terça-feira, 13 de julho de 2010

Agradável surpresa: Clara dos Anjos, Lima Barreto

Lí há muitos anos O Triste Fim de Policarpo Quaresma, lembro de ter gostado. Nunca mais voltei a Lima Barreto até que na  comunidade Livro Errante, no  grupo  que anualmente encerra nossas trocas, o Saideira, Eloisa Helena ofereceu Clara dos Anjos. Insistiu para que entrasse na fila. Entrei no  final do  trajeto e concordei com ela: livro sensacional.  Por causa dele, me obriguei a estudar sobre Lima Barreto e literatura Brasileira, que infelizmente não  tive em minha vida escolar. Nunca é tarde!
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Lima Barreto se coloca em  vários personagens e de diversas formas.  Toda a história se passa no  subúrbio do  Rio  de Janeiro e seus personagens, muito bem criados por sinal, são pessoas comuns e possíveis em  qualquer lugar e época. Narrativa ágil e envolvente. Lima, foi criticado  por usar linguagem coloquial, abandonando (debochando talvez) do  rebuscamento ou excesso de capricho usados até então.Clara dos Anjos é inteiro um  tratado de sociologia. Alguns tabus já não  existem e até mesmo o nome "Cassi Jones", já parece bobo diante da festa de K, LL, Y usados hoje na busca de destaque e diferenciação usados nos nomes próprios .  Descontadas algumas poucas coisas que o  passar dos anos modificou, o livro Clara dos Anjos Continua atualíssimo? 
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... A mórbida ternura da mãe por ele, a que não eram estranhas as suas vaidades pessoais, junto  à indiferença desdenhosa do pai, com o  tempo, fizeram  de Cassi o  tipo mais completo de vagabundo. É um  tipo bem  brasileiro. (Clara dos Anjos pgs.33/34 - quem não conhece uma mãe de Cassi Jones na própria família ou largamente divulgada pela imprensa se o  filho for uma celebridade? O autor exagera quando diz ser esse o  tipo do  brasileiro) 

O verdadeiro  estado  amoroso supõe um  estado de semiloucura correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até a mais cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; em Cassi, nunca se dava  disso... (Clara dos Anjos pag.34 - Cassi se envolvia com as mulheres por necessidade de se sentir poderoso, acima do bem e do mal; assim, a paixão, descrita pelo autor, jamais faria parte de sua vida.)

O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora de seu  habitual campo de visão motivo para explicar o  seu mal-estar, fazem-na descarregar as suas queixas em  forma de desaforos velados, nas vizinhas com quem antipatizam por lhes parecer mais felizes. Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são probíssimas e necessitadas. (Refere-se a uma briga entre várias mulheres iguais, absolutamente iguais em  carências as mais básicas; explica também que até a falta de compreensão delas próprias lhes dava motivo para extravasar na contenda).  Tem algo  a ver com: Retire seu sorriso do  caminho/ que eu  quero passar com a minha dor? (Cartola)
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Em  geral essas brigas duram pouco. Lá vem uma moléstia num  dos pequenos desta e logo aquela a socorre com  seus vidros de homeopatia. (Sentimento ancestral de grupo,de igualdade,sobrevivência das mulheres, largamente exercitado nos grupos muito pobres)


Cessou de pensar em Cassi Jones e pôs-se a cogitar no  trabalho, nas gratificações e nos aumentos.( Refere-se a Joaquim dos Anjos, carteiro, pai de Clara - Note-se: um  funcionário público. Àquela época ser funcionário público dava uma certa distinção e dependendo do órgão até poder. Tempo passado e aí estão as filas quilométricas para os concursos de empregos com salários acima do mercado,gratificações,  a garantia de establidade e, dependendo do cargo, status. Como  no  tempo de Cassi Jones)

Vinha tudo isso com nomes arrevesados: franceses, ingleses, alemães, italianos, etc. Mas como  eram  sempre os mesmos acabara decorando-os mais ou menos corretamente. gostava de lidar com  aqueles homens louros, rubicundos,robustos, de olhos da cor do mar entre os quais ele não  distinguia os chefes e os subalternos. Quando  havia brasileiro no meio  deles, logo  adivinhava que não eram  chefes. ( o personagem, carteiro, desfaz dos brasileiros; um  recalque do autor?)

... Raramente vinha ao centro. Quando muito, descia até o Campo de Santa'ana.
... achava tudo  ridículo, exagerado, copiado, mas não  sabia bem de que modelo. O  que, de fato, sentia....  daquelas maneira, daqueles ademaques, daquelas convresas que não entendia, era a sua ignorância, a sua grosseria nativa, a sua falta de educação e de gosto.
O seu ódio, então, ia forte para os poetas e jornalistas, sobretudo para estes. ( Refere-se a Cassi Jones, quando a caminho da fuga, mas ainda no Rio  de Janeiro, encontra-se no centro da cidade. Sente-se incomodado diante de outros jovens de sua idade. Sente-se inadequado num  lugar onde não é o centro das atenções. Incomoda-lhe a consciência de que é ignorante e mal educado.)