sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Cantiga Para Não Morrer, Ferreira Gullar

Quando for for se embora

moça branca como a neve
me leve

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento
menina branca de neve
me leve no esquecimento

In Os melhores poemas de Ferreira Gullar, sel. Alfredo Bosi, Global editora,pág.98

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Sociologia Dos Prédios, Aluízio Falcão.

Quem mora em prédio sabe do que estou falando. Há todo um mecanismo sociológico engendrando as relações entre condôminos. estes, na maioria, têm uma convivência precária, de piscina e elevador.Não se visitam, nem saem juntos, mas conversam animadamente nos encontros episódicos, como se fossem velhos amigos. Gracejam sobre futebol, falam mal do síndico e da República.Parecem detestar o seu país. "Só mesmo no Brasil!", costumam dizer, referindo-se a uma sacanagem qualquer. São favoráveis à pena  de morte, votam em Maluf. 
     Os condôminos, com raras exceções, fazem questão do máximo respeito à hierarquia dos elevadores: o social para as famílias residentes, o de serviço, para empregadas domésticas. Pois foi neste último que  me aconteceu entrar às pressas. Sem olhar direito para uma pessoa que lá estava, cumprimentei maquinalmente: bom-dia! Não houve resposta. Era uma senhora de certa idade, usando avental de empregada. Olhava-me com um certo espanto por ter sido cumprimentada. Não fora grosseria, fora susto. Jamais recebera um bom-dia no elevador. Isso ela me disse na saída, muito envergonhada, quando perguntei por que não respondera minha saudação.
     Acho que deve haver elevador de serviço apenas para carrinho de mercadorias, entrega de encomendas, mudanças etc. Pessoas que moram ou trabalham no prédio e visitantes, indistintamente, devem tomar o elevador que chegar primeiro. Se desse a minha opinião numa assembléia de condôminos seria questionado veementemente, pois alguns fatos comprovam que há uma esmagadora tendência pela divisão dos elevadores.
     É um destes fatos que venho narrar, com uma espécie de expiação. Deu-se ontem à noite, no elevador social, que estava lotado. As pessoas, como eu, chegavam do trabalho. Notei, no canto, uma negrinha encolhida. Era empregada doméstica. Quase todos olhavam para ela com um ar de reprovação. Logo surgiu o porta-voz do grupo, um senhor de voz autoritária: "Você não sabe que as empregadas não devem usar o elevador social?" Outras vozes fizeram comentários apoiando a repreensão. A menina finalmente ensaiou um justificativa: "Eu estava apressada..." O porta-voz caprichou no timbre, repetiu a censura. Tive ímpeto de protestar, defender a criaturinha humilhada. Estávamos a 10 andares do meu apartamento.Seria um ato mínimo de coragem moral insurgir-me contra a discriminação. O olhar da negrinha cruzou  com o meu. Pareceu-me um pedido de socorro. Continuei calado. O elevador chegou ao meu andar. Em casa, pacifiquei a consciência, argumentando para mim mesmo que a timidez me impedira de reagir. Mas não foi timidez, não. Foi covardia.

FALCÃO, Aluízio.  Crônicas da vida boêmia.1.ed. São Paulo, Ateliê Editorial1998,p. 98-100.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Álbum de Família, Renato Teixeira



Álbum de família
Vejo a vida e me espanto                                         Pois não compreendo
Por que ela correu tanto

Na manhã da vida
De alma ensolarada
Tudo era um querer
De querer tudo
E sem querer não querer nada

Triste do retrato
Que saudoso rememora
Minha ingênua farda
De soldado da escola

Hoje já não tem
Aquele mesmo resplendor
Pois passou o tempo
E ele também perdeu a cor

A doce lembrança
Que me invade sem receio
Ouço a gritaria
Da hora do recreio

As meninas anjos
A trocar as suas prendas
Um beijo no Zé Gordo
Entretido com a merenda

Ana sabe tudo
Era minha namorada
E eu por minha vez
Era perito em saber nada

Dura tabuada
Com seu conto em cada enredo
Nela eu aprendi
Como se faz corda nos dedos

Nove vezes novembro
Quase que me bota oco
E hoje o resultado
Deus no céu vale tão pouco

Nada mais existe
Do menino aprendiz
Que levou a sério
O que todo mundo diz

Desbotou com o retrato
Aquela alma ensolarada
Tudo que é querer se foi
Ficou o querer nada
Ficou o querer nada


Lançado no formato LP em 1971 e novamente em 1978, alguns anos depois lançado também em CD. Em qualquer dos formatos só pode ser encontrado em sebos ou colecionadores.

