segunda-feira, 27 de março de 2017

Segunda-feira poética: Supremo Anelo, Leodegária de Jesus


Voltar a ti, ó terra estremecida,
E ver de novo, à doce luz da aurora,
O vale, a selva, a praia inesquecida,
Onde brincava pequenina outrora;

Ver uma vez ainda essa querida
Serra Dourada que minh'alma adora;

E o velho rio, o Cantagalo, a ermida,
Eis o que sonho unicamente agora.

Depois… morrer fitando o sol no poente,
Morrer ouvindo ao desmaiar fagueiro
Da tarde estiva o sabiá dolente.

Um leito, enfim, bordado de boninas,
Onde dormisse o sono derradeiro,
Sob essas verdes, plácidas colinas.


Sobre a autora:Conforme alguns autores, teria nascido em Caldas Novas (GO), em 08.08.1889, mas teria adotado Jataí como sua cidade natal (1891). Estudou no Colégio Santana, de Goiás Velho. Leodegária foi criada em Jataí, onde colaborou com a imprensa, passando por outros estados como Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas. Um de seus escritos poéticos que foi intitulado “Voo cego” chegou a ser reproduzido e comentado por Joaquim Osório Duque Estrada. Foi uma das redatores do jornal “A Rosa” ao lado de Cora Coralina, em 1907. Depois de passar por várias cidades goianas, mudou-se para Minas Gerais. Faleceu em Belo Horizonte (MG) em 12/07/1978. Escreveu, entre outros livros, Orquídias (1928), Coroa de lírios (1906). Foi criteriosamente estudada por Basileu Toledo França, no livro Poetisa Leodegária de Jesus; e por Darcy França Denófrio em Lavra dos Goiases III Leodegária de Jesus




domingo, 26 de março de 2017

História bonita (18): Dona Leonides era analfabeta até os 67 anos.

Idosa aprende a ler aos 67anos e, aos 79, se forma em universidade do Rio

Dona Leonides Victorino cursou História da Arte na Uerj.
Ela não sabia ler até os 67 anos: 'Era triste, falavam que era analfabeta'.

Dona Leonides passou a infância na lavoura. Começou a trabalhar como doméstica e lavadeira, mas nunca perdeu o foco. “Eu era meio triste, as pessoas falavam que era analfabeta, parecia que tinha uma faca que cortava o coração”, contou ela.
Foi quando ela, aos 67 anos, decidiu botar em prática o sonho de aprender a ler e escrever, junto dos cinco netos.
Em 2014, mais uma conquista. Dona Leonides se formou em História da Arte na Universidade da Terceira Idade, na Uerj. “Eu sonho grande, não sonho pequeno, não”, brincou ela.

Veja matéria aqui
Imagem: Verdi Comunicação 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Quarta-feira é dia de: Viagem Ao Fim do Mundo, Marlene Canarim Danesi



 Quando depois de muito mar, de muito amor.
Emergindo de ti, ah,que silêncio pousa. Ah,que tristeza cai sobre o mergulhador. 
Vinícius de Moraes.

