sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Escova, Manoel de Barros

Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No come~co achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar ossos por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterradas por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondia a eles, meio entressonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.

In: Barros Manoel de, Memórias inventadas, As infâncias de Manoel de Barros, Iluminuras de Martha de Barros, São Paulo 2010. Pág.15

Nota: o blog manteve grafia e diagramação originais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O Que é o Kit Gay Alegado por Bolsonaro?

     De tanto ouvir falar em kit gay  fiquei intrigada sobre o que poderia vir a ser isso.
     Ontem à noite, para minha surpresa, vi que um livro é que teria ganho esse apelido. Mais: o livro infantojuvenil Aparelho Sexual & Cia de Zep Hélène Bruller é que está causando a ira de um determinado candidato à presidência.  Por sorte, minha curiosidade foi saciada com a matéria do jornalista Bruno Molinero na Folha de São Paulo.  O profissional da imprensa mostra o livro e diz do que se trata verdadeiramente. 




Segue a matéria:

O Que Diz, Afinal, O Livro Infantil Que Bolsonaro Levou Ao Jornal Nacional?
Bruno Molinero 
 

     Parece que virou mania entre candidatos à Presidência entrevistados pelo Jornal Nacional, da Globo, levar um livro embaixo do braço.

      Na segunda (27), Ciro Gomes (PDT) apresentou a William Bonner um livreto em que detalha a proposta de abater dívidas pessoais e retirar brasileiros do SPC. Já nesta terça (28), Jair Bolsonaro (PSL) levou o livro infantil “Aparelho Sexual e Cia.”.

     Após tentar mostrá-lo às câmeras e ser impedido pelos apresentadores, sob a justificativa de isso contrariaria as regras estabelecidas na transmissão, o candidato declarou: “Um pai não quer chegar em casa e ver o filho brincando com boneca por influência da escola”.

     Mas, afinal, o que diz esse livro infantil?

    “Aparelho Sexual e Cia.”, foi escrito por Zep (pseudônimo do autor suíço Philippe Chappuis) e traduzido para mais de dez idiomas, com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos. No Brasil, foi publicado pela Companhia das Letras em 2007 e atualmente está fora de catálogo.

     Dividido em seis capítulos, é um guia que utiliza toques de humor e linguagem de histórias em quadrinhos para falar sobre sexualidade, amor e relacionamento para o público infantojuvenil.

     Aqui vale um parênteses. Sempre que aborda a obra, o candidato a aproxima da faixa etária de seis anos. Uma criança dessa idade ainda está em fase inicial de alfabetização e não apresenta, no geral, capacidade de leitura para compreender sozinha a linguagem escrita e visual utilizada na narrativa. Para um menino ou uma menina de seis anos ter contato com o título, provavelmente será a partir da mediação dos pais. Uma leitura independente se torna mais factível a partir dos nove anos.

     Voltando ao livro, o primeiro capítulo fala de relacionamentos. O que é estar apaixonado? O que é sair com alguém? Como é beijar? O seguinte discorre sobre a puberdade e as mudanças corporais sofridas por garotos e garotas: mudanças na voz, crescimento dos seios, surgimento de pelos, acentuação dos odores etc.

     Em seguida, vem a parte do sexo. Com linguagem didática, perguntas diretas e respostas claras, a obra explica o que é transar, o que é uma ereção, como funciona o orgasmo e a anatomia dos órgãos sexuais. A informação quase sempre é precisa e sem tabu.

     Sobre o que é transar, por exemplo, o livro diz: “Quando você sente atração por uma pessoa, fica a fim de se aproximar cada vez mais dela. Assim, os namorados vão unir seus corpos pelos órgãos genitais. O órgão masculino é que vai penetrar o feminino”.

     O quarto capítulo aborda a maternidade e a corrida dos espermatozoides rumo ao óvulo, mesclando ciência com linguagem de tirinhas de jornal. Depois é a vez de falar sobre contracepção e higiene. Por fim, há um serviço completo sobre quem procurar em casos de abuso ou pedofilia.

