quarta-feira, 30 de maio de 2012

Valter Hugo Mãe, indicado ao Prêmio Portugal Telecom

O Excelente livro do angolano Valter hugo Mãe, é um dos classificados para a edição 2012 do Prêmio Portugal Telecom.  Leia sobre o livro clicando aqui

A Máquina de Fazer Espanhóis
Valter Hugo Mãe
Ed. Casac Naify
Ano:2010
R$ 39,90

A fábula do Homem e Seu Garrafão Rachel de Queiroz


     Pelo interior do Brasil é comum a presença de um cara que é chamado de "propagandista". Aqui pelo estado do Rio, antes da camelotagem desenfreada, ele era chamado também de "camelô".
     Usava roupa vistosa, por exemplo: paletó xadrez vermelho e verde, calças bois de rose, gravata azul-bebê. Em geral fazia propaganda de remédios que curam tudo, todos os males do mundo e até maus pensamentos.
Ouvi que vendia xarope contra sífilis e, referindo-se às doenças "sexualmente transmissíveis", falava poeticamente em "mal de amores".
     E foi a propósito de propagandistas que recordávamos ontem, minha irmã e eu, um caso que nosso pai nos contava garantindo que era verdadeiro.
     Sucedeu numa cidade cujo nome ele não dava, para "evitar constrangimentos".
O sujeito já desceu do trem vestido a caráter: terno de listras colorido, sapato pampa, camisa roxo-batata, gravata amarela.
     Na pensão registrou-se, levou a mala à sua vaga no quarto e, portando um grande rolo de papel debaixo do braço, pediu permissão à dona da casa para expor à sua porta um cartaz, que dizia o seguinte: "Hoje, às 16 horas, venham ver o homem que entra no garrafão!"
     Dali, foi à igreja à procura do vigário, solicitando a sua reverência licença para dar uma demonstração estupefaciente, tendo como palco a escadaria da matriz. O padre ficou meio espantado quando leu o cartaz, mas acedeu. Também queria ver aquilo. Os outros cartazes foram espalhados pelas ruas, saturando todo o lugarejo.
     Claro que a curiosidade foi enorme. Fizeram-se apostas, teve gente que rasgava nota de cem em duas, que é a maneira mais popular de registrar apostas sem papel escrito. Quem vai ganhar vai receber do outro a sua metade da nota.
     Logo depois do almoço, o nosso homem foi à farmácia, onde negociou o aluguel de um garrafão de vidro, desses que transportam água destilada. Da pensão conseguiu ainda uma mesinha, e assim, pontualmente às quatro da tarde, lá estava ele com seus trajos multicores e os seus apetrechos, pronto para a "demonstração".
     A praça pululava de gente. Faziam-se as mais ousadas conjecturas: "O garrafão é de borracha transparente. No que o homem for entrando, ele estica, até caber". Outros acreditavam em hipnotismo. "Ele hipnotiza todo mundo e aí a gente acredita que ele entrou em qualquer coisa." Outros achavam que era só um truque: "Não sei como é, mas tem que ser um truque".
     E assim, ele começou a falar sob aplausos e assobios. Delicadamente pediu silêncio à multidão: ia começar o espetáculo.
Tirou o casaco, tirou a gravata, pôs no chão o chapéu de palinha, mostrou as mãos vazias.      
     Então, lentamente, lentamente, tentou enfiar a mão direita pelo gargalo do garrafão. Não cabia, claro. Estirou o polegar, introduziu o dedo no gargalo - entrou! Mas parou na junta. Ele suspirava, mas, com a mão esquerda, tentou de novo: não entrou. Descalçou os sapatos, experimentou o pé - qual! Não entrou mesmo - era ainda maior que a mão. Tentou o nariz, até que ralou e minou sangue. Não entrou também.
     E, diante do silêncio atônito da multidão, o homem abriu os braços de pura impotência e constatou desolado:
     - Realmente, foi impossível. Mas vocês bem que viram: eu tentei!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Segunda-feira poética: Canção da Candeia, Eugênio de Castro

- Feita de lata mesquinha,
Tendo irmãs de bronze e cobre,
Neste covil de miséria.
Fui a candeia de um pobre

Nascida para alumiar,
Como as estrelas do céu,
Vivi em trevas: meu dono
Poucas vezes me acendeu.

Como havia de acender-me?
Ao peso da sua cruz,
Onde tinha azeite o pobre
P'ra me ver florir em luz?

Passamos noites bem negras,
Órfãos de todo o deleite,
Ele, com fome e sem sono,
Eu, ceguinha e sem azeite!

Ontem, estando o triste a ponto
De partir p'ra Eternidade,
Doce mão bateu à porta:
Era a mão da Caridade...

Um pão lhe estendeu piedosa
Com um gesto de enternecer:
Mas era tarde! O faminto
Debalde o tentou comer!

No entanto,a mão generosa
A doce mão de marfim,
D'azeite fino e doirado
À farta me enchera a mim.

Com tal sangue brilhei tanto,
Que a estrela d'alva par'cia;
Mas, par'cendo luz de boda
Alumiei uma agonia.

