quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Edmundo, o Céptico, Cecília Meireles

    
     Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada.
     Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros que os seus dentes. Ele quebrou os dentes com a verificação. Mas verificou. E nós todos aprendemos à sua custa. (O cepticismo também tem o seu valor!)
     Disseram-lhe que, mergulhando de cabeça na pipa d’água do quintal, podia morrer afogado. Não se assustou com a idéia da morte: queria saber é se lhe diziam a verdade. E só não morreu porque o jardineiro andava perto.
     Na lição de catecismo, quando lhe disseram que os sábios desprezam os bens deste mundo, ele perguntou lá do fundo da sala: “E o rei Salomão?” Foi preciso a professora fazer uma conferência sobre o assunto; e ele não saiu convencido. Dizia: “Só vendo.” E em certas ocasiões, depois de lhe mostrarem tudo o que queria ver, ainda duvidava. “Talvez eu não tenha visto direito. Eles sempre atrapalham.” (Eles eram os adultos.)
      Edmundo foi aluno muito difícil. Até os colegas perdiam a paciência com as suas dúvidas. Alguém devia ter tentado enganá-lo, um dia, para que ele assim desconfiasse de tudo e de todos. Mas de si, não; pois foi a primeira pessoa que me disse estar a ponto de inventar o moto contínuo, invenção que naquele tempo andava muito em moda, mais ou menos como, hoje, as aventuras espaciais.
     Edmundo estava sempre em guarda contra os adultos: eram os nossos permanentes adversários. Só diziam mentiras. Tinham a força ao seu dispor (representada por várias formas de agressão, da palmada ao quarto escuro, passando por várias etapas muito variadas). Edmundo reconhecia a sua inutilidade de lutar; mas tinha o brio de não se deixar vencer facilmente.
Numa festa de aniversário, apareceu, entre números de piano e canto (ah! delícias dos saraus de outrora!), apareceu um mágico com a sua cartola, o seu lenço, bigodes retorcidos e flor na lapela. Nenhum de nós se importaria muito com a verdade: era tão engraçado ver saírem cinqüenta fitas de dentro de uma só… e o copo d’água ficar cheio de vinho…
     Edmundo resistiu um pouco. Depois, achou que todos estávamos ficando bobos demais. Disse: “Eu não acredito!” Foi mexer no arsenal do mágico e não pudemos ver mais as moedas entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, nem da cartola vazia debandar um pombo voando… (Edmundo estragava tudo. Edmundo não admitia a mentira. Edmundo morreu cedo. E quem sabe, meu Deus, com que verdades?)

Texto extraído do livro “Quadrante 2”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1962, pág. 122.
Fonte: Conto Brasileiro 
Blog manteve a grafia original

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Tristeza da Lua, Charles Baudelaire



Divaga em meio à noite a lua preguiçosa; 
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.


No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

BiblioTheo, a biblioteca de meu neto.



O garotinho fofo com pés de dragão é meu netinho. Theo está perambulando no setor de livros infantis de uma grande livraria. Sim, para ele é um lazer e tanto ir a uma livraria.  Theo já é um leitor de respeito: tem livros com e sem ilustração, em papel e em madeira, de ler ou de montar, intacto ou avariado, pintado, rabiscado, em português, em inglês. Todos lidos e relidos diversas vezes. Todos decorados,   claro. Criança não é assim? Sabe as histórias nos mínimos detalhes, mas quer que conte e reconte... Já li para Theo O Joelho Juvenal, de Ziraldo que o pai dele também tinha e também leu um montão de vezes. Ziraldo está na BiblioTheo. 
A BiblioTheo vai fazer parte do blog a partir de hoje. Coisa de vó. Babona e leitora.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Histórias de Trens, Nílva Basílio.


      São tão claros os presságios e os encontros dessa vida
Quando as partes combinadas surgem numa mesma estrada..."
(em Pequenina, cantada por Xangai, autor Renato Teixeira)

     Os trens se cruzaram e pararam antes de chegar á plataforma da estação. Isto acontece frequentemente. Passageiros de um e outro aproveitam estes momentos para se olharem, se avaliarem, através das janelas tipo guilhotina. 
O casal se reconheceu naquele dia. 
     Já haviam se visto outras vezes, cada um a seu modo atraído pela figura do outro. O soldadinho bem apanhado, no rosto um quê de quem vive de bem com a vida. A moça séria, jeitosa, muito bem arrumada, nos saltos - embora na volta do trabalho ela já esteja se achando meio decomposta. Ele lhe disse, mais tarde, que a achara bonita, e ela, no fundo, no fundo, acredita, com um tiquinho de modéstia. Sempre fora cuidadosa com a aparência, copiando os modelos das moças mais elegantes de sua época, estampadas nas revistas que um tio vez por outra lhe compra: Cruzeiro, Manchete, a Revista do Rádio. Olha atenta as fotos de Angela Maria, Emilinha e quem sabe as capas das partituras onde modelos exibem seus vestidos de baile, ombros nus enfeitados com camélias e colares de pérolas.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Oração do Milho, Cora Coralina



Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos
e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso,
nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste, e, se me ajudardes, Senhor,
mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos
o grão perdido inicial, salvo por milagre,
que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo,
de mim não se faz o pão alvo universal.
O justo não me consagrou Pão de Vida
nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial
dos que trabalham a terra,
alimento de rústicos e animais de jugo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Casa Materna, Vinícius de Moraes


    
Imagem: Regina Porto
     Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.
     É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.
     A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial  primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.
     Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta — pois não há lugar mais propício que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe por que queima às vezes uma vela votiva.      
       E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.
     A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.

Fonte: Contioutra.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Mal e o Sofrimento, Leandro Gomes de Barros



Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?”


Leandro Gomes de Barros:  poeta paraibano cuja obra foi usada por Ariano Suassuna em, por exemplo, O Auto d Compadecida. Leia sobre ele clicando aqui


Imagem e mais informações sobre o autor, clique aqui 

domingo, 13 de agosto de 2017

Recomendo: O Filme da Minha Vida

  Um Pai de Cinema de Antonio Skármeta conta:

    A bela e breve história do jovem professor de um povoado, Jacques. Seu pai, um forasteiro francês, abandonou a ele e sua mãe há vários anos. 
     Um dia, ao visitar a cidade vizinha para ir à primeira vez a um bordel, Jacques tem uma grande surpresa, e a explicação de tudo pode estar muito perto dele.(liv. Saraiva).  

Essa história simples, lírica e com sabor de café da manhã foi transformada em filme por Selton Melo e está nos cinemas. O Filme da Minha Vida traz Johnny Massaro fazendo o papel do jovem professor, Vincent Cassel é seu pai francês ( o ator é realmente francês) e o próprio Selton faz o papel do amigo do pai.

Ainda não li o livro, mas o filme me encantou pela singeleza, desempenho dos atores, beleza das paisagens e ternura.  Recomendo

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Eu Tambem Leio - Grupo para adolescentes,



GRUPO DE LEITURA PARA ADOLESCENTES ENTRE 14 e 17 anos.

Leitura de 1 livro por mês. Um encontro semanal para discussão do livro em questão.

Vagas limitadas. Livraria Única. Em Copacabana.
Telefone e faça a sua reserva:

ESPAÇO ÚNICA
Av. Nossa Sra. de Copacabana 1072/ 1205
Tels: (21) 2247-7895 ou 97190-9834
www.unicagestao.com

Se você não tem adolescentes na família, poderia por favor passar essa informação para quem você conhece com adolescentes?  COMPARTILHE!
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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Nayyirah Waheed: A Americana do Momento no Instagram (1)

     Nayyirah, é uma jovem e reclusa americana que escreve boas poesias e é muito conhecida no Instagram.  Nayyirah Waheed fala muito e bem do que todos nós devemos ouvir: racismo, autoestima, feminismo.
     Como acabei de me encantar por ela, vou dedicar algumas segundas-feiras poéticas a Nayyirah Waheed.

Nota: A escritora tem dois livros: Salt e Nejma, ambos sem edição em português. 
Fonte: Jornal Nexo.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Oração Ao Tempo, Caetano Veloso



És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Imagem: Starry Night
Van Gogh - 1889

sábado, 5 de agosto de 2017

Lembram do Jovem Que Sumiu?

       Pois é...  
      O jovem de 24 anos, Bruno Borges, da cidade de Rio Branco - AC, cuja história de desaparecimento misterioso foi largamente divulgada,  lançou um livro que está vendendo bem. 
     Segundo a PublishNews, Teoria da Absorção de Conhecimentos está entre os 20 livros mais vendidos na categoria não ficção.   

      Não sei ainda se é um bom livro, não conheço ninguém que tenha lido.  Por enquanto, sei apenas que o jovem psicólogo fez um trabalho de marketing muito bem feito. Com uma história de suposto desaparecimento, criou uma curiosidade formidável.  
     Bruno começou agora a história de um novo escritor recluso?   
    Bruno, em algum momento, vai contar sobre seu sumiço?  
     Todos os volumes vão ser lançados?  O(s) mistério(s) vai(vão) sustentar a boa venda  ou o conteúdo é que vai garantir o sucesso do Bruno Borges?  

Alguém que tenha lido o volume lançado poderia me falar a respeito, por favor?

Sobre o suposto desaparecimento leia aqui  
Sobre o reaparecimento leia aqui
Sobre o volume lançado leia aqui

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Mea Culpa, Antero de Quental

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.
Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.
A Natureza é minha mãe ainda…
É minha mãe… Ah, se eu à face linda


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