     Durante todo o livro, o personagem principal interage com o universo da sexualidade procurando gerar um efeito cômico. Ele se beija no espelho para treinar, não entende muito bem como funciona uma relação sexual e, muitas vezes, imagina as coisas da maneira mais literal possível.

     A abordagem lembra a de outros livros infantojuvenis que fizeram algum sucesso no passado. Um dos casos mais recentes é o da série publicada pela Melhoramentos no início dos anos 2000 que traz títulos como “Coisas Que Todo Garoto Deve Saber Sobre Garotas”, “Coisas Que Toda Garota Deve Saber Sobre Garotos” e “Beijos – Coisas Que Todo Mundo Quer Saber”. Nesse sentido, “Aparelho Sexual e Cia.” não inventa a roda nem está sozinho.
     Em vídeo publicado em suas redes sociais em 2016, Bolsonaro afirma que o título “é uma porta aberta para a pedofilia” e diz equivocadamente que ele foi comprado por programas federais como o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) e o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) –na verdade, a obra foi adquirida pelo MinC (Ministério da Cultura) para bibliotecas.

     No mesmo vídeo, o capitão reformado afirma sobre o conteúdo que “todo ele é uma coletânea de absurdos que estimula precocemente as crianças a se interessarem por sexo”.

     A Unesco, ligada às Nações Unidas, lançou em 2014 um guia para os professores brasileiros sobre como abordar a educação sexual com alunos. Além disso, já declarou no Brasil que a educação sexual e de gênero nas escolas pode ajudar a prevenir a violência contra as mulheres.

      Na França, o livro inspirou uma exposição infantil sobre sexualidade, com informações e atividades interativas inspiradas nos capítulos. A mostra foi aberta ao público em 2007 e depois viajou por diferentes países da Europa.

Não é a primeira vez, porém, que a obra causa polêmica no Brasil. A Promotoria do Distrito Federal já havia pedido esclarecimentos sobre o livro à Companhia das Letras em 2015. Na época, pais questionaram o conteúdo de “Aparelho Sexual e Cia.”, adotado por um colégio.

Era Uma Vez - FSP 29.8.2018 atualização 11h35

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

80 anos de Vidas Secas, Estadão.

     Vidas Secas, o romance de Graciliano Ramos e clássico da literatura nacional, completou 80 anos !! O jornal Estadão, fez uma longa e primorosa reportagem sobre o livro, percorrendo os caminhos do autor alagoano. 
      Independente de conhecer ou gostar de Vidas Secas e Graciliano Ramos, a reportagem é um primor do jornalismo cultural. 
                                       Recomendo a leitura. Clique na imagem

https://www.estadao.com.br/infograficos/brasil,vidas-secas-80-anos,910837

Imagem: Toda Matéria

Como Poderia Partir, Yasmin Nigri

Como poderia partir
Quando fervilha 
Na boca o não dito

Quando gasto a saliva
Beijando canudos
E juras furadas

Na companhia de anarquistas
De boca áspera
Tomados pela preguiça

Coleciono feridas
Não cicatrizadas
No canto do coração arisco

Não me faz falta a felicidade
Me atormenta o excesso
De coisas tão abstratas

Que não posso roçar
Em ninguém

Faz falta
A plasticidade dos joelhos

Um fósforo inteiro
Um par de utensílios

Um artesão que abra
Meu peito por dentro
Tire os ossos do centro

Revestida e armada
Saio correndo
Dou a volta

E qualquer sopro me traga
Pro mesmo ponto

Imagem: Google 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Ter Ou Não Ter Namorado, Eis a Questão. Artur da Távola


  
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.          
     Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.
     Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
     Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.
     Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.
     Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.
     Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.
     Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
     Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
     Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado.   Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
     Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
    Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.
     Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.
Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

