quarta-feira, 31 de março de 2010

Prêmio Portugal Telecom 2010

A organização do Prêmio Portugal Telecom 8ª edição os três vencedores: a lista das :


Leite Derramado

Chico Buarque
Cia das Letras



Outra vida

Rodrigo Lacerda
Alfaguara
Páginas: 184
R$39,90 (Liv. Cultura)

Sinopse:Outra vida é o quarto romance do carioca Rodrigo Lacerda. Nele, o escritor, sem abrir mão do humor característico de suas narrativas, busca tratar da vida contemporânea a partir da história de um pequeno núcleo familiar, formado por um homem, uma mulher e sua filha de cinco anos. A ação dramática se passa numa rodoviária, com toda a família esperando a chegada do ônibus que a levará de volta para a cidade litorânea de onde vieram. Será o começo de uma vida nova, depois de um período difícil na cidade grande, quando o marido, funcionário de uma estatal, se meteu numa história de corrupção. Família, questões éticas, destino amoroso incerto: com esses elementos, Lacerda faz um retrato forte da vida brasileira contemporânea. ( do site do Portugal Telecom)


Sobre o autor:
Rodrigo Lacerda nasceu em 1969, no Rio de Janeiro. Publicou os seguintes livros: O mistério do leão Rampante (novela, 1995, prêmio Jabuti e prêmio Certas Palavras de Melhor Romance), A dinâmica das larvas (novela, 1996), Fábulas para o séc. XXI (livro infantil, 1998), Tripé (contos, 1999), Vista do Rio (romance, 2004, finalista dos prêmios Zaffari & Bordon, Portugal Telecom e Jabuti), O fazedor de velhos (romance juvenil, 2008, prêmio de Melhor Livro Juvenil da biblioteca Nacional, prêmio de Melhor Livro Juvenil da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil; incluído no catálogo White Ravens), Outra vida (romance).

Lar

Armando Freitas Filho
Cia das Letras
Páginas: 135
R$35,00(Liv.Cultura)

Sinopse:Em Lar, o poeta carioca Armando Freitas Filho, um dos nomes mais importantes da lírica brasileira, privilegia a memória como elemento central para a construção de seus poemas. A vírgula após o título serve de jogo de possibilidades poéticas: é como se a partir dessa célula inicial (Lar), o poeta parasse, suspendesse a fala, para depois compor a sua lembrança. Como ele mesmo chegou a dizer, este é o seu “Boitempo”, referindo-se ao ciclo de poemas memorialísticos de Carlos Drummond de Andrade. As peças espalhadas retratam a vida do menino oprimida pelo típico universo burguês dos anos 50, no Rio de Janeiro, entre a casa, a escola, a igreja e a praia.
Sobre o autor:
Armando Freitas Filho nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. É autor de Palavra, Dual, À mão livre, 3x4 (Prêmio Jabuti de Poesia, 1986), De cor, Números anônimos, Fio terra (Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, 2000), entre outros livros. Reuniu sua obra poética em Máquina de escrever (2003).( do site  do Portugal Telecom)

Melhores do mês de janeiro

Perguntei: Qual o melhor livro  que você leu no mês de janeiro?
A comunidade Livro Errante respondeu:

O Olho da Rua - Eliane Brum



São Bernardo - Graciliano Ramos


                                             A cabana - Willian P. Young


Percy Jackson e os Olimpianos: A batalha do labirinto


                                            O Que Cabe em Duas Malas - Veronika Peters

A Solidão dos Números Primos

                                          Um toque na estrela - Benoîte Groult
A trégua - Mario Benedetti


                                          Marina - Carlos Ruiz Zafón


Eu Sou o Mensageiro - Markus Zusak


                                         Histórias Extraordinárias - Edgar Allan Poe


A Ciranda das Mulheres Sábias - Clarissa Pinkola Estés


                                         Eu Receberia as Piores Notícias  dos Seus Lindos Lábios - Marçal Aquino


As vinhas da Ira, John Steinbeck,


                                        Belas Mentiras - Lisa Unger


Lolita - Vladimir Nabokov


                                       Os Espiões - L F Veríssimo


A viagem de Theo - Catherine Clement


                                      Os Movimentos Simulados - Fernando Sabino


Antes de Nascer o Mundo - Mia couto

terça-feira, 30 de março de 2010

Armando Nogueira.

