quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Quarta-feira é dia de: Raquel Brabec



O relógio


Últimos preparativos antes de sair. No corredor para a porta de sua casa, Jorge deu uma última olhada no espelho. Vai ser um encontro tranquilo, pensou pela nonagésima vez. Apenas mais uma ocasião para jogar conversa pro ar e relembrar bons momentos. Sua mente trabalhava para pensar desse jeito, mas o suor em suas mãos indicava um alerta biológico mais antigo, incompatível com o pensamento. Encurralado, foi a palavra que surgiu em alguma zona primitiva e instintiva da sua mente, longe do olhar acusador da razão.
     Após olhar mais uma vez para o relógio, a terceira em um curto espaço de tempo, a ficha caiu e o cérebro de Jorge, esgotado pelo dilema, se deu por vencido. Não, não seria um momento saudosista, de troca de amenidades.Seria o encontro de turma do colégio.
     Passaram-se anos após o fim dos estudos. Cada um seguiu seu caminho, ocasionalmente cruzado por um evento de maior significado, como aniversário, carnaval ou casamento. Os telefonemas e as visitas começaram a rarear, e aquela amizade, antes alimentada na rotina das aulas, transformou-se em um contato distante e, por que não dizer, conveniente.

     Os minutos se passam, mas Jorge não deu nem um passo à frente naquele corredor. Seu olhar recai automaticamente no relógio, o que o deixa aborrecido. O que seu inconsciente quer dizer, mas ele não quer admitir, é que essas olhadas ansiosas para o relógio prateado em seu braço significam um desejo insano de fazer voltar o tempo. Jorge gostaria que, por mágica, só com seu olhar concentrado, aqueles ponteiros retrocedessem para alguns dias atrás, quando recebeu o convite para o tal encontro. A resposta poderia ser diferente. Ah, não vai dar, já tenho outro compromisso, diria ele então. Pena que momentos de lucidez só chegam depois de as pessoas tomarem alguma decisão equivocada. E pena também que ainda não inventaram uma máquina do tempo. Conformado, Jorge abriu a porta para enfrentar o destino à frente.

     Antes de chegar ao local de encontro, Jorge avistou pela janela do carro uma ex-colega sua, Júlia, estacionando nas proximidades. Enquanto manobrava o seu próprio carro, lembrou-se do que soube da vida de Júlia. Ela casou com outro ex-colega seu, Davi, e ambos se tornaram advogados respeitados pela sociedade, com um escritório próprio. Porém, nos bastidores, fofocas venenosas apontavam para um casamento em ruínas, sustentado apenas pelo desejo mútuo de manter a estabilidade nos negócios.
Claro, durante o encontro de turma eles posariam como o casal perfeito, ricos e bem-sucedidos. Aquilo provocou um nó na garganta de Jorge, como se tivesse ingerido um bocado de comida compacta e grudenta sem nenhum copo de água por perto. Aquele encontro não tinha nada de saudosismo – estava mais para uma sessão infernal em que se mede o suposto nível de sucesso dos outros.
     A sensação desagradável estava passando dos limites. Jorge não entendia o que diabos ia fazer naquele encontro com pessoas que não tinham mais nada a ver com ele. Listou na mente suas conquistas ao logos dos últimos anos. Aos olhos de uma pessoa comum, não parecem grande coisa. Mas, para ele, todas são degraus para um sonho maior, mas, ao que parece, isso é visível somente a ele e a seu novo círculo de amizades.
     Parado no escuro do carro já estacionado, ele engatou um monólogo enraivecido: Não quero argumentar meu estilo de vida, justificar a rentabilidade dos meus sonhos, convencê-los de que sou feliz com as decisões que tomei, como sei que precisarei fazer. E se eu disser que não tenho planos para o que a sociedade valida como certo, como casamento, filhos ou a estabilidade de um concurso público, mereço respeito pela minha opinião, como sei que não terei, pensou.
     Mas pensamentos não são ações, e ele já estava ali, e Júlia o reconheceu pelo vidro do carro. Estavam esperando por ele. À porta do ponto de encontro, Jorge encaixou na boca seu melhor sorriso, acenando para os carrascos parados logo à frente. Não sem antes lançar furtivamente um último olhar para o relógio. Vai que dessa vez a mágica funciona.

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