domingo, 31 de dezembro de 2017

Passagem de Ano, Carlos Drummond de Andrade


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

In:ANDRADE, Carlos Drummond de, Poesia completa.. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002

Imagem: Pixabay

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Na Noite Santa Em Que Nasceu Jesus, Rogaciano Leite

Belo soneto de Rogaciano Leite, escrito de improviso numa mesa de bar no Recife, na véspera de Natal do ano de 1953. O tema: "Na noite santa em que nasceu Jesus", foi dado pelo  folclorista Aleixo Leite Filho (Leci).  


Bebo. E, bebendo pela vida afora
Esqueço-me das mágoas torturantes
De hora em hora, de instantes em instantes,
De instantes, em instantes, de hora em hora.
Vejo as visões que já não tenho agora,
Visões e outrora que já vão distante.
São fantasmas de amor extravagantes,
Extravagantes ilusões de outrora.
Bebo. E ninguém me culpe desse vício;
Se eu rolar, ou tombar no precipício,
Conduzirei, sozinho, a minha cruz.
Porém, jamais, embora frente à taça
Me esquecerei do amor, da luz, da graça,
Na noite santa em que nasceu Jesus.


Do livro, “Rogaciano Leite – do Cordel ao Erudito” do egipciense Paulo Cardoso, retiramos o poema-carta, feito de improviso por Rogaciano Leite, no qual o poeta faz jocosa cobrança de seus justos honorários por matérias publicadas em determinado jornal.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Dedicatória (2): Aos Bichos, Às Nuvens, Aos Rios-Irmãos, Luciano Maia

Aos Bichos

Ao bicho triste (pé de arribação)
À acauã que canta o triste fado
À juriti, ao pássaro carão
À asa-branca, ao sabiá, ao gado
Que bebe o rio-ausente do verão
Em cantigas de aboio represado.
A todos os viventes dos caminhos
Reverberadas pelos passarinhos.

Às Nuvens

Ás andarilhas nuvens tropicais
Que recebem do solo vaporoso
As águas em conúbios vesperais
E retornam (nem sempre) ao sequioso
País das pedras intertemporais
Nalgum velado encontro, em breve pouso
Dedico (na esperança de revê-las)
Este canto de amor sob as estrelas.

Aos Rios-Irmãos

Aos rios do Ceará, principalmente
Os do sertão sedento que não vão
Muito longe da terra seca e quente
Onde resiste o deserdado irmão
Preso a um fio d´agua sucumbente
Que o amarra à sina deste chão
Mas que ao tempo do solo lavradio
É a mais doce vazante do meu rio.


In: Maia, Luciano, Jaguaribe Memória das Águas, Governo do Estado do Ceará 2010
Imagem: Assembleia legislativa do estado do Ceará
Leia também:
Dedicatória 1 aos cantadores e aos repentistas

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A Orelha de Van Gogh, Moacyr Scliar

    
     Estávamos, como de costume, à beira da ruína. Meu pai, dono de um pequeno armazém, devia a um de seus fornecedores importante quantia. E não tinha como pagar.

     Mas, se lhe faltava dinheiro, sobrava-lhe imaginação… Era um homem culto, inteligente, além de alegre. Não concluíra os estudos; o destino o confinara no modesto estabelecimento de secos e molhados, onde ele, entre paios e linguiças, resistia bravamente aos embates da existência. Os fregueses gostavam deles, entre outras razões porque vendia fiado e não cobrava nunca. Com os fornecedores, porém, a situação era diferente.   Esses enérgicos senhores queriam seu dinheiro. O homem a quem meu pai devia, no momento, era conhecido como um credor particularmente implacável.

     Outro se desesperaria. Outro pensaria em fugir, em se suicidar até. Não meu pai. Otimista como sempre, estava certo de que daria um jeito. Esse homem deve ter seu ponto fraco, dizia, e por aí o pegamos. Perguntando daqui e dali, descobriu algo promissor. O credor, que na aparência era um homem rude e insensível, tinha uma paixão secreta por van Gogh. Sua casa estava cheia de reproduções das obras do grande pintor. E tinha assistido pelo menos uma meia dúzia de vezes o filme de Kirk Douglas sobre  a trágica vida do artista.

