Dois seres distintos encontram-se, pela primeira vez, num cenário épico, grandioso, como tudo por ali.
- Choveu, foi?
- Choveu, foi?
- Ainda chove, não vê?
- É que estou dormindo e acho que não vou acordar, ouço apenas o barulho.
- E como é isso de não acordar?
- Bem, não sinto dor e... Aonde você vai? Falávamos sobre a chuva.
O gigante dera as costas ao homem, de repente, e bradou:
- Não tenho muito tempo e tenho muita pressa, sou como o vento sem trégua, seguindo por uma rota inespecífica, mesmo aqui - a voz do gigante se distanciava.
- Se tinha pressa, por que foi que veio? - o homem gritou.
- Porque um banho muda tudo e agora é hora do seu, espere...
- No céu se toma baaanho?
- Sim, aqui tambééémmm.
Seguiu-se um tempo indeterminado
- E o resto, todo esse imenso azul, faço o que com todo esse afastamento e largueza? - perguntou o velho.
-Você se acostuma - o gigante voltava -, com o tempo se acostuma.
- Podemos conversar durante o banho? Sei muito pouco sobre como proceder em um território desconhecido - riu, nervoso, o recém chegado.
- Claro, hum, espere... Me diga o que te atormenta já que queres tanto conversar ou, melhor dizendo, atormentava - o gigante confundia os tempos verbais outra vez.
- O esquecimento de que somos mortais, veja, a natureza nunca deixou de existir, já eu... - o senhor prosseguiu: - havia um bloquinho em casa onde eu praticava palavras, coisas que me vinham de manhã; eu copiava ideias dos outros também, que não sou besta; coisas tão lindas que eu não era capaz de escrever sozinho, não seria capaz, vivesse quantas vidas fossem e, assim, eu roubava de escritores melhores que eu alguns pensamentos. Eis por que sou gente simplesmente e não um anjo como você - o tom era de confissão.
- A natureza é coisa do Deus e com Ele não se brinca, isso de roubar os outros... - o gigante chamava a atenção do homem.
A luz da lua foi o bastante para iluminar a enorme banheira preparada pelo gigante com sais e espuma, e o homem, agora mais relaxado na água quente, contava as novidades que ouvira dos outros habitantes do lugar.
- Fiquei sabendo da famosa galeria 7, a do quarto andar da Estação de Tratamento de Sofrimento. Lá eles têm milhares de pastas contendo depoimentos sobre a experiência, não é mesmo? Depoimentos de animais também, de cães e gatos, principalmente; o que eles sorveram de experiência na Terra, não é? Os bichos gostaram e querem repetir, mesmo tendo sofrido um pouco ou muito; se cães e gatos querem repetir, imagine eu, Anjinho, imagine eu...
- Você andou se inteirando por aí, hein, novato! Por certo que sim. De toda maneira, é cedo para pensar em repetir, você acabou de chegar, que coisa! Faz o quê, opa! Fazia o quê, na sua existência terrena, caro homem?
- O que as pessoas de minha idade fazem: aposentam-se, liam, escrevem, adoram números, assistiam filmes, tinham amigos - ele perde qualquer noção de tempo no espaço e, assim como o gigante, confunde o tempo de conjugação dos verbos. - Eu mesmo tenho uma família - lembrou-se dela.
-Presumo que família é uma coisa que não muda para as próximas encarnações, ou muda? - o tem era de assombro e ele rememorou: - houve uma época feliz da minha infância - procurando um amig - em que estava muito, muito frio, e minha mãe, para minha alegria, pegou folhas de um jornal velho e colocou entre as cobertas para esquentar a mim e meus irmãos, à noite. Aquelas folhas tingiram nossa roupa de cama de preto e borraram nossos rostos, sem falar do barulho que faziam quando nos mexíamos durante o sono. Contudo, esquentaram de ensopar... mãe é mãe, é um recurso para prender a vida! Se é!
- Acabamos, prontinho, osenhor está que é uma beleza. Não pude deixar de notar algo macio e branco buscando surgir de suas costas durante o banho.
- Não brinca! Rápido assim? Basta querer com fé, e a gente vira anjo como aqueles do clássico filme alemão em preto e branco? - ele estava curiosíssimo.
- Nããão, só em alguns a vida eterna faz cócegas - finalizou o gigante.
Em: Meu Nome é Meu, Natascha Duarte, págs. 29-31

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