Pular para o conteúdo principal

O Testamento, Marcílio França Castro


           Como a visita era urgente, nem completei o horário de almoço. Antes das duas já estava na porta do edifício do Sr. Oto, um prédio antigo de vinte e poucos andares no começo da rua Tupis. O tabelião havia me dito com todas as letras que estávamos prestando um favor, que eu não devia me preocupar com o protocolo. “Esqueça as testemunhas, Walter, as formalidades. Apenas anote o que ele mandar, e não pergunte nada.” 
⠀⠀⠀⠀⠀ Subi o velho elevador de portas de madeira e grades de aço pensando na minha vida de escriturário. Em mais de vinte anos anotando e dando fé, não me lembrava de nenhum acontecimento significativo, nenhuma surpresa ou desastre, nenhum episódio que pudesse dividir a minha existência em um antes e um depois, como ocorria com todas aquelas pessoas que transformavam a compra de uma casa ou o reconhecimento de um filho em um fato memorável – que a mim cabia (em nome do tabelião) apenas autenticar. No meu passado eu não via (e quem vai dizer o contrário?) nada digno de nota. Com a parede do elevador deslizando na minha frente, todas as tardes do cartório de repente se condensavam em uma única tarde − até o décimo sétimo andar.
⠀⠀⠀⠀⠀Fui recebido no apartamento pela secretária.
⠀⠀⠀⠀⠀“Obrigada por ter vindo”, ela disse. “Fique à vontade, já trago o Sr. Oto.” 
⠀⠀⠀⠀⠀O apartamento era modesto e bem arrumado, atravessado por uma claridade morna, quase hospitalar. O cheiro de sinteco dava a sensação de imóvel para alugar. A mobília era mínima, não havia quadro nas paredes. Na única estante, uma coleção vermelha de clássicos da literatura universal. 
⠀⠀⠀⠀⠀O Sr. Oto apareceu na cadeira de rodas, empurrado pela secretária.  Sem dizer nada, me estendeu a mão trêmula. Apesar da limitação, tinha uma aparência segura. A pele muito fina e rosada, os cabelos brancos alisados para trás. 
⠀⠀⠀⠀⠀A mulher estacionou a cadeira, pôs um tamborete do lado. Trouxe um copo com canudinho e um lenço. Pediu que eu me assentasse na ponta do sofá, rente à janela. O paredão de prédios do outro lado parecia uma extensão do apartamento, quase ao alcance dos braços. Ela pediu licença, puxou um pedaço da cortina. O barulho do centro, bloqueado pelo vidro, produzia uns baques surdos, descontínuos. 
⠀⠀⠀⠀⠀“Vamos logo com isso, rapaz, antes que eu já não me lembre de mais nada”, ele disse, assim que ficamos sozinhos, elevando a voz para superar a rouquidão.
⠀⠀⠀⠀⠀Permaneci uns instantes paralisado, sem saber direito o que fazer. O tabelião não me passara instrução nenhuma; eu também não tinha perguntado. Abri o velho livro de notas, fiquei olhando para a cara redonda do Sr. Oto, suas pupilas azuladas, sem brilho.
⠀⠀⠀⠀⠀Ele deu um tapa no braço da cadeira, tomou um pouco de água, começou.
⠀⠀⠀⠀⠀“Sem prolegômenos”, meu caro. “Escreva.”
⠀⠀⠀⠀⠀Número um.
⠀⠀⠀⠀⠀Uma escada de prédio vazia, a luz embaçada no quadrado do vitrô.
⠀⠀⠀⠀⠀A tarde inteira assentado no degrau, esperando a chave.
⠀⠀⠀⠀⠀− anotei.
⠀⠀⠀⠀⠀Dois.
⠀⠀⠀⠀⠀Um depósito de água com capacidade para vinte mil litros, na parte de trás do quintal. 
⠀⠀⠀⠀⠀Três.
⠀⠀⠀⠀⠀Uma casa abandonada na estrada para Curvelo. Um cachorro encostado no muro, olhando o carro passar. Todas as vezes o mesmo cachorro, que de repente levantava a pata e urinava. 
⠀⠀⠀⠀⠀Quatro.
⠀⠀⠀⠀⠀Entardecer no pátio de manilhas. Um homem de paletó atravessa o lote com sua pasta, caminhando entre os tubos. 
⠀⠀⠀⠀⠀“Adendo”, ele disse, levantando o braço.
⠀⠀⠀⠀⠀Este foi o sonho de uma amiga. 
⠀⠀⠀⠀⠀− registrei.
⠀⠀⠀⠀⠀“Quatro”, ele continuou.
⠀⠀⠀⠀⠀Cinco, corrigi.  
⠀⠀⠀⠀⠀Entrando pelo mato, uma clareira à sombra da pedra. O menino abre a sacola para ver o que tem: pão, ovo cozido, um pedaço de queijo e linguiça. 
⠀⠀⠀⠀⠀“Observação”: livro de aventuras.
⠀⠀⠀⠀⠀(...)
⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀Seis.
⠀⠀⠀⠀⠀Caminhão de mudanças. Enquanto o motorista discute com o dono da loja, o carregador cochila no baú, entre o guarda-roupas e o fogão.
⠀⠀⠀⠀⠀Antes de completar as frases, o Sr. Oto cerrava os olhos, franzia a sobrancelha. Então abria os olhos, mirando para o alto, como se visse a memória projetada na parede.
