quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Feitiço da Vila, Aluízio Falcão

    
      Aqui vai mais um conto musical. Foi numa tarde, manhã ou noite de 1932. Dois compositores brasileiros encontraram-se para fazer, juntos, o que hoje muitos consideram o mais bonito samba de todos os tempos. Um dos compositores, músico e maestro, paulista da Mooca, estava no Rio de Janeiro para este encontro histórico.Sentou-se ao piano para tocar sua melodia; o outro, letrista, pegou papel e lápis, postou-se a seu lado. enquanto o pianista solava, o letrista ia anotando palavras: "Vem, oh doce Camila/ Vem, mulher tranquila/vem recolher moamba". Não era bem assim, era muito pior. E mesmo com estas anotações estrambóticas, aqui imaginada,aqui imaginadas, o pianista repetiu várias vezes a melodia e o letrista escreveu muitas palavras malucas. Terminado o estranho sarau, os compositores despediram-se e ficaram de combinar outro encontros.

 
     Os dois personagens desta estória chamavam-se Vadico e Noel Rosa. Estavam compondo Feitiço da Vila, talvez a sua canção mais bela. Só que  naquele tempo não existia gravador portátil ou coisa assim para registrar a melodia. O letrista, como vimos, anotava palavras desconexas, sem pé nem cabeça, pensadas na hora, que tivessem as sílabas em métrica alinhada com as frases melódicas, e rimas e sílabas tônicas igualmente coincidentes. Era a chamada "letra monstro". Com ela na mão e a melodia na cabeça, o letrista ia para casa e elaborava a letra definitiva.
     Dias depois daquele encontro, Noel Rosa marcou outro encontro com Vadico e mostrou a letra pronta de Feitiço da Vila, que começa assim: "Quem nasce lá na Vila/ nem sequer vacila/ ao abraçar o samba". Notem que os três versos têm sete sílabas cada um. Exatamente como estava na "letra monstro". Era assim naquele tempo.
     Com este mesmo processo eles compuseram obras-primas como Feitio de Oração, Pra que mentir, conversa de botequim, Só pode ser você e mais outras. Esta pequena bagagem enriqueceu mais ainda a obra de Noel, embora Vadico não tenha recebido, em vida, o reconhecimento de seus patrícios.
     O autor destas notas, nos anos 80, reuniu grandes instrumentistas brasileiros para homenagear Vadico em disco exclusivamente instrumental: Márcio Montarroyo (trompete); Raul de Barros (trombone) Roberto Sion (saxofone); Dominguinhos (acordeon; Amilton Godoy(piano) e Heraldo do monte ( cavaquinho). O L.P se chamou A Vadico o que é de Vadico  e mostrava suas melodias com Noel e outros parceiros. Essa ideia surgiu quando o irmão de Vadico  enviou ao Jornal da Tarde uma carta reclamando a omissão do nome de Vadico numa homenagem a Noel Rosa. O disco foi lançado pela Gravadora Eldorado.
     Oswaldo Gogliano, (nome ítalo-paulista de Vadico) morou na Califórnia e em Nova York, trabalhando com Carmem Miranda entre 1940 e 1945. Daí até 1948 viveu em Hollywood, compondo trilhas sonoras para filmes. Depois viajou a Europa inteira como diretor musical de Katherine Dunham. Voltou ao Brasil, na década de 50, para ficar até morrer em 1962. Discretamente, como viveu. Foi um músico excepcional e um compositor em pé de igualdade com o seu grande parceiro em Feitiço da Vila.

Falcão, Aluízio. Contos da era das canções e outros escritos. Ed.Cepe, Recife 2017, págs. 87-88.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...