Tardaste bem, Caridade,
Ao pobre de negra sorte,
Negando-lhe toda a vida
O que lhe deste na morte!

(Canções desta Vida Negra - Portugal 1922)

Clique aqui para conhecer o autor

sábado, 26 de maio de 2012

Crônica cantada :Nana Caymmi - Resposta ao tempo (1998)




Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento
Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei
Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo
Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei
E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos
Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer
Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, e ele não vai poder
Me esquecer
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer.

(Composição: Aldir Blanc)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ivan, o Sapo... filho de Henfil

      A maioria de nós conhece Henfil dos Frandins, da Grauna, do Bode Orelana que gritavam por liberdade, que criticavam a ditadura da época. Nós que compramos os Pasquins e posteriormente as revistinhas Fradim, nunca imaginávamos ver Henfil em livro pra criança.
     A Editora Nova Fronteira lançou no ano passado os primeiros de uma série de 12 livros do sapo Ivan que são desenhos e histórias que Henfil escreveu para seu único filho, que empresta o nome ao sapo, ao longo de oito anos.










 O Sapo que Queria Beber Leite
 Sapo Ivan e o Sol






Sapo Ivan e o Bolo











Sapo Ivan e Olavo









O Sapo e o Coração.






Ivan Cosenza de Souza, o gato que deu nome ao sapo


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Hoje é dia de: O Doido, Artur Azevedo

Não havia dúvida: o pobre Canuto estava completamente doido.
A princípio, foram uns acessos profundos de melancolia, um desejo de andar metido pelos cantos, com a cara para o lado da parede. Como se o mundo não lhe importasse para mais nada, contemplando as unhas, sorrindo.
Vieram depois o monólogos, os longos monólogos incoerentes, em que ele não dizia coisa com coisa, até que um dia ficou furioso, quebrou pratos e garrafas, escangalhou um velho relógio d

