O primeiro objeto que Rita encontrou foi um par de brincos sob o travesseiro. Duas argolas prateadas.
Não se assustou. Certamente Mariana, sua sobrinha de dez anos, tinha deixado os brincos ali na hora de brincar de gente grande. Colocou-os na estante para devolver, não sem antes fazer Mariana entender que não apressasse o tempo da infância.
Domingo na hora de ir à missa, ao procurar o rosário, encontrou na gaveta um sutiã vermelho um número menor que o seu. Do sutiã vinha um perfume de sândalo misturado a cheiro de bebida que uma mancha bem no peito não deixava dúvida. Chateada, porque aquela coisa escarlate deveria ser de Rosana, a irmã destrambelhada que tem, jogou o sutiã sobre o cabide para entregar depois.
Ao acordar naquela segunda-feira, a cabeça lhe dói como bebedeira de véspera. Mas nada bebera além das duas taças de vinho, quantidade mínima para provocar tamanho enfado. A dor, a água fria do banho alivia o suficiente para se apresentar à mesa, onde todos se encontram, esmiuçando os acontecimentos do fim de semana. Falam de uma festa com a parentada toda, onde todos se divertiram, beberam e dançaram. Na dança, idosos e jovens se juntaram aos parabéns a alguém que ela não lembra quem.
Depois de encaminhadas as tarefas para a empregada, telefona para Rosana dando conta dos brincos e do sutiã. Ouviu uma negativa para os dois objetos, mas não acreditou. A irmã era dada a brincadeiras e certamente essa era uma delas. Ainda mais que afirmou que aqueles brincos ela usara na festa de casamento da prima e o sutiã foi o que compraram juntas. Desliga, repetindo para si mesma que a irmã não tem jeito.
Ignorando os comentários da irmã, e com o auxílio da bengala, vai ao jardim ver as roseiras e todas as outras espécies que com cuidado plantou. O assombro do jardim lhe tira a voz por um momento. O espaço vazio denuncia que todos os jarros com os crótons desapareceram. Zeca, só pode ter sido Zeca, é o primeiro pensamento; ele afinal concretizara o que dizia há semanas: que cortaria tudo, pois o jardim parecia mais uma floresta. Muda, contempla o jardim sem saber se espera para brigar à noite ou se liga agora mesmo, descascando a raiva.
Entra, arreia na cadeira, o pensamento correndo sem fixação. Levanta-se e telefona para o consultório da doutora Marta, marcando uma consulta para amanhã. A atendente lhe diz que ela já telefonara ontem e que a consulta fora marcada para hoje à tarde. As lágrimas lhe ardem nos olhos e começa a sentir que algo está errado. Não lhe é normal o esquecimento, sempre teve boa memória. Hoje mesmo lembrava do aniversário de 85 anos de sua mãe, acontecido há uns dias. Todos lá, felizes, idade rara para merecida festa.
Volta ao quarto devagar. Entra, senta-se à escrivaninha e pega o bloco de papel dado por Sara, a filha de 10 anos, mesma idade de Mariana. As ideias não estão claras e da ponta do lápis só riscos, rabiscos se entrecruzando. Não sabe o quê, mas sente algo lhe pesando no peito. Vai esperar a consulta, não adianta falar com ninguém de casa, vão chamá-la de louca e isso ela não é. Abandona o lápis, deita e liga o televisor. O programa matutino ensina a fazer deliciosas comidas proibidas pela hipertensão, pelo colesterol alto. O som da televisão lhe embala em um cochilo.
A mão bate no ombro, acordando-a. Olha e vê uma moça vestida de branco, dizendo que está na hora do remédio, fazendo gestos com as mãos. Aceita a água que a moça lhe dá. Tomado o remédio, vira-se para a mesinha de cabeceira e pega um pirulito, resto da festa dos 80 anos da mãe. Sempre gostou de pirulito. Vê novamente os lábios da moça de branco se mexendo.
- Dona Rita, a senhora está lembrada da festa do seu aniversário? Oitenta e cinco anos, hein? Que festa linda!
Em: Vidas de Algodão, Ednice Peixoto, 2025, págs.45-47

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