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A História do Alfinete de Fralda ( que mora no bolso bebê da bolsa amarela) Lygia Bojunga


     Como ninguém conhece o Alfinete de Fralda, muito bem, eu acho melhor contar a história dele antes de continuar contando a minha:
   Um dia eu ia passando e vi o Alfinete caído na rua. Peguei, limpei, desenferrujei, experimentei a pontinha dele no meu dedo, vi que ela era afiada toda a vida:
     - Puxa!
     E ela começou a riscar na minha mão tudo que o Alfinete queria dizer:
     - Me guarda? Já não aguento mais viver aqui jogado: passa gente em cima de mim; chove, eu fico todo molhado, pego cada ferrugem medonha; e cada vez que varrem a rua eu esfrio: "pronto! vão achar que eu não sirvo mais pra nada, vão me levar no caminhão do lixo"; me encolho todo pra vassoura não me ver; e depois que ela passa, e depois que o susto passa, eu risco na calçada um anúncio de mim dizendo que eu sirvo sim; mas nunca acontece nada. Me guarda?
     - Guardo.
     - Então guarda.
     Guardei. No bolso do uniforme ( ainda não tinha a bolsa amarela).
     E perguntei:
     - O que você fazia antes?
     A pontinha foi riscando na fazenda:
     - Não cheguei a fazer nada.
     -Ué.
     - Saí da fábrica muito mal embrulhado, vim caindo pelo caminho, me agarrando nos outros pra ver se me aguentava, acabei não me aguentando: caí aqui.
     - E não levantou mais?
     - Cada vez que eu levantava, passavam por cima de mim.
     - Mas nunca ninguém te viu?
     - Quando me viram eu ja tava todo enferrujado e ninguém mais me quis.
     - E depois?
     - Nada
     - Não aconteceu mais nada na tua vida?
     - Não.
     - Que história curtinha que você tem.
     - Pois é.
     - Você não queria ter uma história mais comprida?
     - Eu não! esse pouquinho já deu tanto trabalho.
     - Acha que assim chega, é?
     - Acho que chega sim.
     E então ficou chegando.

Em: A Bolsa Amarela, Lygia Bojunga, ed. Agir, 1987 págs.43-44

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