     Meu pai retirou na biblioteca um livro sobre van Gogh e passou o fim de semana mergulhado na leitura. Ao cair da tarde de domingo, a porta de seu quarto se abriu e ele surgiu,  triunfante:

     – Achei!

     Levou-me para um canto – eu, aos doze anos, era seu confidente e cúmplice – e sussurrou, os olhos brilhando:

     – A orelha de van Gogh. A orelha nos salvará.

     O que é que vocês estão cochichando aí, perguntou minha mãe, que tinha escassa tolerância para com o que chamava de maluquices do marido. Nada, nada, respondeu meu pai, e para mim, baixinho, depois te explico.

     Depois me explicou. O caso era que o van Gogh, num acesso de loucura, cortara a orelha e a enviara à sua amada. A partir disso meu pai tinha elaborado um plano: procuraria o credor e diria que recebera como herança de seu bisavô, a orelha mumificada do pintor. Ofereceria tal relíquia em troca do perdão da dívida e de um crédito adicional.

     – Que dizes?

     Minha mãe tinha razão: ele vivia em um outro mundo, um mundo de ilusões. Contudo, o fato de a ideia ser absurda não me parecia o maior problema; afinal, a nossa situação era tão difícil que qualquer coisa deveria ser tentada. A questão, contudo, era outra:

      – E a orelha?

     – A orelha? – olhou-me espantado, como se aquilo não lhe tivesse ocorrido. Sim, eu disse, a orelha do van Gogh, onde é que se arranja essa coisa. Ah, ele disse, quanto a isso não há problema, a gente consegue uma no necrotério. O servente é meu amigo, faz tudo por mim.

     No dia seguinte, saiu cedo. Voltou ao meio-dia, radiante, trazendo consigo um embrulho que desenrolou cuidadosamente. Era um frasco com formol, contendo uma coisa escura, de formato indefinido. A orelha de van Gogh, anunciou, triunfante.

     E quem diria que não era? Mas, por via das dúvidas, ele colocou no vidro um rótulo: Van Gogh – orelha.

     À tarde, fomos à casa do credor. Esperei fora, enquanto meu pai entrava. Cinco minutos depois voltou, desconcertado, furioso mesmo: o homem não apenas recusara a proposta, como arrebatara o frasco de meu pai e o jogara pela janela.

       – Falta de respeito!

    Tive de concordar, embora tal desfecho me parecesse até certo ponto inevitável. Fomos caminhando pela rua tranquila, meu pai resmungando sempre: falta de respeito falta de respeito. De repente parou, olhou-me fixo:

     – Era a direita ou a esquerda?

     – O quê? – perguntei, sem entender.

     – A orelha que van Gogh cortou. Era a direita ou a esquerda?

     – Não sei – eu disse, já irritado com aquela história. – Foi você quem leu o livro. Você é quem deve saber.

     – Mas não sei – disse ele desconsolado. – Confesso que não sei.

     Ficamos um instante em silêncio. Uma dúvida me assaltou naquele momento, uma dúvida que eu não ousava formular, porque sabia que a resposta poderia ser o fim da minha infância. Mas:

     – E a do vidro? – perguntei. – Era a direita ou a esquerda?

     Mirou-me, aparvalhado.

     – Sabe que não sei? – murmurou numa voz fraca, rouca. – Não sei.

     E prosseguimos, rumo à nossa casa. Se a gente olhar bem uma orelha – qualquer orelha, seja ela de van Gogh ou não – verá que seu desenho se assemelha ao de um labirinto. Neste labirinto eu estava perdido. E nunca mais sairia dele.


In: Pipocas / Moacyr Scliar, Rubem Fonseca, Ana Miranda. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 13-16. Coleção Literatura em minha casa; v.2 Crônica e conto.

Fonte: Super textos 
Imagem: Galeria Van Gogh  Autorretrato com bandagem 1889


domingo, 10 de dezembro de 2017

Quadros, Marin Sorescu - tradução: Luciano Maia


Todos os museus têm medo de mim
porque cada vez que fico um dia inteiro
em frente de um quadro, no dia seguinte se anuncia
o seu desaparecimento.

Todas as noites sou flagrado roubando
em outra parte do mundo, mas eu não me importo
com as balas que silvam perto dos meus ouvidos
e com os cães-lobos que conhecem agora
o cheiro dos meus rastros melhor que os namorados
o perfume da amada.

