quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um Rasgo de Paixão, Francisco Borges Neto.



            Eu acabo de começar minha terceira série de sessenta abdominais quando ouço a chave girar na porta de entrada. Ela chega até a sala e atira a bolsa em cima da mesa. É inconfundível o choque do metal da sua arma no tampo de vidro. Aproxima-se e percebo que me fita com o ar de quem mal consegue disfarçar o ódio, e tenta exibir um desprezo que não existe. Não falo nada, me limito a manter a respiração compassada e ruidosa ao fingir concentração no exercício. Vista nesta perspectiva, de baixo pra cima, ela parece bem mais alta do que realmente é, as coxas parecem mais grossas e o cabelo fica mais bonito. Próximo à minha cabeça, no entanto, está fincado o seu scarpin vermelho, que somado ao seu confuso semblante me deixa um tanto incomodado. Mas não demora e ela some no corredor após soltar um daqueles soluços típicos de quem vai chorar. A pancada na porta do quarto corre pelo assoalho e retumba nos meus ouvidos. Fico preocupado, bem ou mal ela ainda é a minha garota. Temos, também, planos em comum, somos comparsas, cúmplices fiéis nos nossos negócios: não vivemos um sem o outro. E além de tudo – apesar de ser frio, cínico e às vezes cruel – uma mulher chorando sempre mexe comigo, meu ponto fraco.

Termino a série, me levanto do chão e contraio rapidamente a musculatura: os gomos do abdome saltam aos olhos. Chega uma mensagem do Cambota no meu celular: a barbara levou chumbo ta mau internou nas clinicas. Fazer o que agora? Seja lá a merda que aconteceu já não posso fazer nada. Melhor cuidar de outros destinos. Pego a minha Glock 9mm, instalo o silenciador e vou averiguar o que se passa com a Elisa. Não faço nada desarmado, nunca se sabe.

            Giro a maçaneta sem sucesso. Bato à porta do quarto. Nada. Bato mais forte. Nada. Começo a esmurrar e grito:

            – Porra, Elisa, abre essa porta!

            – Não! – a voz esganiçada, está viva.

            – Por quê?

            – Porque não!

            Enquanto ganho tempo fazendo rodeios insistindo para que ela ceda, penso friamente no que fazer. Despejar a força bruta do meu corpanzil na madeira? Desferir uma sequência violenta de chutes? Estourar a  tiros a fechadura? Sim, esta última solução é a melhor, não posso mais perder tempo porque ela avisa:

            – Eu vou me matar!

            Imediatamente empunho a Glock e tomo uma certa distância de segurança. Efetuo meia dúzia de disparos mesmo percebendo que as duas primeiras balas já haviam arrombado a porta. Além de preocupado estou puto. Porra, eu estava malhando tranquilamente e agora me vejo aperreado com essas duas.

            Desloco a porta com cuidado e vejo a minha garota de pé encostada na parede oposta do quarto. Seu corpo trêmulo e o rosto lavado de choro me desconcertam. Na mão direita ela segura a Randall modelo fighting stiletto que eu havia dado a ela no dia dos namorados. A faca, ou mais apropriadamente o punhal, está apoiada de modo perpendicular à sua carótida, a qual pulsa com vigor e dá uns trancos ritmados na lâmina. Merda, por que essa cena? O Japa havia desbaratado nosso esquema e ela ia, estoica, para o sacrifício? Não creio na inteligência dele. Ou alguém que a estava acampanando resolveu aparecer e ameaçar sua filha? Improvável, Elisa é das nossas melhores. Num átimo fui capaz de pensar em várias hipóteses. Bárbara?! Seria possível? Não... Me recuso a acreditar que fosse por causa daquela vadia.

A partir de agora é tudo muito rápido. Eu, nervoso, seguro a pistola sem firmeza e tento manter o ombro de Elisa sob a mira – antes um ombro aos pedaços que um pescoço rasgado ao meio. É tudo muito rápido. Meus olhos, aqueles olhos azuis que ela bem conhece e ama tanto, dizem que qualquer movimento brusco e eu atiro.

Foi tudo muito rápido.

Para conhecer mais sobre Francisco Borges Neto leia também:
Soneto da Esperança,
Bingo, está nascendo um novo autor,
Dia da Poesia,
Vencidas As Primaveras Insípidas.