⠀⠀⠀⠀⠀“Adiante, homem, adiante.”
⠀⠀⠀⠀⠀Sete.
⠀⠀⠀⠀⠀Posto de gasolina. Um murinho de pedra atrás da carreta, onde certa noite Marília me esperava com as mãos geladas − sem saber direito o que íamos fazer.
⠀⠀⠀⠀⠀Oito.
⠀⠀⠀⠀⠀Uma oficina de beira de asfalto, na boca do despenhadeiro. O chão vermelho, todo rachado, prestes a desmoronar. 
⠀⠀⠀⠀⠀Nove.
⠀⠀⠀⠀⠀A sala de espera do dentista. As letras do nome invertidas no vidro, a portinhola rangendo.
⠀⠀⠀⠀⠀Dez.
⠀⠀⠀⠀⠀Na parada do ônibus, uma passagem escura atrás do banheiro. Depois de urinar, o homem tenta com dificuldade abotoar a calça − um policial saca o revólver contra ele. 
⠀⠀⠀⠀⠀Achei a lembrança inverossímil, mas registrei sem emendar.
⠀⠀⠀⠀⠀Onze.
⠀⠀⠀⠀⠀No fim da rua B, uma cerca de arame farpado, fácil de atravessar. Uma canaleta  morro abaixo, até o cimento.  Depois de contornar o vestiário, a piscina. Assim se entrava no clube pelos fundos.
⠀⠀⠀⠀⠀Doze.
⠀⠀⠀⠀⠀Uma lojinha de roupa íntima, o sol escaldante na calçada. A atendente debruçada sobre o balcão, esperando.
⠀⠀⠀⠀⠀Treze.
⠀⠀⠀⠀⠀Uma casa moderna. Fachada clara, ângulos retos. Uma barra diagonal sustentando a cobertura do alpendre. 
⠀⠀⠀⠀⠀[Dois homens saem da casa arrastando pelo braço um terceiro. Entram no camburão, o carro arranca, cantando pneu.] 
⠀⠀⠀⠀⠀“Um instante, amigo”, ele me interrompeu. “A última cena não faz parte do legado.”     − mas eu já tinha registrado.
⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀Quatorze.
⠀⠀⠀⠀⠀Garagem do conjunto BNH. Entra um carro, um dos meninos retém a bola. (...) 
⠀⠀⠀⠀⠀O barulho dos pneus raspando na brita.
⠀⠀⠀⠀⠀Pausa.
⠀⠀⠀⠀⠀Virei o rosto, lá estava o prédio do outro lado da rua. Um andar de escritórios, uma sala de aula, uma academia de ginástica. Gente nas janelas com celular, gente nas janelas fumando. Eu copiava, e achava aquilo agradável, pensando apenas vagamente no que o Sr. Oto dizia.
⠀⠀⠀⠀⠀Quinze.
⠀⠀⠀⠀⠀Quinze?
⠀⠀⠀⠀⠀Com a televisão ligada, depois da comida. O sofá de mola arrebentado, agulhas e panos espalhados, alguma mancha de urina. Ali morava a costureira.
⠀⠀⠀⠀⠀“Mas essa lembrança não é minha”, balbuciou. “Era da minha mulher” − que repetiu isso a vida inteira.
⠀⠀⠀⠀⠀− anotei.
⠀⠀⠀⠀⠀Uma barraca de laranjas na BR 381. Bandeirinhas coloridas nos bambus, balançando.
⠀⠀⠀⠀⠀(...)
⠀⠀⠀⠀⠀O galpão da distribuidora. Penumbra, poeira, talões de nota fiscal. Aquele odor comercial − de caixas de remédio. Nenhuma rajada de vento.
⠀⠀⠀⠀⠀O Sr. Oto já tinha parado de numerar os itens, eu também parei de contar. Por um momento, achei que a lista não teria fim. A voz dele fraquejava. Começou a ditar palavras soltas, sem nexo. Interrompia uma descrição, vinha com outra. Eu punha pontinhos e parênteses e passava para a próxima.
⠀⠀⠀⠀⠀“Minha memória está branqueando”, ele disse.
⠀⠀⠀⠀⠀Depois de uns minutos, ergueu a cabeça, meio engasgado, tossindo.
⠀⠀⠀⠀⠀Um barranco erodido na beira da estrada. 
⠀⠀⠀⠀⠀Outro barranco erodido na beira da estrada.
⠀⠀⠀⠀⠀Foi o último item. Já no instante seguinte, ele mastigava os dentes sem nada. Procurei um vulto na copa, não enxerguei a ajudante. O barulho do rush subia à janela, o apartamento começava a ficar escuro. No prédio da frente, a sala de aula já estava iluminada. Durante algum tempo ficamos mudos, o Sr. Oto olhando para a parede, eu olhando para os vinte volumes de capa dura dos grandes romances universais. Identifiquei um de Dickens, outro de Flaubert.
⠀⠀⠀⠀⠀A moça apareceu. Fechei o livro de notas. Ela alisou o cabelo ralo do patrão.
⠀⠀⠀⠀⠀“Sr. Oto”, ela sacudiu-lhe os ombros. 
            Com a cabeça, ele fez que sim.
⠀⠀⠀⠀⠀Ela virou-se na minha direção.
⠀⠀⠀⠀⠀“Creio que o senhor pode ir embora, Sr. Walter”, disse enfim.
⠀⠀⠀⠀⠀Tive vontade de ficar mais um pouco, reler a lista em voz alta. Sentia ali um bem-estar físico − um estranho relaxamento.
⠀⠀⠀⠀⠀A ajudante me pediu que saísse e puxasse a porta. “E, por favor”, emendou, “entregue o testamento ao tabelião”.
⠀⠀⠀⠀⠀Nada mais foi explicado, eu também não perguntei.
⠀⠀⠀⠀⠀Ela girou a cadeira, e as rodas deslizaram pelo corredor.


