quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Noite Em Que Houve Um Acidente, Chimamanda Ngozi Adichie



    
     Eu me incomodava que a perfeição da tia Chinwe estivesse determinada pelo que fazia por seu marido
    A tia Chinwe estava linda com um vestido cor de pêssego. “Acho que o Emeka sempre soube!”, disse com um sorriso. No pescoço usava um colar de coral. Tinha tanta energia quanto uma atriz de teatro no dia de estreia, cheia de entusiasmo, nervosa, ansiosa de convencer seu público com a versão de si mesma que ia mostrar para eles.

     Dei ao tio Emeka o enorme cartão de aniversário que tínhamos comprado e ele me abraçou. “Como você está crescendo rápido! Em seguida, começarão a chegar os pretendentes. Mas primeiro eles precisam vir pedir minha permissão!”.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Dedicatória (1), Luciano Maia

Aos Cantadores

Aos poetas duendes do Sertão
reinventores mágicos da lenda
mestre Vitalino
recontada nas noites de clarão
(barco-viola aos remos da contenda
seguindo a correnteza do refrão)
na torrente da rima, em cuja senda
desliza o meu poema de alma andeja
neste rio de verve sertaneja.


Aos Retirantes

Dedico o meu poema a este povo
peregrino habitante dos caminhos
que depois de morrer nasce de novo
ressurgido das sombras, dos espinhos.
Dedico este meu canto em que não louvo
o sem-rumo dos rastros ribeirinhos
mas a força telúrica do rio
e a sangria assassina denuncio.

Imagem retirantes: Cristina turma 413

In: MAIA, Luciano, Jaguaribe Memória das Águas, SCJCC e Governo do Estado de Ceará , 2007.
Leia também: Dedicatória 2 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Recado de Primavera, Rubem Braga

                                                                      Meu caro Vinicius de Moraes:


     Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio.   E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Cântico Negro, José Régio

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Fonte:Andrews Souza

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Saudação Aos Que Vão Ficar, Millor Fernandes

Como será o Brasil
no ano dois mil?
As crianças de hoje,
já velhinhas então,
lembrarão com saudade
deste antigo país,
desta velha cidade?
Que emoção, que saudade,
terá a juventude,
acabada a gravidade?
Respeitarão os papais
cheios de mocidade?
Que diferença haverá
entre o avô e o neto?
Que novas relações e enganos
inventarão entre si
os seres desumanos?


sábado, 11 de novembro de 2017

O Que Estou Lendo: Fantasma, Luiz Alfredo Garcia-Roza

     Eu nem sou interessada em romance policial, mas Garcia-Roza é uma exceção e eu gosto muito do seu delegado Espinosa. Recomendo.  

A mulher sentada à beira da calçada na avenida Nossa Senhora de Copacabana só se sente em casa vivendo na rua - estar entre paredes a oprime, ela tem a sensação de que vai morrer sufocada. É tão fina e educada que todos a chamam de Princesa. Seu 'lar' é um trecho do piso de cimento delimitado por pedaços de papelão. Muito gorda, tem dificuldade para se mover. Mesmo assim, não descuida da aparência - alisa bem o vestido sobre as pernas esticadas, penteia-se com esmero e passa batom com pelo menos frequência - sempre que recebe a visita do delegado Espinosa. E o delegado Espinosa visita Princesa várias vezes por dia. Afinal, tudo indica que ela viu quem enfiou uma faca no homem muito branco, talvez um estrangeiro, que amanheceu morto na calçada a alguns metros dela. Mas Princesa costuma sonhar, às vezes até quando está acordada. Isaías é o grande amigo de Princesa. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Ofensa, Tudor Arghezi




Desdenhei do granito, ó companheira,
Do qual te poderia ter moldado.
Busquei na argila do país amado
Teu corpo esbelto e com odor de cera.

Recolhi terra em bosques ancestrais
E amassei-a com minha mão de oleiro
Em partes, cada membro por inteiro
Teu ser pequeno, em sílex fugaz.

Esmaltei os teus olhos de verbena
E os cílios foram folhas de roseira.
As sobrancelhas, ramos em fileira
De erva recente, de uma luz amena.

O teu dorso dos cântaros formei
E se em teus seios tenho demorado
Com mão acesa, sinto-me culpado
Se na cintura a estátua não findei.


domingo, 5 de novembro de 2017

LivroErrante na Escola Municipal Albenice Maria

     O blog LivroErrante, com a aprovação da direção da Escola M.Albenice Maria, está  tentando levar interesse pela leitura a jovens do fundamental II. Começando com um grupo de 15 alunos escolhidos pelo demonstrado interesse e bom desempenho escolar, o blog enviou 10 livros de estilos e autores diferentes. 
   Os exemplares seguem diretamente para os alunos  e não para a biblioteca da escola.        
     A ideia é que depois de lido eles sejam emprestados a tantos colegas quantos queiram ler. Assim, os livros circularão e quando (se) não tiver mais nenhum interessado, voltem aos seus donos.






     Os livros acima já estão  com os alunos dos 8º e 9º anos, da Escola Municipal Albenice Maria da Silva em Jaboatão dos Guararapes. 

     No dia 14, o blog envia o último pacote com cinco livros. Aí, todos: Sônia, Larissa Leonardo, Adriele, Estefane, Ana Raquel, Francielly, Camila, Naelly, Camile, Alsamir, Adriano, Gustavo, Samuel e Paulo Ricardo terão uma uma lembrança do blog, quando saírem da Escola Municipal Albenice Maria da Silva.
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