Falo alto com as telas que põem em perigo a minha vida
penduro-as nas nuvens e nas árvores
e recuo para ter perspectiva.
Com os mestres italianos pode-se ter facilmente uma conversa.

Que algazarra de cores! Também por esse motivo
com eles sou flagrado rapidamente
visto e ouvido à distância
como se levasse papagaios nos braços.

O mais difícil é roubar Rembrandt:
estendes a mão e encontras a escuridão –
Ficas horrorizado, os seus homens não têm corpos
apenas têm olhos fechados em caves escuras.

As telas de Van Gogh são doidas
giram e dão cambalhotas
e tenho de segurá-las bem com ambas as mãos
porque são absorvidas por uma força da lua.

Não sei porque Bruegel me faz chorar.
Não era mais velho que eu
mas chamaram-no o velho
porque tudo sabia quando morreu.

E eu procuro aprender com ele
mas não posso reter as minhas lágrimas
que correm sobre as minhas molduras de ouro
quando fujo com as estações debaixo do braço.

Como estava dizendo, todas as noites roubo um quadro
com uma destreza invejável.
Mas o caminho é muito longo.

Sou apanhado por fim
e chego em casa altas horas da noite
cansado e rasgado pelos cães
segurando na mão uma reprodução barata.



Fonte: Memória das águas

Imagem: Lucia Adverse

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Biografia do Língua, Mário Lúcio Sousa

- É isto a liberdade? Há qualquer coisa de inseparável entre liberdade e solidão.

Mas também há qualquer coisa de parecido entre liberdade e o amor. Serão iguais. Solidão ajuda a perceber a liberdade. Mas é em companhia que a gente a saboreia. Acho que no amor acontece o mesmo: a sós significa dois. Mas liberdade com medo, liberdade fugindo, não é liberdade, é soltura. Seja como for, não é submissão. Amor deixado para trás é amor? Liberdade nós trazemos connosco. E o amor? Também. Todos os que eu amei estão cá comigo. Ajudem-me. O meu consolo é que, pelo que eu pude perceber, um escravo fujão nunca é considerado um homem covarde. O padrinho entenderá. Espero que minha menina também. Mas vou viver sem eles toda a vida?

 O Língua olhava para o seu fardo, para o incansável outro que o tinha suportado todos os dias, dizia-lhe:Aguenta-te, rapaz, não me abandones e não te abandonarei.

Para pensar, o Língua falava consigo mesmo.Pensava no padrinho, que lhe dizia: O que nós os homens somos não se pode ver. Não podemos dizer que a nossa alma tem esta ou aquela cor. Os velhos congos diziam que a alma é uma espécie de maga que nós carregamos, as há benfeitoras e também malfeitoras. A alma deixa o corpo de uma pessoa quando morre ou, por instantes, quando dormimos. Os sonhos são feitos para estarem em contacto com a alma. É o momento em que a alma recupera sua liberdade e sai a passear pelo espaço. O arrepio é um sentimento por causa da alma que sai e volta a entrar no corpo. E quem tem arrepios deve rezar sempre. Enfim, os ensinamentos do dia-a-dia. Palavras do padrinho ecoando na memória. Mas sobre o amor nem uma palavra. Talvez não haja sabedoria para isso.

No meio desse pensamento, pareceu-lhe, então, entender o que o padrinho quisera dizer-lhe com o afilhado toma conta do padrinho.

In:Sousa, Mário Lúcio, Biografia do Língua, Ed. D.Quixote, Portugal 2015, págs.206-207
Nota: o blog manteve a grafia original.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Ser Levado, Vitorino Nemésio


Tivesse eu sido o que não fui,
Hoje era o mesmo projectado
António, Pedro, Lopo, Rui,
Quatro semblantes num só estado.

Mas eu serei, ainda que a morte
Me faça amiba, verme, pó:
Agulha a Deus, íntimo norte,
Resto de tudo uma alma só.

De eterno levo o tempo em frente
Como o boi leva o feno visto:
Mas ele é rés, e em mim vai gente:
Levado embora, existo, existo!

Imagem: The Garden of Saint Paul's Hospital - Leaf fall - 1889 (museu Van Gogh)

sábado, 2 de dezembro de 2017