         e armário e, descendo ao terreiro da fazenda, espancou um moleque, matou algumas galinhas, e espojou-se no chão, às gargalhadas!
A família fechou-se toda num quarto, aos gritos. Foram os pretos que subjugaram o doido e conseguiram metê-lo num pardieiro arruinado, que havia sido senzala noutro tempo, e amarrá-lo solidamente a uma viga.
Imagine-se a aflição do obre Miranda, o velho fazendeiro, com o filho doido – um filho querido, rapaz inteligentíssimo, que concluira o terceiro ano de Direito em São Paulo e estava passando as férias na fazenda do pai.
E a mãe, aquela excelente senhora, carinhosa como todas as roceiras, ferida assim na fibra mais delicada do seu coração de mulher simples?
E as duas irmãs, uma das quais, a Maricas, era noiva do Meireles, um moço que tinha loja na vila, quatro léguas distante da fazenda¿
A fúria do mísero Canuto pôs tudo em rebuliço.
Depois de algemado e louco, Miranda, com a cabeça perdida, mandou que o pajem de mais confiança, o Miudinho, selasse o seu cavalo, também de mais confiança, o Furta-Moças, e fosse à vila a todo galope, chamar o médico.
Quando este veio, encontrou o doente prostrado entre duas pretas velhas que o benziam, resmungando rezas e fazendo bruxedos e feitiçarias. A grande crise passara.
O médico era um verdadeiro médico de roça.
-Homem, seu Miranda, confessou ele, não se trata da minha especialidade, é a primeira vez que na minha clínica aparece um caso de loucura. Eu podia receitar alguma coisa, mas creia, sem ter muita confiança no que fazia... Mande quanto antes o seu rapaz para o Rio de Janeiro, e meta-o no Hospício ou nalguma casa de saúde. O acesso pode voltar de um momento para outro, e talvez tenhamos que lamentar alguma desgraça. Com doidos não se brinca!
À tarde, apareceu na fazenda o Meireles, o lojista, o noivo de Maricas. O Miudinho, de passagem para a casa do médico, dera-lhe notícia do fato. O moço mostrava muita solicitude, muito interesse.
Era um rapaz de vinte e cinco anos, baixinho, de feições microscópicas e uns olhos, uns grandes olhos muito abertos que pareciam ocupar o rosto inteiro. Falava pelos cotovelos, desejoso de se mostrar entendido em todos os assuntos – e, agora, discutia casos de loucura e aprovava o conselho do médico.
- Mas quem o há de levar ao Rio de Janeiro? perguntou o fazendeiro.
- Eu! Disse logo muito depressa o Meireles. Deixe-o comigo.
O lojista cuidou desde logo de captar a confiança do doido, que tinha momentos perfeitamente lúcidos. Conversaram durante uma hora.
Canuto deixou-se convencer de que estava doente e devia dar um passeio à Capital Federal para tratar-se.
A mãe quis opor-se a essa viagem, as irmãs choraram muito e o velho Miranda sentiu-se fraquear entre aquelas explosões de lágrimas.
Mas era preciso levá-lo dali. Esse era o único meio de curá-lo, e evitar uma desgraça maior.
Dois dias depois, Canuto entrou no trem de ferro em companhia do seu futuro cunhado. Chegaram à noite à Capital Federal, depois de uma viagem sem incidentes, durante a qual  o doido apenas se mostrou taciturno. Ninguém perceberia o seu estado mental  se o Meireles, morto por dar à língua, não contasse aos outros passageiros a história do pobre moço.
Veio recebê-los na plataforma da estação um caixeiro do comendador Barbosa, correspondente do velho Miranda, que providenciara pelo correio e pelo telégrafo.
-Se quiser, disse o caixeiro ao Meireles, daqui mesmo pode seguir para a casa de saúde e lá deixar o doente. Está tudo preparado para recebê-lo.
E depois de indicar o estabelecimento, cujo diretor se achava prevenido, acrescentou:
- Basta dizer-lhe que vai da parte do comendador Barbosa.
O Meireles receou por instante que Canuto houvesse prestado atenção às palavras do caixeiro, e recusasse acompanhá-lo; mas o seu olhar de doido era tão inexpressivo, tão morto, que tais receios logo se desfizeram.
Efetivamente, quando o Meireles o convidou a entrar num carro estacionado na praça da República, o bacharel não fez a menor objeção, deixou-se levar.
Chegados que foram à casa de saúde, Canuto desceu do carro e embarafustou resolutamente pelo corredor, antes que o Meireles lhe dissesse uma palavra.
A primeira pessoa que o doido encontrou – numa sala onde se dirigiu – foi o próprio diretor do estabelecimento. Cumprimentou-o com muita amabilidade, e disse-lhe:
-Sr.doutor, trago a vossa senhoria o maluco de quem lhe falou o Sr.Comendador Barbosa.
E apontou para o Meireles, que por seu turno entrava na sala, com os grandes olhos exageradamente abertos.
-Bem! Já estou prevenido, disse o diretor.
-A mania dele, acrescentou Canuto ao ouvido do médico, é dizer que está no seu juízo, e que o doido sou eu. Aí fica o pobre rapaz aos cuidados de vossa senhoria.
Dizendo isto, disfarçou e saiu para a rua.
Bom, me amigo, disse o doutor, batendo carinhosamente no ombro de Meireles; vamos lá dentro. Vou dar-lhe um quartinho muito bom para descansar.
O Meireles sorriu:
- Perdão, doutor, eu não preciso descansar.
-Há de precisar, há de precisar; chegou de viagem, deve estar fatigado.
- Não, senhor, tanto que tenciono ir esta noite ao teatro; dormirei no hotel e voltarei para a roça amanhã, no trem da madrugada. Vim simplesmente entregar-lhe o doido de quem lhe falou o Comendador Barbosa.
- Pois sim, pois sim, deixe lá o doido... já sei, já sei... O senhor fica nesta casa alguns dias e depois volta para a fazenda de seu pai...
-Ora esta! Pelo que vejo, o doutor está me confundindo com o doido!
- Não, não estou, creia que não estou...Venha, venha comigo...
-Já lhe disse, doutor, que está enganado! Eu não sou doido. O doido é o outro!
E cada vez o Meireles arregalava mais aqueles olhos inverossímeis.
Depois de dizer, cheio de calma. – Bom!, é teimoso...
-O diretor calcou um botão elétrico
-Que faz?
-Vai ver.
Entraram dois enfermeiros, dois latagões musculosos.
- Leve este doente para o quarto número 7.
- Mas...
- Levem-no! Se protestar, metam-lhe a camisola-de-força.
Daí a cinco minutos, o Meireles estava no quarto e com a tal camisola, porque caiu na asneira de protestar.
Quatro dias passou o pobre diabo na casa de saúde, onde chegou a tomar três duchas geladas.
Foi preciso que o Canuto aparecesse na fazenda, e que o velho Miranda adivinhasse tudo e telegrafasse ao Comendador Barbosa, pedindo-lhe para desmanchar o engano.
Canuto está hoje completamente restabelecido  e formado: advoga, mas não serei eu quem lhe confie alguma causa.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Segunda-feira poética: Antropo[morfossintaxe] , Carla Guedes



Na análise desta vida
[semântica]
No profundo enconto
[Vocálico]
Neste período
[Compopsto]
Complexo,
Fundo.

Sser humano,ser
[Hiato]
Ao renunciar-se 
[Adjunto]
Ao desfazer-se
[Predicado]
Ao descobrir-se
[Sujeito]
Tece a
[Oração]
Cada dia
[Substantivos]
Rogos
[Verbos]

E continua
Sua vida
[Primitiva,
Comum,
Concreta]

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Arrasando na terceira idade: Capitães de Areia, 75 anos



    Sem Pernas, Pedro Bala,Caboclo Raimundo,Don’Naninha, João de Adão, Volta Seca, Gato, Boa Vida, Padre José Pedro, Barandão, Loiro, Pirulito, Almiro,  Zé Fuinha, Ezequiel, Alberto, Caboclo Raimundo, Dora, Querido de Deus são os personagens que contam as ruas de Salvador assolada por epidemia de bexiga. Menores infratores que vivem nas ruas num misto de liberdade de regras e escravidão da perseguição policial, pobreza e abandono. Jorge Amado situou a história em Salvador, seu quase único mundo nos livros, uma história presente em todo o país e ainda  na atualidade.    O autor conseguiu juntar, injustiça, lirismo, romance, agressão numa história cativante que prende o leitor até a última página. 