 
Amor a Sim Mesmo 
Ed. Círculo do Livro, por cortesia da Editora Nova Fronteira S.A.
Fonte:Poemas Perversos, falsas autorias
Imagem: Desing on the Rocks

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Argenti Sitis,Luciano Maia

Sequiosas agitam-se as pessoas
em quefazeres de sua via insana.
Não têm sossego, já ninguém se irmana
em lograr para outrem coisas boas.
Repetem ladainhas, cantam loas
à lei do argento, que a tudo dana.
A corrida à riqueza o ar profana
e aos ímpios lhes dão falsas coroas.
Reinados de ilusão... quedas fatais
ao longo de árduas e dementes lidas
do querer ter a mais e sempre a mais.
Depois, as existências  exauridas
no perdulário tempo, tão falaz
sem memória deixar de suas vidas.




In: Maia, Luciano, Os Longes, Academia Cearense de Letras, Fortaleza, 2017, pág. 21
Nota: O autor me presenteou com seus livros e autorizou publicação no blog.
Blog do autor: Memória das Águas

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Entendo Tudo Errado Mas Na Maior Empolgação, Regina Porto


     
      Deixei de cantar. Não sei desde quando nem o porquê, mas aconteceu. Foi morar longe de mim a pessoa que cantarolava por horas e diariamente e em qualquer lugar.

      Afastou-se sem explicação e sem deixar nenhuma nota musical de lembrança. Levou, inclusive, os meus CDs. Corrijo: deixou os CDs mas levou meus ouvidos. Sem me entender tentei forçar o canto, a reaproximação com a música. Não vingou. Larguei de mão.
     Talvez noutra oportunidade minh'alma voltasse. Sem partitura, que não sei ler, sem instrumento porque não sei tocar nem caixinha de fósforos ou esquecendo as letras pra me deixar improvisar dizendo barbaridades. É. Talvez voltasse.
     Coração apaziguado com a ideia, me detive nas lembranças das desafinações, do meu gosto eclético, de que já não aprecio mais alguns cantores... De como me iniciei na audição de musica instrumental e erudita quando estudante da Unicap e de como gastei uns dias pedido à minha mãe para cantar uma música doce, romântica.. de um romantismo antigo... Da qual não lembrava nem um dó!
     - Fala "Julião" ! É fica difícil.
     - Fala de Julião!
     - Que Julião?
     - Da música! Sim, a musica de novo.
     - Não sei de nenhuma música com a palavra Julião, Regina.
     Eu esperando a memória ajudar e mamãe já rindo de mim há uns dois dias.
     Eu tinha umas hipóteses: ouvi numa novela. Mas, qual novela? Falava o nome Julião.    Não sabia quem cantava na novela nem originalmente. Era uma música muito antiga, disso tinha certeza. Falava num tempo ou data... Nada que ajudasse.
     Um dia, acordo com um trecho da música na ponta da língua e, antes que sumisse, procurei minha mãe:     - "Vinte e cinco anos/ vamos festejar Julião.." É assim a música. Você lembra, mamãe?
     Sim. Mamãe sabia a música inteira. Com a ponta do nariz vermelha de rir de mim e,
sem encontrar nenhum Julião, cantou afinadíssima Bodas de Prata, começando de onde eu indiquei:
     "Vinte cinco anos/ Vamos festejar DE UNIÃO/ e a felicidade continua em meu coração..." 