Ushuaia, cidade do fim do mundo. Destino decidido às pressas, por Helena, de acordo com recomendação médica. Depois de uma reação alérgica grave, Stevens Johnson, mesmo já recuperada, o dermatologista insiste: precisas abandonar o calor e procurar um lugar frio. Uma amiga recomenda a Terra do Fogo. Em 1979, só se chegava a Patagônia Argentina via marítima. A companhia italiana Costa C era a única que operava no Brasil. O navio que fazia a rota até Ushuaia era o Eugenio C. Quando compra as passagens, Helena não imagina que vai viver um dos mais tórridos romances de sua vida.
     O ambiente do navio é agradável, são apenas 800 passageiros. A programação é diversificada, para todos os gostos. Aulas de ginástica, de dança, de italiano, de culinária e natação. Almoço nos restaurantes ou na beira da piscina. À noite, depois do jantar, os hospedes se dividem, uns assistem shows ou vão ao cinema. Alguns preferem dançar e outros tentam a sorte no cassino. Férias muito boas, mas calma demais para o temperamento de Helena.
     Aproveita a monotonia da viagem para ler ou escrever no diário. Em uma tarde ensolarada, senta-se no balcão do bar. Entediada olha guias turísticos, conversa com o barman, um simpático jamaicano, que canta enquanto prepara o coquetel que ela prefere. De repente, vê um belo homem saindo da piscina.Helena coloca os óculos de aros negros, que contrastam com a túnica branca que veste. Prende com uma fivela dourada os cabelos,que o vento teima em embaraçar, e passa batom em seus lábios carnudos.
     O barman percebe o interesse de Helena, e comenta: se a Srta, gostou dele teve sorte, Giuseppe Donato,capo de máquina, quase não aparece por aqui. É o engenheiro mecânico responsável pela condução do navio.
Está sempre muito ocupado. Giuseppe veste um roupão branco, que realça com sua pele morena. Ele se aproxima, com um sorriso sedutor, e pede licença para oferecer o próximo drink. Imediatamente inicia uma conversação: você é muito elegante, tem um porte diferenciado, me chamou atenção desde a noite do coquetel do comandante. Adoro mulheres magras, morenas e altivas. Helena pensa: é um pouco atrevido este tripulante,mas homens audaciosos me atraem.
     Conversam um bom tempo. Foi amor a primeira vista. À noite, Giuseppe a aguarda no hall da boate.Helena está tensa. Ele se aproxima, passa os braços em sua cintura, e pergunta se ela não quer apoiar a cabeça em seu ombro. Sorri e a chama de querida. De forma carinhosa a conduz até a pista de dança. A música executada pela orquestra é Champanhe. Beija seu pescoço, enquanto as mãos descem pelo decote. Continuam a noite dançando músicas românticas. A viagem está perfeita. Durante o dia, Helena segue a programação do navio, as noites têm a companhia de Donato.
     Chegam a Ushuaia, a Cidade do Fim do Mundo, situada na Ilha Nacional da Terra do Fogo. Formada por montanhas, glaciares, bosques, lagos, pântanos, extensões de campos desérticos e rica fauna. De um lado os Andes, gigantes nevados. Do outro o oceano gelado, rico em espécies marinhas, pinguins, focas, baleias e orcas. Ushuaia é um verdadeiro deleite para os olhos.
     O navio atraca. É uma manhã fria, Helena veste meias de lã, botas, casaco e gorro de pele de foca. Donato já esteve muitas vezes lá. Convida Helena para embarcar no Trem do Fim do Mundo: é um passeio interessante, conta a história da cidade, que iniciou com a construção de um presídio, e leva ao Parque nacional.
Mas a noite, quero te levar a jantar no Elvira, especializado em frutos do mar, e a Centolla ( caranguejo gigante) é um dos pedidos obrigatórios.
     No dia seguinte navegam no Canal de Beagle, visitam a Ilha dos Lobos e vão até o Farol do Fim do Mundo. O jantar é um cordeiro patagônico. De volta ao navio, Giuseppe faz um convite: esta noite quero que você venha conhecer a parte reservada da tripulação. Ela aceita. Ouvem música, e se amam. Estão excitados pelo cheiro que vem do mar. Helena se entrega por inteiro e lhe oferece o corpo com generosidade. Ele sente uma espécie de triunfo inundados pelo orgasmo. Olha Helena que dorme profundamente como se dorme depois do amor.
Amaram-se durantes os dias e noites, enquanto durou a viagem. Quando se despedem, a grande revelação,Donato é casado.
     Helena adora a Patagônia, já retornou lá, mais três vezes. Conheceu outros lugares arrebatadores,apreciou o clima, as cores, os cheiros, os sabores, todos inconfundíveis. Mas a magia da primeira vez, não se repetiu. Fez falta o marinheiro experiente, que soube mostrar com maestria os encantos da Terra do Fogo,deixando ainda algumas lições. Uma delas Helena lembra sempre, quando retorna aos lugares onde viveu momentos tão intensos e que pareciam ser tão verdadeiros.

     Ouve então a voz agradável de Donato, acariciando seus ouvidos: existem muitos tipos de amores; todos parecem eternos enquanto novidade, mas cada um é único, se vivenciado intensamente. E nós acabamos de experimentar emoções inesquecíveis. Foi um presente em nossa viagem ao Fim do Mundo. 