Clique acima para trailer do filme


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Quarta-feira é dia de: Ponto de Crochê, Dalton Trevisan

     Ponto de uma laçada, meio ponto, sob o vidrilho azul do abajur, pontas de agulha que revolem a memória, menina de tranças no espelho dourado da sala. oh! banguela, Oh cirandinha, meu anel era de vidro, você é mulher imprestável; por favor, mãe. O grande leão do circo. De quem o retrato, Gabriel? Essa fulana quem é?
     Três trancinhas, meio ponto, ponto de duas laçadas, boca do filho mordendo-lhe o seio. Perdão, mãe, não faço mais, o leão de boca escancarada no picadeiro; ervilhas para o almoço, quanto é a dúzia de ovos? vinte anos de casados, vamos celebrar, Gabriel? Que a Anita brigou com o noivo, não? pois brigou. Meu filho, respeite seu pai, disse Jesus, ponto meio ponto. Meu pai é um cretino. Ora, um dia igual aos outros... Bigode de homem na água trêmula e, Jesus Maria José, se tivesse fugido como a Alzira?
     Desmanchar o ponto, errou.
     Falarei com o filho, véu preto no rosto, anéis no dedo. Arroz, feijão, carne assada, a ervilha quanto é? Mano Ismael, desquitado da mulher à-toa (sorriso desdenhoso da mulata), por onde andará o filho? Tantos cruzeiros numa xícara do guarda-louça, a última no canto, três trancinhas, meio ponto: tudo eu, Joãozinho. Verde olho daquele homem, o rol da roupa suja: onde está a abotoadura?
     O gato comeu, disse, rindo-se ao vê-lo em cueca xadrez. Mãe, quem é a mulher do retrato? Essa fulana levou seu pai à falência. Meu pai é um cretino. Gabriel chorando, a cabeça nas mãos.
     Homem fraco, ponto de duas laçadas. Uma vez, numa rua, numa tarde, uma vez, numa rua, numa tarde, um homem. Dedos alheios dirigindo a agulha, mãe, olha lá o leão.
     Gosta deste quimono? Não elogiou o quimono de seda, a mão sem ruído cruzando o fio, irresistível fim de tudo, duas solteironas à janela - o sol na parede amarela. Menina de tranças diante do espelho, o chinelo gasto a seus pés, ao lado de cestinha de costura: uma, duas, três meias a cerzir. Amanhã quinta-feira, macarrão para o almoço - mais pó sobre os móveis.
     11 de março de 1945, a missa para as almas do purgatório. Longe da aflição das mães, o padre no confessionário, uma vez, numa rua, numa tarde, um homem: ponto, meio ponto, ponto, como é linda essa valsa, dançá-la bom seria. A porta da rua que se abre, passos pesados de homem no corredor, paz.
     Um ponto, um pensamento, e outro, depois outro, o silêncio da madrugada. Gabriel bêbado que chegou da farra: Por tua causa colombina, passei um triste carnaval... sonhou com dona Matilde, dedo gelado de morta, a face perdida na sombra: meu filho, quer arroz? meu filho, quer um copo de leite? Meu  filho não quer.
     E disse, o negro véu molhado na boca: Do que eu mais gosto é um copo de cerveja. Gabriel deixar o vício? Se contasse o sonho... Não, rir-se-iam, pai e filho, da pobre Matilde. O velho chapéu no cabide, anúncio de sua volta. Dedos velozes sob o vidrilho azul: sou feia? dona sedutora? Por tua causa, colombina.
     Vestido vermelho de veludo, anéis nos dez dedos, uma pérola na orelha, mulher chorando na tarde, ponto de duas laçadas - o sorriso desdenhoso na lágrima. Guardou o novelo, a agulha, a toalha na cestinha. Ergueu o rosto para o corredor iluminado, os passos agora mais perto.

terça-feira, 15 de maio de 2012

70.000 !!!!!!

Este blog acaba de bater a marca de 70.000 acessos individuais.  Agradeço a todos vocês seguidores ou não, que fuzeram parte desta estatística. Fico feliz e espero estar contribuindo com quem procura conteudo diferenciado. Vamos em frente chegar aos 80.000


domingo, 13 de maio de 2012

Minha Mãe, Padre Daniel Lima

Poemas
Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus olhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.