Visite  a página oficial de Renato Teixeira

Imagem:www.concertosastra-finamax.com.br
  

domingo, 25 de dezembro de 2016

Meu Povo, Meu Poema - Ferreira Gullar

Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova
No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta 


Dentro da noite veloz, 1975 e. José Olympio 
 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Peru de Natal, Mário de Andrade

      O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
     Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.
     Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.
     Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”:
     — Bom, no Natal, quero comer peru.
    Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.
   — Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania… Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo…
    — Meu filho, não fale assim…
    — Pois falo, pronto!
E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
     Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.
     Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
      — É louco mesmo!…
    Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.
     — Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus… Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.
     — Eu que sirvo!
     “É louco, mesmo” pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa!  
    Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da “casca”, cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
     — Se lembre de seus manos, Juca!
    Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
    — Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!
   Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos… Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.
     Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
     Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.
     — Só falta seu pai…
     Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
      — É mesmo… Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente… (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.
      E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo.

      Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu.   
      Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.
     Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.
Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
      A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor… Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.
Levantamos. 
     Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!…

Fonte: Releituras

Nota: o blog manteve a grafia original





segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Oração, Fernando Pessoa - tradução de Jorge Pontual



Nossa Senhora das lágrimas vãs,
Dai ao meu coração o vosso ninho.
Adoeço em infindáveis manhãs
E me embebedo com o amargo vinho
De só conhecer  angústias mal sãs,
De não saber senão viver sozinho.
Reconheço que imploro a vós em vão,
Mas meu coração só conhece a dor.
Um vosso olhar seria a salvação,
Mesmo que seja um olhar de horror.
Concedei-me que eu volte a ser irmão
Do vosso menino, Nosso Senhor.
Meu sentido de mim é todo pranto,
De mim mesmo só tenho muita pena.
Oh colo dos meus medos acalanto
Agarro-me a vós, criança pequena.
Quisera vos ver viva por encanto
A minha mão na vossa mão serena.
Há muito tempo perdi o sabor
Da fé, e tenho ânsia de oração
Meu coração é um jardim sem flor,
Nos meus brancos cabelos, vossa mão
De mãe deixai repousar com amor
E deixai-me morrer por compaixão.

Prayer
Our lady of Useless Tears,
Thine is my heart's best shrine.
I am sick with the gorging years,
I am drunk with the bitter wine
Of having but cares and fears,
Of knowing but how to pine.
It is useless to pray to thee,
But my heart is full of pain.
Thy glance would be charity,
Even if the look were disdain.
Give me that I may be
A child like thine again.
My sense of me is all tears.
I pity my heart too much.
O a cradle for my fears
And the hem of thy garment to clutch!
O wert thou alive and near us,
And thy hand a hand that could touch!
l do not know how to pray.
My heart is a torn pall.
See how my hair grows gray.
O teach my lips to call
On thy name night and day
As if that name were all.
My fathers' faith doth rise
To my lips this sick hour.
I pray to thee with mine eyes
Rosaries of anguish. O dower
My soul.with a least sweet lies
Of thy suffering son's power!
I have forgotten the taste
Of faith, and ache for prayer. My heart is a garden laid waste.
O thy hand on my hair
Like a mother's hand let rest
And let me die with it there!


The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995.- 352.

Imagem: www.revistapazes.com

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Jovens Escribas lança três livros no Recife

Em noite no Bar do Barbosa, editora apresenta as novas obras do escritor recifense de coração Paulo Costa, Patrício JR residente na cidade e o autor visitante potiguar Carlos Fialho

Com ideia de coletivo de autores, a Jovens Escribas faz lançamento triplo no centro do Recife com: “A prata das pétalas”, de Paulo Costa, “Absoluta Urgência do Agora” de Patrício Júnior e “A noite que nunca acaba” de Carlos Fialho, nesta quinta-feira, 15, no Bar do Barbosa. Um encontro de três escritores provocativos, duas das obras trazem histórias fantásticas ambientadas em cidades nordestinas e também um romance que demonstra a fúria dos relacionamentos. 