Se você torceu o nariz supondo que eu  ia falar de futebol, lamento. Vou falar de Armando Nogueira que  não conheci pessoalmente mas por quem  tinha enorme carinho.  Presente da natureza, tenho alguma facilidade em sentir o  bom  caráter de pessoas sem  precisar necessariamente conhecê-las.  A.N  me chamava a atenção. Carregava consigo seriedade, bom humor e paz.   Jamais li nada contra ele, uma fofoquinha boba  ou  algo  mais forte. Nada. Pelo que de mal deixei de saber ele foi, vivo, o  que é agora: realmente um  cara bom.
Sei mais de Armando Nogueira ligado ao  futebol. Não por que só  falasse disso, mas  porque o  esporte é que domina a cena. Transitou querido e respeitado entre vários atletas de várias modalidades, e tornou-se amigo de alguns. 
Só descobri o excelente cronista Armando Nogueira quando, incentivada pelo meu cunhado predileto,lí o livro A Ginga  e o Jogo (Ed. Objetiva). Um banho!  textos leves, bem escritos, inteligentes,ponteados de bom humor e poesia.  
Para quem  quiser surpreender-se, recomendo o livro. Depois dele provavelmente o leitor descobrirá que futebol pode render muito  mais que resenhas chatérrimas em fins de jogos clássicos.
E para você morrer de curiosidade, coloco a seguir a crônica  feita por ele quando  da despedida de Paula, a Magic Paula,  da seleção  brasileira de basquete.

Sexto sentido da bola:
Armando Nogueira


Primeiro, foi a Hortência, de tantas cestas perfumadas. Agora, é Paula, Maria Paula, das mãos adivinhas. É uma saudade a mais. Porém, saudade que não dói. Zero de melancolia. Hortência, ontem, Paula, agora, ambas encarnam um passado glorioso do esporte brasileiro. E assim seguirão, pelo tempo, futuro afora, canonizadas, idolatradas.

Não choraremos o adeus de Paula porque não é o fim de um caminho. É apenas o termo de um ciclo numa existência perpetuada na gratidão de todos nós. Viveremos, sempre, o passado indizível de Paula, numa quadra de basquete.
 Paula, das mãos que inventam cintilações. Das mãos que adivinhavam os caprichos da bola. Das mãos que regiam o jogo como se o basquete fosse um balé. (Alguém dirá que não é?).


Paula, Maria Paula, musa de meus devaneios esportivos. É hora de renovar um pergunta que tantas vezes te fiz sem que jamais tivesse reposta: afinal, de onde vem a aura que purifica os dedos de tuas mãos, quando lanças uma bola de três pontos? Quem te concedeu a graça de enfeitiçar a bola? E teus gestos, de que matéria luminosa vem tamanha majestade?


Obrigado, Paula, pelo dom com que fintavas a própria gravidade, alternando ritmos, criando e recriando espaços impressentidos, na árdua travessia de uma quadra.


Bailarina do jogo, a inventar irretocáveis coreografias no palco de infinitas fulgurações. Sexto sentido da bola que sobe, radiosa, pra culminar florescida, triunfal, na castidade de uma cesta.


Beijo tuas cestas, Paula, pela ventura de poder beijar-te as mãos.


De Armando Nogueira:

Drama e Glória dos Bicampeões (com Araújo Neto) (do autor 1962)

Na Grande Área (Bloch Editores 1966)
Bola na Rede (José Olímpio Ed. 1973)
O Homem e a Bola (Ed.Globo 1986)
Bola de Cristal (Ed.Globo 1987)O Vôo das Gazelas (Civilização Brasileira 1991)

A Copa que Ninguém Viu e a que Não Queremos Lembrar ( com Jô Soares e Roberto Muylaert)(Cia. das letras 1994)
O Canto dos Meus Amores (Dunya 1998)
A Chama que não se Apaga (Dunya 2000)
A Ginga e o Jogo (Ed.objetiva 2003)

domingo, 28 de março de 2010

Um poema procurando uma canção

PLANTA COLHE
Arnaldo Antunes

o arroz
que se planta se colhe
o amor
que se planta se colhe
o que vai
volta um dia mais forte
o que fica
escondido explode