In As Viagens de Helena, Danesi, Marlene Canarim
1ª ed., Porto Alegre, AGE 2016, pág.37-39.


Nota:  a postagem do texto foi gentilmente autorizada pela autora a quem agradeço também o envio do livro.

Imagem: Ushuaia 

segunda-feira, 20 de março de 2017

A Elegia do Outono, Olegário Mariano

No bailado das folhas amarelas
Velhinho trêmulo e setuagenário
Rico se sensações e de lendas singelas,
O outono aí vem...  Segundo reza o calendário.

Aí vem de novo o céu nevoento...
As árvores já estão tristes e pensativas:
O outono deve atuar no sentimento
Das crianças vibráteis e emotivas.

A alma de poeta que ama o silêncio e o abandono
Num reflexo diluído de ametistas,
Vendo e sentindo o outono,
Canta felicidades nunca vistas.

O outono aí vem sonâmbulo...Trescala
Com ele um cheiro novo de folhagem.
O outono é humano, o outono fala
Pelo gesto indeciso da paisagem...

Não há sol. A neblina passa rente
Da superfície azul da água estagnada.
As folhas cantam comovidamente
Canções de notas verdes pela estrada...

E vão morrer depois fracas e débeis
Contorcidas em gestos de ansiedade...
Vendo-a, afino as cordas flébeis
Da minha extrema sensibilidade.

O outono lembra frases murmuradas
Ao ouvido de alguém num gesto lento:
Levou o outono as tuas mãos fanadas
E atirou-as com pétalas ao vento...

O outono é a última nota agonizante
De um velho órgão plangendo, emocional,
No coração bruxuleante
De alguma velha catedral.

Outono! Evocação de coisas mortas!
.... Folha que andaste, asa perdida no ar,
Por que fugiste às outras portas
E vieste à minha porta agonizar?

Ah folha morta! Assim desiludida,
Rolando ao léu do acaso pelo chão,
És um farrapo trêmulo de vida...
Um velho trapo de recordação.

Mariano, Olegário
Toda uma vida de poesia, vol.1, pag 55-56

Nota: o blog atualizou a ortografia.
Imagem: Regina Porto.

domingo, 19 de março de 2017

História Bonita (17): Wemerson, filho de lavradores concorre ao Global Teacher Prize



Um dos dez melhores  professores do mundo tem apenas 26 anos, é filho de lavradores, nasceu e cresceu em uma cidade do interior do Espírito Santo e precisou lidar com traficantes de drogas e alunos que portavam armas de fogo nas escolas onde lecionou. O biólogo Wemerson da Silva Nogueira, natural de Nova Venécia, a 200 quilômetros da capital. Vitória, é finalista do Global Teacher Prize, uma espécie de Nobel do giz e lousa que recompensa com 1 milhão de dólares ao longo de dez anos um mestre que tenha feito grande contribuição à profissão. O anúncio do vencedor acontece neste domingo,19, em Dubai – será a primeira viagem internacional de Wemerson., Em cinco anos de carreira na educação básica,  o capixaba criou planos de conscientização conta o uso de drogas e lecionou com música e aplicativos para celular.
No projeto Filtrando as Lágrima do Rio Doce, implantado no ano passado, ensinou a tabela periódica por meio da análise de elementos químicos encontrados na água após o rompimento da barragem de Mariana. Também mobilizou estudantes para distribuir filtros entre as comunidades ribeirinhas. Pela iniciativa, tornou-se vencedor de prêmios como Educador Nota 10, uma realização da Fundação Victor Civita e da Fundação Roberto Marinho. Neste ano, mudou-se para Vitória, onde passou a trabalhar em uma faculdade privada nos ursos de pedagogia, engenharia elétrica e da computação.

Veja mais sobre o professor clicando em: Época ou G1 ou Gazeta on line ou Tribuna on line

Fonte:
Entrevista concedida a Meire kusumoto
Páginas Amarelas Revista Veja Ed.2522,22 de março de 2017.

Nota: O Global Teacher Prize, foi entregue a Maggie MacDonnel