(Pe.Daniel Lima, prof. de Filosofia da UFPE, faleceu em abril de 2012 aos 95 anos)
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sábado, 12 de maio de 2012

Crônica cantada:Belchior, Galos, noites e quintais


Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,
que hoje eu trago e tenho;
Quando adoçava meu pranto e meu sono,
no bagaço de cana do engenho;
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,
fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde
que ondeia, com saudade do verde marinho:
Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia...
quando havia galos, noites e quintais.
Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
o mal que a força sempre faz.
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Stela Me Abriu a Porta, Marques Rebelo


    Havia alguns meses que nós nos conhecíamos e jamais o tempo passou rápido para mim.ela era ajudante de costureira no ateliê modestíssimo de Madame Graça, velha amiga de minha mãe. Meu irmão Alfredo, que morreu aos vinte anos, estupidamente, duma pneumonia dupla, era um rapazinho importante: não gostava de fazer  recados, de carregar embrulhos, de comprar coisas para casa na cidade.
    Mamãe respeitava-lhe a  vaidade. E eu fui buscar um vestido que ela mandara reformar – a seda estava perfeita, valia a pena. Quem me atendeu foi  Stela. Madame Graça havia saído e ela não sabia do vestido. Madame Graça não lhe prevenira nada. Mas não poderia esperar?- perguntou. Madame fora ali pertinho, não demoraria. Eu disse que esperaria. Ela me ofereceu uma cadeira, voltou para o seu trabalho e pusemo-nos a conversar.
    Stela era espigada, dum moreno fechado, muito fina de corpo. Tinha as pernas e os braços muito longos e uma voz ligeiramente rouca. Falava com desembaraço, mas escolhendo um pouco os termos, não raro pronunciando-os erradamente.
    - Está aqui há pouco tempo, não é?- perguntei.
    - Não faz um mês.
    É... Eu não a conhecia ainda
    Vem muito aqui, então?
    Muito, muito, não. Mas venho.
    Stela levantou-se para apanhar um carretel de linha e novamente voltou para a terefa, ao lado de manequim encardido. A luz do sol, rala, branda, coando-se através da cortina de musselina branca, caía-lhe aos pés, e na doce pernumbra suas mãos ágeis trabalhavam. Tinha os dedos grossos, marcados de espetadelas,as unhas cortadas bem rentes.
    A senhora sua mãe é amiga de Madame Graça? - indagou depois de trincar a linha preta nos dentes.
    Desde menina.
   Ah!
  Houve uma pausa em que a tesoura entrou em ação.
    Muito boa madame, não lhe parece? perguntou sem me olhar.
    - Muito
    Tenho gostado muito dela. Nunca manda, pede. E pede por favor. Não se zanga nunca, está sempre alegre, disposta animando a gente... Dá prazer trabalhar com uma pessoa assim, não é mesmo?
  Achei discretamente que sim, ela apurou mais um detalhe de sua obra, depois continuou:
    - A última patroa que eu tive era dura de se aturar. Não foi possível agüentá-la mais. Tudo acabava ruim, mal feito. Não falava melhor com a gente, era como se estivesse lidando com escravos. O senhor já teve algum patrão assim?
    -Não.  Eu nunca tive patrão. Sou estudante.
   - ah, sim! ... de quê?
   - Verdadeiramente de nada. Estou acabando preparatórios. Acabo este ano. Depois é que não sei o que vou fazer.
   - Deve continuar a estudar, ora! Se formar. Não há nada como a gente se formar. Meu padrinho sempre dizia isso. Queria que eu fosse professora. Eu comecei a estudar, mas era um pouco malandra – riu – Mas ia indo. Depois é que tudo desandou. Meu padrinho morreu, madrinha ficou em dificuldade e eu me vi obrigada a abandonar os estudos. Fui trabalhar. Como sabia dar meus pontos, meti-me de costureira. É coisa um pouco ingrata. Trabalha-se demais, não há folga. Acaba-se um vestido, pega-se logo outro. Mas pode ser que um dia...
    -Acredito que sim
    Ela levantou a cabeça:
   -Tudo depende da sorte, pois não é mesmo?
   Quando eu ia responder, o alfinete caiu e me abaixei para procurá-lo.
    Ela fez um gesto:
    -Deixe!
    Mas apanhei –o e entreguei-o:
    Aqui está.
    Muito obrigada. Mas devia ter deixado no chão. São mil que caem por dia. De tarde quando se varre a sala, acham-se todos. É mais prático do que abaixar a todo momento, não acha?
    -Sim, é mais prático. Mas para mim agora foi um prazer...
    Ela sorriu:
    Há gosto para tudo.
    O relógio cantou lá dentro com voz rachada – quatro horas. E Madame Graça chegava com seu sorriso aberto, seus modos despachados, sua gordura demasiada. Queixava-se de mamãe.Uma ingrata! Assim também era demais. Há um ano que não a via ( há menos de quinze dias mamãe tinha ido visitá-la de noite). Jurava que não poria os pés em nossa casa enquanto mamãe não fosse vê-la.
   -É que mamãe anda muito ocupada, Madame Graça. Muito cansada.É tanta lida lá em casa...
   - Eu sei, histórias... – E me entregando o vestido: Diga a sua mãe que se não estiver como ela quer é só mandá-lo de volta.
    E eu me retirei, não sem olhar demoradamente, mas disfarçadamente, para Stela, que me sorriu.

