quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Caso de Amor, Manoel de Barros

Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto que ela bota sentido em mim. Eu acho que ela manja que fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois, Eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei  ela bem acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando vem  um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e  de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bando de caititus a atravessam para ver o rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada... Deixe, deixe, meu amor.

(Em: Memórias Inventadas As infâncias de Manoel de Barros - Ed. Planeta 2010)