o feijão
que se planta se colhe
solidão
que se planta se colhe
se fugir
a estrada te escolhe
e o destino
também não dá mole
ao redor
pra onde quer que se olhe
a saída
é uma porta que encolhe


aflição
que se planta se colhe
algodão
que se planta se colhe
se cair
nessa chuva se molhe
sempre há sede
pra dar mais um gole
toda culpa
se planta e se colhe


na garupa
do tempo que corre
cada grão
que se planta se colhe
furacão
que se planta se colhe
cada um
inaugura sua prole
pedra dura
procura água mole
tudo vem
quando o tempo é propício
todos têm
sua porção precipício
o que sabe
não busca sentido
o que sobe
retorna caído


ilusão
que se planta se colhe
confusão
que se planta se colhe
num segundo
o desejo te engole
só não corre
esse risco quem morre

terça-feira, 23 de março de 2010

Bioblioteca humana -

Muçulmanos, judeus, católicos e budistas. Ricos e moradores de rua. Stripers e feministas. Imagine encontrar estes opostos todos juntos num único lugar. Esta é a proposta do projeto “Human Library”, ou Biblioteca Humana

Os organizadores do evento convidam pessoas com estilos de vida e ideias diferentes que se tornam “livros” humanos. Identificadas com uma camiseta avisando de seus “títulos”, elas costumam contar história de sua vida e tiram dúvidas dos frequentadores. Para os leitores, basta escolher o que querem “ler”.


"Leitor" conversa com um dos "livros"“Na primeira edição, pensamos que mesmo que ninguém viesse ao evento, os livros seriam tão diferentes que poderiam conversar entre si”, disse Ronni Abergel, um dos fundadores do projeto, ao LSN Global, site da Agência Voltage, em parceria com The Future Laboratory.


Para garantir um espaço de discussão saudável, Abergel conta que algumas regras são seguidas. O evento sempre conta com o apoio de seguranças e busca misturar bem os tipos de “livro”, para que não vire, por exemplo, mobilização de um grupo social apenas.



E nada de leitura digital neste evento. O organizador da Biblioteca Humana diz que, por enquanto, não pretende levar a ideia para a internet, já que o contato pessoal é uma das coisas mais importantes do evento.

O evento  ainda não tem  data para chegar ao Brasil


(Da revista Época Negócios.)

sexta-feira, 19 de março de 2010

ESTADÃO, censurado há 234 dias.

ESTADÃO

No  democrático Brasil o jornal  Estadão  está  sob censura há 234 dias. Pelo mesmo período  de tempo estão  calados, absolutamente calados todos os que  outrora se insurgiram contra a censura à imprensa.


sábado, 13 de março de 2010

Não Contem Com o Fim do Livro - Umberto Eco, cad.Sabático do Estadão

A paixão pela obra em papel convenceu Umberto Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros ("muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques", informa Umberto Eco) que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro, que a editora Record lança na segunda quinzena de abril.


A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estado na última quarta-feira. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento - naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada - encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. "Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes", comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.
Conhecido tanto pela obra acadêmica (é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece na ativa na Faculdade de Bolonha) como pelos romances (O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial), Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe. Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tantos os livros raros - que, no momento, lideram sua preferência - como conchas, pedras, pedaços de madeira. As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos - caso de Mário Schenberg (1914-1990), físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.


Aos 78 anos, Eco - que tem relançado no País Arte e Beleza na Estética Medieval (Record, 368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabino) - exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema (ao lado de seu aparelho de DVD repousa uma cópia da animação Ratatouille), mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco - envergando um elegante terno azul-marinho, que uma revolta gravata da mesma cor tratava de desalinhar; o rosto sem a característica barba grisalha (raspada religiosamente a cada 20 anos e, da última vez, em 2009, também porque o resistente bigode preto o fazia parecer Gengis Khan nas fotos) - conversou com a reportagem do Sabático.

Umberto Eco - entrevista concedida ao Estadão

Estadão: O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?

U.E: O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.

Estadão:Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?
U.E:A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar - muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa - é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Estadão:Não é possível prever o futuro da internet?
U.E:Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Estadão:Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?
U.E:O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias - de Paris a Nova York, por exemplo - sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?

Umberto Eco - entrevista concedida ao Estadão

Estadão:Em um determinado trecho de 'Não Contem Com o Fim do Livro', o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória - que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.