         No dia seguinte, cheguei cedo ao cartório. Transcrevi a lista do livro para o computador, imprimi uma cópia, me deu vontade de autenticar. Colei o selo, bati o carimbo, datei, rubriquei. Seja lá como for, precisava fazer o serviço completo. O tabelião assinou, sem saber do que se tratava. Ele nem tinha me perguntado o que se passara na casa do Sr. Oto. Apenas agradeceu a minha discrição e boa vontade, disse que o Oto era um grande amigo, que fora um homem genial. Agora, coitado, enfrentava a esclerose. Não podia deixar de satisfazer aquele seu pequeno delírio. “A vida é assim, meu caro Walter”, disse o tabelião, com sua cara de despacho. “Um dia é ele, mas amanhã, quem vai saber?”. Algumas semanas depois, me deu a notícia de que o Sr. Oto havia falecido.
⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀ Isso aconteceu em outubro. Daí para diante, o trabalho no cartório, como de hábito, só foi aumentando. Largava o serviço por volta das seis. Punha escrituras em dia, deixava prontos os atestados, separava documentos para escanear (o cartório estava entrando na era digital). Chegava extenuado em casa. Para espairecer, antes de encarar o metrô, andava até a praça da estação, parava na lanchonete da esquina. Ainda pegava um resto de sol. Pedia uma cerveja e um pastel, ficava olhando o comércio, o movimento da calçada. Para ampliar a praça, a prefeitura tinha feito uma desocupação, e um imenso terreno, antes tomado de casebres de pau e lona, estava agora vazio, cercado por uma tela de proteção. Na frente da lanchonete, o trânsito corria devagar. Eu enchia o copo, os carros avançavam um pouco, um cachorro surgia do lado de lá da rua. O cachorro ia e vinha, rondando pedestres, cheirando a obra. Passava um ônibus, ele levantava a pata, urinava no torrão de brita. Na tarde seguinte, a cena se repetia. O mesmo cachorro, urinando no torrão de brita.
⠀⠀⠀⠀⠀ Comecei a prestar atenção nesses acontecimentos. Uma vez, descendo a avenida Amazonas, topei com um caminhão de mudanças atravessado na calçada (o porteiro do prédio discutia com o motorista). De relance, vi um homem deitado no bagageiro, ao lado do fogão. Outro dia, contornando a praça em obras, enxerguei alguém dentro do terreno interditado. Um sujeito de terno, com a pasta na mão, buscava um atalho entre as manilhas. Aqui e ali, observando a cidade, tenho descoberto escadas, barrancos, garagens, becos e postos de gasolina. Nada é muito exato, não tenho nenhuma garantia. Entretanto, discretamente e sem testemunhas, vou me tornando aos poucos o herdeiro daquele testamento.


Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em teoria literária pela UFMG, publicou A casa dos outros e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Formiga Boa, Monteiro Lobato

Houve uma jovem cigarra que tinha de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.      Mas o tempo passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados passavam o dia cochilando nas tocas.      A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em apuros, deliberou socorrer-se de alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se foi para o formigueiro. Bateu - tic tic-tic...      Aparece uma formiga friorenta embrulhada num xalinho de paina.      - Que quer? - perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.      - Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu vivo ao relento.      A formiga olhou-a de alto a baixo.      - E que fez durante o bom tempo, que não construiu uma casa?

Era uma vez...Adivinha adivinhão, Luis da Câmara Cascudo

Era uma vez um homem muito sabido, mas infeliz nos negócios. Já estava ficando velho e continuava pobre como Jó. Pensou muito em melhorar sua vida e resolveu sair pelo mundo dizendo-se adivinhão. Dito e feito. arrumou uma trouxa com a roupa e largou-se.      Depois de muito andar, chegou ao palácio de um rei e pediu licença para dormir. Quando estava jantando, o rei lhe disse que o palácio estava cheio de ladrões astuciosos. Vai o homem e se oferece para descobrir tudo, ficando um mês naquela beleza. O rei aceitou.

Olhos de Preá, Carlos Drummond de Andrade

Nem tudo no ano escolar foi pichação de parede, pedra jogada na testa da polícia.Quem era de estudar estudou, fez pesquisa, juntou coisas para provar. Aí organiza-se uma exposição, mas que seja bem bacana.Sem ar de museu antigo, objetos falando, contando o esforço de aprender e transmitir, a alegre descoberta da natureza pela moçada.      A turma do científico¹ quer lá saber de apresentar só desenhos e fotos. Durante o ano, andou por Manguinhos e Butantã², trabalhou em laboratórios, adquiriu saber de experiências feito. Então vai mostrar os soros, as vacinas, os pequenos animais empalhados que documentam a praxis, como gosta de dizer um líder da turma.