    Aquele sorriso, aqueles olhos me perseguiram dois dias, ao fim dos quais nos encontramos novamente. Ela saía às seis horas da casa de Madame Graça. Às cinco e quinze já estava na esquina esperando por ela. Uma tremura forte e irresistível sacudia as minhas pernas e o meu coração – se ela não viesse? Procurava reagir andando de um lado para outro, fumando  cigarro sobre cigarro, tentando recordá-la, já que suas feições pareciam ter-se desfeito na minha memória.
    Passou absorvida, apressada, não me veria na certa, se não me adiantasse. As pernas tremiam mais.
    - Boa tarde...
    Ela abriu um sorriso perfeito e estacou:
    - Que surpresa!
    Fechando os olhos, plantado à sua frente, disse quase inconscientemente que a esperava.
    - Por mim?
    Sim.
    Verdade?
    Verdade.
    Ela amassou a modesta carteira contra o peito, ligeiramente perturbada e indecisa se continuava parada ou prosseguia.
    - Fiz mal?
    Replicou prontamente:
    - Não
    Porque se fiz, não tenha o menor acanhamento de me dizer. Eu não me zango.
    Não! Falo a verdade.
    Sinto-me feliz por isto. Imensamente feliz.
    Ela pôs-se então a andar e eu perguntei:
  - Vai para casa, não vai??
    Ela olhava o chão:
    - Parece, pelo menos.
    Uma sensação agradável de segurança me enchia todo aí:
    - Podia ir mais devagar do que de costume?
    Ela continuou com os olhos baixos, mas retardou os passos.


Stela Me Abriu a Porta - parte 2


    Passamos a fazer o mesmo caminho todas as tardes, e cada dia demorávamos mais a percorrê-lo. Ao fim  de uma semana íamos de mãos dadas, perdíamo-nos por mil ruas antes de chegarmos à ladeira onde ela morava, no Rio Comprido. Nascera ali, numa casinha de três cômodos, atrás de um armazém que prosperara. Ali perdera o pai, que era embarcadiço, conhecera o mundo a pamo, outras gentes. Os japoneses comiam arroz com pauzinhos; os chineses adoravam filhotes de ratos fritos na manteiga; num lugar não sabia onde, os indígenas matavam os pais quando estes ficavam velhos; na África, as mulheres é que trabalhavam, os homens ficavam dormindo em casa, bebendo, fumando e se abanando por causa do calor! Deixava-a falar e ela falava muito.
    Sabia eu por que ela se chamava Stela? ah! Ria – por causa duma canoa. Foi a primeira canoa que meu pai teve construída por ele mesmo. Sempre amara o mar, a aventura o desconhecido. Seu desejo era ver o mundo, conhecer todo o mundo. E um dia foi-se ao mar! Acaba num cargueiro – o Sereia. Tinha o casco preto, baixo, um ar de navio fantasma, muito vagaroso. No mar das Antilhas, uma tromba d’água deu conta dele. Não se salvou ninguém. Eram quarenta homens. Ela tinha oito anos. A mãe ficou como louca, não queria acreditar. Ninguém jamais pensara que o pai se casasse com ela. Conheciam- se desde pequenos, tinham sido vizinhos muitos anos na praia de Paquetá, onde o pai dela era administrador duma caieira. Um dia ele chegou de uma viagem, foi procurá-la, dizendo que queria certidão dela para tratar dos papéis. E quinze dias após estavam casados. Um mês depois, ele partiu. Seis meses mais tarde voltou. Mais quinze dias e lá se foi. Quando veio de novo ela (Stela) tinha uma semana de nascida, era muito gorda – uma bola! A mãe escolhera o nome: Lourdes. Ele não disse nada e foi registrá-la. De volta é que se viu – registrara-a com o nome de Stela.
    Tinha ela seis para sete anos, quando ele veio muito doente de uma viagem. Era um reumatismo muito forte, que quase não o deixava dormir. Ao fim de alguns dias estava livre das dores, já podia dormir, mas o médico recomendou que tomasse cuidado com o que fizesse, se possível, um tratamento mais demorado.     Ele tinha seus cobres juntos, e seis meses pode ficar em casa, tratando-se. Foi um tempo feliz! Recordava-se comovida, umas lágrimas furtivas nos olhos. Ele era muito bom! Amava-a muito. Passeavam juntos, iam à praia, ao cinema, comprava-lhe uma porção de brinquedos, enchia-a de sorvetes, balas, gulodices, vestidos novos. O padrinho, que era engenheiro, ralhava com ele: você acaba estragando esta pequena de todo jeito. Ele ria: estragava o que era dele. É, retrucava o padrinho, estraga o que é seu, mas quando for embora quem aguenta são os que ficam.
    Quando ele morreu, a mãe ficou alucinada, queria morrer também. O padrinho protegeu-as. A mãe trabalhava como uma moura, lavando para umas famílias melhores das redondezas. Era ela,Stela, no princípio, quem entregava a roupa. Mas estava na escola. Fora um pouco avoada na escola. Muito distraída, diziam os professores. O Padrinho queria que ela fosse depois para a Escola Normal, saísse professora, tivesse o futuro garantido. Era bom. Mas, infelizmente, o padrinho morreu de repente, do coração, quando ela ia acabar o curso primário, aos quatorze anos. A madrinha ficou mal de vida. Era de São Paulo. Voltou para lá, pois tinha ainda os pais vivos. Adeus, estudos! Foi obrigada a trabalhar. Mas não vai lavar. A mãe não consentiu. Fosse costurar. Dona Amélia costurava para a vizinhança. Tinha boa freguesia. Aceitou-a como aprendiz. Três meses depois estava afiada. Costurar é fácil. Um pouco de jeito, um pouco de paciência, um pouquinho de gosto, o resto vai sozinho. Mas Dona Amélia não queria ainda pagá-la. Era uma exploração! Procurou outro lugar. Foi para um ateliê no Estácio. Depois – a patroa era muito implicante – saiu e foi trabalhar na Mariposa Azul, na Rua Sete. Aguentou-se um ano aí, mas trabalhava demais, comia mal, gastava muito dinheiro em bonde... Assim, tratou de arranjar um emprego mais perto, no bairro mesmo. Esteve pouco tempo nele. Também não havia pequena que parasse lá. Os donos eram uns gringos, gente danada! Só vendo. Andara ainda em duas outras casas, agora estava com Madame Graça. Madame era muito boa. Lá se iam três meses.

