Na igreja,Rosarinho se confessou:
engravidei do rio, senhor padre.
Com gesto de água
arredondou o ventre.
O padre
se enrugou:
ela que não usasse desculpa
para os seus mortais pecados.
A ofensa tremia
na voz dela quando retorquiu:
- Desculpe, padre,
mas Nossa Senhora
não emprenhou de um feixe de luz?
Para mais, acrescentou Rosarinho,
o senhor padre
nem nunca, nem jamis viu esse rio.
E rematou
com lânguida saudade: aquele ondear,
as tonturas que ele traz...
Pegou o padre pela mão
e o convidou para descer o vale.
Agora,
todas as noites
o padre se banha
nas águas do rio pecador.
Mia Couto Poemas Escolhidos, cia das Letras 2016 págs. 44-45
em: págs. 44-45

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