                                                                      *        
     Pensa que terminei? Pois sim...     Sou fã dos Beatles desde que ouvi Help pela primeira vez. Era recém chegada do interior, matuta e sem saber um segundo idioma. Roberto Carlos tinha lançado "E Que Tudo O Mais Vá Pro Inferno" que eu ouvia no rádio e cantava como, creio, que metade dos jovens da época. Era um sucesso incontestável.
      No Colégio Padre Félix, onde estudava, fiz amizade com Veronice, que mais urbana conhecia o grupo inglês e, seriamente ou não, detestava o rei Roberto. Me mostrou musica Help dizendo do que se tratava. Aprendi cantar uns trechinhos da canção e, por causa da colega, Help foi a primeira música em inglês cuja letra eu sabia do que falava. Cai de amores pelos Beatles. Passei por aquela época em que Renato e Seus Blue Caps gravava LP com versões em português das músicas dos 4fab.
      O grupo brasileiro, gravava na mesma ordem que os Beatles gravavam. Sucesso também claro! Ôoooo deixe essa boneca/ faça-me o favor/ deixe isso tudo/ vem brincar de amor/ de amor/ ê ê ê.. de amor..
      Só bem mais velha, porque meus filhos sabiam e cantavam, comecei a ouvir as versões originais. Nessa época, pela milésima vez fazendo curso de inglês, me deparo com problema clássico de quem começa na fase adulta: dificuldade de entender. Não me conformava. Conseguia ler mas não entendia com a mesma facilidade. Me dei uma receita: escutar e escutar. Obrigar meu cérebro a acostumar com a nova língua. Ajudou realmente.
      Empolgada e confiante (sou boa nisso), um dia procuro meus filhos pra dizer do progresso obtido com meu método pedagógico. Eu tinha entendido várias palavras de uma música dos Beatles! Eu entendera perfeitamente os Beatles dizerem "umbrella"!!
      Umbrella?
      Sim, claro! Umbrella! Iurúúú.. Lá saio eu certa de que estou arrasando. Os filhos me seguem dizendo não lembrarem dessa palavra em nenhuma das músicas do grupo de Liverpool. E eu empolgada e confiante porque sou boa nisso, insisto que tem sim e é numa das mais antigas.
      - Mãe, cante um pouquinho. Pode ser que tenha e a gente não lembre.
      - Láaaa.. lá lá lá..
      Pelo silêncio, notei de pronto que não tinha chuva nem a necessária sombrinha na canção sucesso no mundo inteiro. Era o jeito eu esperar que eles descobrissem de qual palavra ou frase eu tinha tirado aquela minha certeza já não tão certa. Afinal, errar é uma forma de aprender.
      Conhecedores da música e da língua que aprenderam na infância... Marcelo, pelo ouvido apurado, sugeriu:
      - Não seria I should have known better?
      Suzie, gentilíssima, sem querer tirar minha empolgação, confirma que cantando as palavras nunca ficam pronunciadas em detalhe e por isso eu juntei um trecho ou duas palavras ( knowm better)num único som que me pareceu "umbrella".
      Didáticos, os dois cantaram correta e lentamente a frase e lá se foi minha sombrinha fechada de vez. O pior é que sem querer fechei também a memória (também sou boa nisso) e ai nunca lembro o título da música.
      Agora mesmo, para escrever esse texto, enviei mensagem: Suzie, me diz de novo o título da música da umbrella. Obrigada.
___________________________________________________________________________

Seguem as músicas com os trechos citados. Para ouvir é só clicar.

Bodas de Prata
Roberto Martins e Mário Rossi - 1945
Vinte e cinco anos vamos festejar de união
E a felicidade continua em meu coração


I should have known better
Lennon/McCartney - 1964
should have known better
With a girl like you.

domingo, 12 de agosto de 2018

Para Seu Alípio, Regina Porto.