 Stela Me abriu a Porta - final

    Uma noite, voltávamos do cinema, ela me disse:
    - Não sei por quê tenho vontade de fugir. Parece que é o sangue de papai.
Eu olhava seu corpo, não respondi. Mas sentia que ela fugiria mesmo, um dia, para nunca mais. Não sei por quê, nada fazia para prendê-la. Aceitava a idéia de fuga como um acontecimento que não podia deixar de ser. As mãos dela eram quentes, apertavam. Os seus olhos eram bem o chamado do mar, o chamado das ondas do mar, o chamado das ondas de um mar desconhecido, verde, fundamente verde, misterioso.
     Sentia-me fraco. Por que não faria nada para prende-la, para tê-la sempre ao meu lado, já que sentia que a amava? Não sei.
     Está tão distante tudo isso, hoje, e o mesmo mistério perdura.
    Por onde andará Stela? Em que mares de homens se perdeu?"
    Às nove horas eu esperava por Stela na esquina combinada. Era uma véspera de Natal, bastante quente, de um céu muito claro. Ela chegou e me disse, calma, resoluta, com grande indiferença pelo destino:
   -   Aqui estou.
   - Querida!
    Fomos andando, resolvidos. Tudo estava preparado por mim, com meticulosidade que me assombrava a mim mesmo. Tinha tratado o quarto. Tinha discutido com o homem do hotelzinho, combinado a chegada.
    É uma moça direita – dissera ao homem. –Séria.
    Destas vêm cá dúzias.
    Era português, com um sotaque muito carregado, um olhar sórdido que me arrepiou. Rebati com raiva:
    - Mais respeito! O senhor está muito enganado! O homem abaixou-se como um tapete. "Desculpasse-o ... Não tinha a menor intenção de faltar ao respeito. Mas é que...” Não quis saber de mais nada. Saí. Estava tudo combinado, às nove, nove e meia, estaria lá com ela.
    Fomos indo. Tomamos um bonde, descemos. Andamos alguns minutos sem dizer uma palavra. Jamais pude saber se era por entendimento tácito, por medo do destino, ou por nojo antecipado do depois. Sei que ela me disse, de repente, com a voz mais rouca, os olhos mais verdes, apertando-me a mão com mais calor:
    - Não devia ter vindo.
    Eu tremi e paramos numa pequena ponte, como se, muda e previamente, tivéssemos combinado parar, não ir para a frente, ficarmos ali para sempre pregados. A lua é paz, é pálida, e nós tão pálidos.  As horas correm, o barulho do rio correndo tinha uma tristeza de morte.
    Duas velhinhas desceram a rua, vagarosas, de preto, escondidas nos xales. Passaram outras pessoas, formas vagas, que não pareciam deste mundo. E os sinos tocavam, tocavam...
    -Vamos? perguntou ela, rompendo um silêncio que parecia ser eterno.
    Não fomos. Ficamos, pregados na pequena onte, ouvindo o barulho do rio e o barulho dos sinos, vendo as estrelas na altura, esquecidos, perdidos, como restos de naufrágio.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Segunda-feira poética: Monólogo da Chuva, Aldemar Paiva



Está chovendo aí ?
E na sua vida ?
E na sua alma ?

Se chovia na noite em que nos vimos
e conversamos pela vez primeira ?
Chovia sim, e a cidade inteira
brilhava sob a chuva que caía...
A chuva, o frio, as luzes e o reflexo
daquela gente tonta no passeio,
tudo aumentava aquele meu receio
na onda de amor que me envolvia !

