quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Quarta-feira é dia de Histórias de Trens, Nílva Basílio.


São tão claros os presságios e os encontros dessa vida
Quando as partes combinadas surgem numa mesma estrada..."
(em Pequenina, cantada por Xangai, autor Renato Teixeira)
Os trens se cruzaram e pararam antes de chegar á plataforma da estação. Isto acontece frequentemente. Passageiros de um e outro aproveitam estes momentos para se olharem, se avaliarem, através das janelas tipo guilhotina. 
O casal se reconheceu naquele dia. Já haviam se visto outras vezes, cada um a seu modo atraído pela figura do outro. O soldadinho bem apanhado, no rosto um quê de quem vive de bem com a vida. A moça séria, jeitosa, muito bem arrumada, nos saltos - embora na volta do trabalho ela já esteja se achando meio decomposta. Ele lhe disse, mais tarde, que a achara bonita, e ela, no fundo, no fundo, acredita, com um tiquinho de modéstia. Sempre fora cuidadosa com a aparência, copiando os modelos das moças mais elegantes de sua época, estampadas nas revistas que um tio vez por outra lhe compra: Cruzeiro, Manchete, a Revista do Rádio. Olha atenta as fotos de Angela Maria, Emilinha e quem sabe as capas das partituras onde modelos exibem seus vestidos de baile, ombros nus enfeitados com camélias e colares de pérolas.
Ainda naqueles minutos de espera entre estações, os dois trocam sinais, combinando o provável encontro. Ele olha o relógio calculando o horário do trem em que ela está. (Até hoje esta regularidade nos horários dos trens é usada para se marcar encontros de casais ou amigos). Nicinha está vindo do centro da cidade, onde trabalha numa fábrica de sapatinhos para bebê. Ele, do quartel, algumas estações acima, na direção oposta. No dia seguinte, já estava na plataforma quando o trem dela chega. Procura por ela e a encontra. Caminharam juntos até o bonde em que ela vai para casa. Dias depois, até o ponto onde ela salta do bonde e, depois, até sua casa. Um irmão é escalado para não perdê-los de vista no trajeto. Finalmente, Chiquinho pede permissão para namorá-la ao pai severo. Passam a se ver todas as quartas e sábados. A mãe da moça constantemente o interroga sobre suas intenções. Todas muitos boas, pensa e responde o rapaz. O próximo passo para o compromisso, é conhecer a família dele. Mais uma vez é o trem que os leva até lá. Nicinha costura um belo vestido para o dia, colorido, listrado em verde, azul-marinho, amarelo; bem franzido, gola canoa e mangas japonesas. Prende o cabelo num rabo-de-cavalo e usa saltos altíssimos. Fêz muito sucesso quando apresentada aos pais dele. A futura sogra lhe conta histórias do seu menino, o quanto ela penou para sustentar a ambos quando o pai dele foi embora com uma prima dela!, até que se casou novamente; de como o padrasto o ama como a um filho. Falou do tempo em que seu menino sofria tocando boiada, dias, semanas, longe de casa, comendo o que dava, bebendo água de chuva. Contou da determinação dele em melhorar de vida, em sair dali e ir pra cidade grande. Como sofreu quando o rapaz foi mesmo embora, imaginando se ele tinha onde dormir, se sentia frio. Aqueles primeiros dias longe de casa, o rapaz dormiu foi em banco de praça mesmo, até que localizasse os padrinhos que o acolheram e ajudaram a arranjar emprego. Mas olha só pra ele agora, fardado, orgulhoso da carreira. Gostaram-se, logo de início, futuras sogra e nora. E esta vai pra cozinha fazer uma bela duma galinha pro almoço. 
Enquanto isso, pai e filho têm uma conversa num canto e o pai lhe assegura que não vai permitir que trate esta moça como às outras que namorou. Será que ele percebeu que esta não é como as outras? Que ele tome tenência, crie juízo. Claro que o rapaz já decidiu que esta é pra casar e é o que ele vai fazer: se assentar, parar de pular de galho em galho, de se engraçar com moças comprometidas, a ponto de ter que brigar de faca, de chegar em casa com a camisa em farrapos após cair no meio de espinheira, fugindo de brigas com namorados (e até maridos) traídos; já estava cansado da vida de andar armado para o que desse e viesse. Ele tem que sossegar. É o mais prudente a fazer.
O casamento aconteceu no mês das noivas, maio. No civil ela foi de vestido lilás-rosa, combinando com solidéu preto de véu e peninhas da mesma cor do vestido. No religioso, cetim Bangu prata, com botões encapados no vestido de talhe princesa, uma cauda que chegava quase até a porta da igreja Metodista quando já estavam no altar. O buquê que levava era de copos-de-leite naturais e o bolo patrocinado pelo saudoso tio Manoel tinha o tradicional casal de noivos, no último dos três andares. 
O trem continuou a fazer parte da história deles, nas visitas à família, no dia em que levaram o bebê para os avós paternos conhecerem.
E ainda hoje, de manhã bem cedo, quando o vento é propício, eu escuto a melodia café-com-pão do ritmo do trem saindo e chegando na estação.
Trens se cruzam trazendo gente que se reconhece e que decide seguir juntos a viagem da vida.
Trens fazem parte da minha história, da história da minha família.
Nota: texto postado com autorização da autora que enviou cópia.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Segunda-feira poética: Oração do Milho, Cora Coralina