    Papai,
    Não vim lhe parabenizar. Não convivemos proximamente desde que fiz dez anos e agora você já não está mais aqui pra que lhe peça desculpas olhando nos seus olhos como gostaria.  Sim, era isso que eu queria fazer hoje. Pedir desculpas.
     Por anos carreguei uma ideia pesada, ruim mesmo, a seu respeito. As circunstâncias e, talvez, principalmente, o sofrimento de mamãe não me permitiram diferente. Passados tantos anos que você se foi é que amadureci o suficiente para ver o tão óbvio pai possível que você foi.  
     Você não me empurrou no balanço como nas cenas românticas do dia dos pais da atualidade, mas fez e armou o brinquedo numa árvore pra nós.  
     Não nos acompanhou nas brincadeiras dentro d'água, mas alertou do perigo da lagoa pra onde, seguindo seus alertas,nunca fomos. A seu modo, como sabia, cuidou de nós.
     Não me embalou pra dormir, mas correu feito atleta pra me livrar do ataque de um animal. A seu modo, como sabia, como podia cuidou de mim.
    Não puxou conversa mas me respondeu sempre que eu perguntei e sei, você me disse, que gastei minha infância rural perguntando muito. A seu modo, como sabia e como pode, cuidou de mim.               
    Conhecia a terra local porque foi dela e nela em que viveu e de onde veio. Sempre admirou detalhes da natureza. O homem rude, de mãos grossas e incrível disposição para a labuta pesada, por prazer compartilhou  o que sabia e o que lhe encantava nos bichos e plantas. A seu modo, como podia, me amou.
     Durante muitos anos e por carta abriu seu coração, falou de si e sobre  trivialidades, comigo. A seu modo como sabia e pode me amou.
   Quando fiquei só e com dois filhos pequenos, insistiu pra que voltasse a morar com mamãe. Argumentou, que precisávamos ela e eu de apoio prático. Estava certo. A seu modo, como sabia e lhe foi possível, me amou. 
     Não lembro de que tenha me afagado. A cultura da época e lugar não incluía afagos. Mas sempre quis saber como estavam meus filhos. Foi você o primeiro homem que vi valorizar a amamentação. E me incentivar pra que deixasse meu bebê determinar quando parar. A seu modo, como sabia ou podia me amou. 
     Por isso, a meu modo e como posso agora, quero lhe pedir desculpas. Não fui capaz de lhe amar, não fui capaz de tirar de minha rudeza, nenhum gesto mais ameno pra você. E quando, você, já velho, enfim, veio morar comigo eu não fui sequer  capaz de entender que, ali, seu cérebro já estava se afastando da racionalidade. 
    Eu com minha rudeza, não entendi que era melhor lhe abraçar quando você ficasse zangado.            
     Tivemos um pelo outro, um amor confuso e cheio de lacunas. Você não tinha de onde tirar pra mim  o que não teve pra si, vindo de uma vida inteira de ausências e nadas. E eu só agora me inteirei disso e justamente porque me vi rude com meu neto que eu amo imensamente.  
     Lhe devendo  mais que você a mim,  me comprometo  a buscar, e, se precisar, tecer, ternura pra carregar na bolsa e não ficar em debito com os meus.   É a forma que encontrei para lhe pedir desculpas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Cademia, Nalise Valença

     "CADEMIA" Academia, amarelinha...não importa o nome. O valor está ou estava naquele brinquedo. Nós, as meninas dos velhos tempos,não perdíamos a oportunidade para disputar a "glória" de ser a melhor nos pulos daquele jogo.
     Havia até brigas quando alguém pisava "na risca"e não passava a vez; mas a alegria da vencedora compensava o cansaço e as arengas.     
    Hoje vi ali numa calçada, riscada com giz,uma academia. Parei para conferir se a forma ainda era a mesma ! Fui longe até minha meninice e me pareceu ver todas as meninas daquele tempo com um carvão nas mãos, já preparadas para riscar nas poucas calçadas da cidade, o nosso jogo predileto.
      Pulei com elas,na imaginação ,para sentir a alegria antiga de ser boa na academia, que, aliás, muitas chamavam "cademia". 
     Não vi ninguém perto de mim e descobri que nos quadros,nas asas e no céu da minha academia, hoje, pulam sentimentos diversos, na busca infinita que a vida apresenta para quem quiser ser campeão,com ou sem academia para jogar. 
     Parei de olhar o desenho da calçada e fui em frente para a vida ou pela vida!!