Se eu tremia na hora em que nos vimos,
num nervosismo incompreensível ?
Tremia sim, mas era irresistível
a força que de ti me aproximava...
E quando caprichosa pelo asfalto
a chuva fez espelhos coloridos
eu disse com ternura aos teus ouvidos
que o teu encanto me enfeitiçava !

Se era verdade o que eu te confessava
de chofre como um grito inesperado ?
Verdade sim, eu nunca tinha amado
e disse o que pensava e o que sentia...
Sorriste e em teus olhos de repente
As meninas felizes me acenaram
refletindo meus olhos que brilharam
numa ventura que eu desconhecia !

Se juntos nós andamos pela noite
quando a chuva passou, sem ter destino ?
Andamos sim, e o teu rosto divino
eu afaguei com minhas mãos grosseiras...
O sol e a chuva nos brindaram sempre
com horas de perenes alegrias
até que terminaram nossos dias
de estima e confiança verdadeiras !

Se eu fiquei triste e só quando tentada
por um capricho ou por alguém talvez,
fugiste dos meus braços certa vez ?
Eu fiquei sim. E por sinal chovia...
E a bendita chuva que te trouxe,
deixara de ser boa e te levara
enquanto nesta angústia me deixara
ilhado de saudade e de ironia...

Se eu te esqueci, agora que a lembrança
te prendeu no passado sem piedade ?
Esqueci sim. E se chega a saudade
já não me encontra com as mãos tão frias...
Teu vulto apagou-se na memória,
és uma sombra e não me fazes mal...
Agora, a chuva sim é um algoz fatal
que evoca a noite que estragou meus dias !

sábado, 5 de maio de 2012

Crônica cantada: Rosa, Jackson do Pandeiro

Rosa, Rosa, vem ô Rosa
Estou chamando por você
Eu vivo lhe procurando
Você faz que não me vê
Eu vivo lhe procurando
E nem sinal de você.
(coro repete)

Rosa danada
Minha morena faceira
Minha flor de quixabeira
Não posso mais esperar.
Fique sabendo
Se casar com outro homem
O tinhoso me consome
Mas eu lhe meto o punhá.
(coro repete tudo)

Comprei um papel florado
um envelope pra mandar dizer
numa carta bem escrita
o que sinto por você
a carta está esperando
porque não sei escrever.

A coisa pior da vida
É querer bem a mulher
A gente deita na rede
Maginando por que é
Com tantas no mei do mundo
Só uma é que a gente quer.

Coro: “Rosa, Rosa, vem ô Rosa...”

(Clique aqui para ouvir)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Menino, Chico Anysio


      Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido.
      Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos.
      É  um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram para nascer; ao contrário, nasceram pra pedir.
      Calado demais pra sua  idade, com idade demais pra sua idade. É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância.
Parece ser menor carente, mas se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola.
      Suas roupas são de segunda mão, seus livros são de segunda mão e tem a desconfiança de que a sua própria história alguém já viveu antes.
    Do amor não correspondido pela professora, descobriu que viver dói. Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.
     Foi Dom Quixote sem precisar de Cervantes e sabe, por intuição, que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo Nelson Rodrigues ou pelo Gilberto Braga.
      De seu, tinha uma árvore, um estilingue zero quilômetro e um pássaro preto que cantava no dedo e dormia no seu quarto.
Tímido até a ousadia, seus silêncios gritavam nos cantos da casa e seus prantos eram goteiras no telhado de sua alma.
      Trajava, na ocasião em que desapareceu, uns olhos pretos muito assustados e eu não digo isso pra ser  original: é que a primeira coisa que chama a atenção no menino são os grandes olhos, desproporcionais ao tamanho do rosto.
Mas usava calças curtas de caroá, suspensórios de elástico, camisa branca e um estranho boné que, embora seguro pelas orelhas, teimava em tombar pro nariz.
Foi visto pela última vez com uma pipa na mão, mas é de todo improvável que a pipa o tenha empinado. Se bem que, sonhador do jeito que  ele é, não duvido nada.
Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.
Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todos os dias.
Mas se alguém souber de alguma  notícia, me procure, por favor, porque...ou eu encontro de novo esse menino que um dia fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.

Chico Anysio (texto autobiográfico inédito) 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Lançamento: Retratos Antigos, Elisa Lispector


Retratos antigos (esboços a serem ampliados)
Elisa Lispector
Nádia Battella Gotlib (org.)
Área: Autobiografia
2012. 143 p. ISBN: 978-85-7041-938-5
Obra Avulsa
Dimensão: 24,50 x 17,40
Peso: 450 gramas

Em Retratos Antigos, Elisa Lispector revisita o passado e refaz o percurso dos seus ancestrais através de fotos de família. A autora, então no momento de plena maturidade, escreve a história da família Lispector, evocando valores e costumes desse grupo de trabalhadores rurais e de comerciantes. O texto possui 28 laudas datilografadas e revistas e demonstra intenção da autora de dar prosseguimento aos relatos. Por isso o subtítulo Esboços a serem ampliados. Elisa faleceu em 1989 e o livro, que agora se publica, aguardou 22 anos para vir a público.
R$ 85,00

(www.editoraufmg.com.br)