subiu ao terceiro andar e jogou um travesseiro sobre a janela: o vaso, naturalmente, foi atirado longe. Fiquei horrorizada, mas jurei à porteira que não a delataria. Pus Elsie no colo e fiquei esperando. Quando a dona chegou furiosa, gritando que eu tinha de sair imediatamente do apartamento, pois por minha causa alguém poderia ter morrido no térreo, eu não disse nada. Só olhei com um jeito tão esquisito, que ela encabulou e foi-se embora sem dizer mais nada.
- Alguns meses mais tarde eu me casei pela quarta vez e fui morar numa casinha com jardim, em San Isidro. A tal mulher morreu dois ou três anos depois. Tudo parceria em ordem em minha vida, mas de vez em quando eu perdia o sono e ficava pensando naquela história, sem me conformar. Afinal, a flor-de-açúcar tinha sido a minha única alegria durante os tempos de tristeza, como é que alguém podia ter feito uma crueldade dessas comigo, sem mais nem menos? Eu não sentia raiva, queria era entender. Uma tarde entrei numa igreja e disse dentro de mim mesma: - “Por favor,me dê uma explicação, me mande algum sinal, senão a senhora não vai poder descansar direito.” Na semana seguinte: - “Mamãe, quem é que te deu essa outra flor-de-açúcar?". - Pensei que ela estava brincando, mas quando cheguei ao jardim,vi,ao lado das begônias, uma flor-de-açúcar enorme, linda, linda, toda cheia de botões. Ninguém a tinha plantado. Ficou lá até eu me divorciar.
Em: Um Século em Cem Crônicas, org. Maria Amélia Mello, págs.312-315.

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