 
Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos
e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso,
nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste, e, se me ajudardes, Senhor,
mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos
o grão perdido inicial, salvo por milagre,
que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo,
de mim não se faz o pão alvo universal.
O justo não me consagrou Pão de Vida
nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial
dos que trabalham a terra,
alimento de rústicos e animais de jugo.
Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
coroados de rosas e de espigas,
e os hebreus iam em longas caravanas
buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,
quando Rute respigava cantando nas searas de Booz
e Jesus abençoava os trigais maduros,
eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.
Fui o angu pesado e constante do escravo
na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proprietário, sou a polenta
do imigrante e a amiga dos que começam a vida
em terra estranha.
Alimento de porcos e do triste mu de carga,
o que me planta não levanta comércio,
nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa
e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos
na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras
à volta dos ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a vós,
Senhor,
que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho! 
 
Doodle do Google em 20.8.2017
 
 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quarta-feira é dia de A Casa Materna, Vinícius de Moraes


    
Imagem: Regina Porto
Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.
     É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.
     A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial  primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.
     Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta — pois não há lugar mais propício que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe por que queima às vezes uma vela votiva.      
       E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.
     A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.

Fonte: Contioutra.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Segunda-feira Poética: O Mal e o Sofrimento, Leandro Gomes de Barros



Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?”


Leandro Gomes de Barros:  poeta paraibano cuja obra foi usada por Ariano Suassuna em, por exemplo, O Auto d Compadecida. Leia sobre ele clicando aqui


Imagem e mais informações sobre o autor, clique aqui 

domingo, 13 de agosto de 2017

Recomendo: O Filme da Minha Vida

  Um Pai de Cinema de Antonio Skármeta conta:

    A bela e breve história do jovem professor de um povoado, Jacques. Seu pai, um forasteiro francês, abandonou a ele e sua mãe há vários anos. 
     Um dia, ao visitar a cidade vizinha para ir à primeira vez a um bordel, Jacques tem uma grande surpresa, e a explicação de tudo pode estar muito perto dele.(liv. Saraiva).  

Essa história simples, lírica e com sabor de café da manhã foi transformada em filme por Selton Melo e está nos cinemas. O Filme da Minha Vida traz Johnny Massaro fazendo o papel do jovem professor, Vincent Cassel é seu pai francês ( o ator é realmente francês) e o próprio Selton faz o papel do amigo do pai.

Ainda não li o livro, mas o filme me encantou pela singeleza, desempenho dos atores, beleza das paisagens e ternura.  Recomendo

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Eu Tambem Leio - Grupo para adolescentes,



GRUPO DE LEITURA PARA ADOLESCENTES ENTRE 14 e 17 anos.

Leitura de 1 livro por mês. Um encontro semanal para discussão do livro em questão.

Vagas limitadas. Livraria Única. Em Copacabana.
Telefone e faça a sua reserva:

ESPAÇO ÚNICA
Av. Nossa Sra. de Copacabana 1072/ 1205
Tels: (21) 2247-7895 ou 97190-9834
www.unicagestao.com

Se você não tem adolescentes na família, poderia por favor passar essa informação para quem você conhece com adolescentes?  COMPARTILHE!
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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Nayyirah Waheed: A Americana do Momento no Instagram (1)

     Nayyirah, é uma jovem e reclusa americana que escreve boas poesias e é muito conhecida no Instagram.  Nayyirah Waheed fala muito e bem do que todos nós devemos ouvir: racismo, autoestima, feminismo.
     Como acabei de me encantar por ela, vou dedicar algumas segundas-feiras poéticas a Nayyirah Waheed.

Nota: A escritora tem dois livros: Salt e Nejma, ambos sem edição em português. 
Fonte: Jornal Nexo.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Segunda-feira poética: Oração Ao Tempo, Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Imagem: Starry Night
Van Gogh - 1889

sábado, 5 de agosto de 2017

Lembram do Jovem Que Sumiu?

       Pois é...  
      O jovem de 24 anos, Bruno Borges, da cidade de Rio Branco - AC, cuja história de desaparecimento misterioso foi largamente divulgada,  lançou um livro que está vendendo bem. 
     Segundo a PublishNews, Teoria da Absorção de Conhecimentos está entre os 20 livros mais vendidos na categoria não ficção.   

      Não sei ainda se é um bom livro, não conheço ninguém que tenha lido.  Por enquanto, sei apenas que o jovem psicólogo fez um trabalho de marketing muito bem feito. Com uma história de suposto desaparecimento, criou uma curiosidade formidável.  
     Bruno começou agora a história de um novo escritor recluso?   
    Bruno, em algum momento, vai contar sobre seu sumiço?  
     Todos os volumes vão ser lançados?  O(s) mistério(s) vai(vão) sustentar a boa venda  ou o conteúdo é que vai garantir o sucesso do Bruno Borges?  

Alguém que tenha lido o volume lançado poderia me falar a respeito, por favor?

Sobre o suposto desaparecimento leia aqui  
Sobre o reaparecimento leia aqui
Sobre o volume lançado leia aqui

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Segunda-feira poética:Mea Culpa, Antero de Quental

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.
Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existencia hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.
A Natureza é minha mãe ainda…
É minha mãe… Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir: se estou desesperado;
Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza…
É de crer que só eu seja o culpado!

Antero de Quental, in “Sonetos”