A editora sempre reúne e promove intercâmbio entre escritores em várias cidades pelo Brasil. “Desta vez o anfitrião é Paulo Costa, mas aproveitamos para apresentar Patrício JR que também mora no Recife e ainda continuo com o lançamento nacional de A Noite que nunca acaba. Outros livros de nossos escritores também estarão à venda com preços promocionais.”, explica Carlos Fialho - editor da Jovens Escribas.

A Prata das pétalas” é o quarto livro de Paulo Costa, pernambucano de coração e moradia. Carioca de berço. Uma história, ambientada no Bairro do Recife, conduzida por Maria, ex-rainha dos cabarés do porto, nos anos 70, hoje moradora de rua e flanelinha. Entre sonhos e delírios dela e de outros personagens de rua com toques de realismo fantástico vemos o bairro de ontem e da atualidade. Nomes originais de ruas, que têm agora nome de político ou de gente endinheirada, são revelados. Paixões adolescentes e pagas com dinheiro e dores; e até um inventor que tem uma máquina que faz chover flores pontuam a narrativa.

Paulo Costa revela que a ficção tem vinhetas de realidade com o cineasta Lirio Ferreira (e um outro americano), a fotógrafa Ana Araújo, a jornalista Ana Maria Guimarães, a cantora Mônica Feijó, a atriz Lívia Falcão, o designer Walther Homes, o artista plástico Mané e o maestro Spok.  A capa tem desenho do artista plástico pernambucano Rinaldo Silva.
A Prata das Pétalas - Paulo Costa  - 92 páginas  - Preço Sugerido R$35


O romance  “Absoluta Urgência do Agora” é o terceiro livro de Patrício Jr, publicado pela Editora Jovens Escribas. Segundo o autor o protagonista não tem nome, mas tem muito a dizer. Numa inusitada discussão de relação com seu ex, a quem chama sempre de B*****, destila verdades incômodas, confessa fraquezas, abre-se mais que o recomendável. A cada pista deixada, a cada pequena revelação, o relacionamento dos dois vai se construindo na memória e se desconstruindo no presente. Uma verdadeira montanha-russa que conduz o leitor a um final inesperado e revelador.
 “Uma DR unilateral. Com questões que vão se respondendo enquanto o protagonista passa a limpo toda a longa relação que teve com B***** — às vezes com lirismo, às vezes com ironia, mas sempre com muita entrega.”, conta o autor Patricio JR.
Absoluta Urgência do Agora - Patricio JR - 292 páginas - Preço sugerido R$ 40

Com narrativas fantásticas “A Noite que Nunca Acaba”, do cronista/contista Carlos Fialho traz histórias imaginadas para um mundo paralelo em que assassinos em série e zumbis aterrorizaram a cidade hoje conhecida como Natal. Há contos com situações limites como: série de assassinatos de estrangeiros que chegaram à cidade para usufruir dos serviços sexuais prestados por menores de idade;  epidemia avassaladora provocada por um vírus haitiano transforma a outrora pacata cidade para todo sempre; um grupo de sobreviventes tenta superar uma situação de confinamento; uma mulher e um homem que tentam viver na traumatizada cidade pós-apocalíptica que lhes foi legada;
Contos que têm ou não relação entre si, narrativas construídas com pitadas de fantasia e toques de mórbido absurdo, baseadas no impulso de contar uma realidade possível, ainda que pouco provável. Um livro que traz assassinato e uma epidemia zumbi, assim como as consequências para a sociedade de ambas as situações extremas.
A Noite Que Nunca Acaba - Carlos Fialho - 240 páginas - Preço sugerido R$ 40

Serviço:
Lançamento de “A Prata das Pétalas” de Paulo Costa,  “Absoluta Urgência do Agora” de Patrício JR.  e “A noite que nunca acaba” de Carlos Fialho
Dia 15/12 a partir das 19h
Bar do  Barbosa - Rua Mamede Simões, Centro, Recife. (Em frente ao Bar Central).

O Estranho Visitante, Regina Ruth Rincón Caires



A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê? Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a lhe tocarem a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão, feito a chuva?!
Gregório para um pouco... Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede... Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças pra chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em direção dos arbustos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Vinicius de Moraes e Cecília Meirelles

     Esta segunda-feira vem com dois poemas, para ajudar a esclarecer uma confusão feita por alguns internautas, quando Ladyce West publicou no seu blog, Peregrina Cultural, o poema As Borboletas de Vinicius de Moraes.  Em alguns sites e até em livros didáticos a autoria é  dada a Cecília Meirelles. 
O blogueira Ladyce está absolutamente certa. O poema é de Vinicius de Moraes e na postagem consta a referência.  
Vamos aprender, então?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Dos Amores Divididos e Multiplicados, Regina Ruth Rincon Caires

 
Arroz, feijão, mexido de ovo e farofa de torresmo.
Tudo misturado, amassado. Isso era feito dia após dia, sempre nos mesmos velhos e descascados pratos de ágate. Cada neto era servido com esse manjar dos deuses, carinhosamente temperado de generosidade, doação, amor.
A avó compactava a comida no círculo central de cada prato, borrifava algumas gotas de limão-cravo, e com a lateral do garfo fazia uma cruz no centro, dividindo a porção em quatro partes. Dizia que cada parte era dedicada a um dos quatro grandes amores da vida: mãe, pai, avó e avô.
E, comprometidos com esses amores, cada um de nós escolhia a parte mais amada para iniciar a refeição. Quase sempre a sequência lógica prevalecia: mãe, pai, avó e avô. Raras vezes essa harmonia era quebrada, e quando isso acontecia nem precisava investigar: havia uma surra atrelada a isso. Uma surra dada ou uma surra prometida. Se bem que isso era muito particular. Se havia alguma inversão, ninguém comentava. Acontecia dentro das cabecinhas. Sei que acontecia isso porque inverti algumas vezes.
Enquanto comíamos, a avó, de longe, sempre atarefada com a lida da casa, cautelosamente controlava a nossa alimentação. Era comum ouvir:
- Quem já comeu uma parte? Didi, você está sem fome? Lúcia, a comida não está boa? Faltou sal?
Ela sabia que a comida estava sempre boa. Nunca faltou sal e nem sobrou. Nunca errou a mão em nada. Ali estava o amor mais saboroso que uma criança poderia receber. Era uma cumplicidade de afetos tamanha que espantava qualquer insegurança, qualquer medo, qualquer tristeza. Era um porto seguro.
Com o passar do tempo, fui percebendo que naquela divisão faltavam partes. Havia mais dois amores a serem colocados ali, no meu prato. Meu irmão e minha irmã.


Então, sem alarde, comecei a repartir as porções do pai e da mãe, de modo a serem quatro. Ali estavam os dois que faltavam. E ficava feliz assim...
Fiz isso por algum tempo sem ser notada. Quero dizer, pensando não ser notada. Imagina se isso seria possível! Nada escapava da tenência sempre zelosa da avó. E um dia, enquanto eu multiplicava as minhas divisões, ela aproximou-se de mansinho e, com aquele olhar que jorrava ternura, me disse:
- Existem outros amores, não é mesmo, menina?!
Depois do susto, sentindo o afluxo do sangue ruborizando o meu rosto por perceber que ela havia descoberto o meu feito, e não querendo que ela se sentisse afrontada pela minha iniciativa, prontamente coloquei-me de pé. E ela, no intuito de me tranquilizar, passou as mãos pelos meus cabelos, e com a maior serenidade do mundo, me disse:
- Ao longo da vida, minha neta, você irá encontrar muitos amores. Alguns serão somados, outros nascerão...  Serão tantos, mas tantos, que não caberão nem no maior prato do mundo!
E ela estava com a razão...        

                                                                                                        

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