U.E:
De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos - até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

Estadão:No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.
U.E:Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Umberto Eco - entrevista concedida ao Estadão

Estadão:Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?

U.E:Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto - o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.


Estadão:Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?
U.E:Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil - o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.


Estadão:Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?
H.E:Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).

Umberto Eco - entrevista concedida ao Estadão (4)

Estadão:Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.

U.E: E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas - por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito.


Estadão:Por falar em 'O Pêndulo de Foucault', comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.
U.E:Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: "O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros." Respondi: Não é que eu não goste de você - afinal, eu criei você (risos).

Umberto Eco - entrevista concedida ao Estadão (final)

Estadão:Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?
H.E:De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor (risos). E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.
Estadão:Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado?
H.E:Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado (Toni Morrison foi escolhida certa vez) organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. "Por quê?", perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances - até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio (que não foi oferecido a Dan Brown) de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo (risos) e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.



Estadão:O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?
H.E:Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura (da USP), que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.

(entrevista retirada do Estadão 13/03/2010)

domingo, 7 de março de 2010

O Olho da Rua - Eliane Brum

O melhor livro  que li em janeiro deste ano foi O Olho da Rua, uma repórter em  busca da literatura da vida real, de Eliane Brum. 
A autora fez uma primorosa grande reportagem. Num livro muitíssimo bem acabado Eliane Brum, conta histórias de lugares e pessoas que jamais seriam notícia caso não passassem por alguma tragédia. A cada assunto (ou pessoa) ela faz em seguida uma análise de como foi feita a matéria narrando também algum desdobramento e ou autocrítica. Destaco a história do nordestino pobre que passava grandecíssimas dificuldades porque estava desempregado. Nada de especial. Quantas pessoas não estão, nesse momento, na mesma situação? A diferença é que a jornalista não explorou esse lado. O sofrimento dele diante das cobranças que recebia e que faziam-no esconder-se envergonhado, foi o que a autora mostrou. Não lembro o nome do conterrâneo, mas foi comovente saber que um homem recusava-se receber ajuda do governo. O livro traz bem claramente o sentimento de dignidade do migrante, quando ele diz que sem produzir não pode receber bolsa família.   
Tantas outras histórias mais, num livro sensacional!! Recomendo O Olho da Rua de Eliane Brum. Uma lição de vida e uma magistral aula de jornalismo.



O começo ( depoimento de Ladyce, comunidade LivroErrante)

Como veio para a Comunidade Livroerrante?

Em 2007 conheci através do Orkut a comunidade, porque já estava envolvida num outro grupo de pessoas que gostam de ler. Sem cerimônia, fui pedindo para entrar, porque gostei bastante da idéia de se ter uma “biblioteca flutuante”. Graças a essa troca entre leitores por todo o Brasil, fiquei conhecendo autores que jamais teria conhecido, livros que me enriqueceram consideravelmente. A pluralidade dos gostos e as recomendações dos leitores me dão um impulso para que eu venha a me “arriscar” a ler alguma coisa diferente. E me surpreendo por acabar gostando do que a princípio não me atrairia.

Quando começou a gostar de ler?

Não me lembro de uma época em que eu não lesse. Acho que sempre gostei de ler. Mas me lembro de uma cena, que provavelmente me marcou porque passou a ser parte das “histórias da família”. Eu tinha entre sete a oito anos e estava lendo “Ali Babá e os Quarenta ladrões” numa edição pequenina, sem ilustrações a cores. Quando, de repente, saí do meu quarto à procura de minha mãe que estava em frente à máquina de costura e disse: “Mamãe, estou lendo e as figuras aparecem na minha cabeça, fazendo o que estou lendo”!

Sempre tive muito acesso aos livros. Sou filha, sobrinha e neta de professores. Todos lá em casa sempre deram o exemplo. Meu pai que era um cientista, um professor de física, e raramente estava sem um livro em suas mãos. E ele lia não só textos científicos, mas era apaixonado por história geral e lia de vez em quando um bom romance “da moda”. Minha mãe também lia muito. Mamãe era professora de português. Formou-se na época em que na faculdade fazia-se neo-latinas. E lia sistematicamente “para não perder a língua” em espanhol e em francês. Ler era simplesmente parte do nosso dia a dia, era o “se fazia”, mesmo com outras distrações dentro de casa: rádio, televisão, amigos – que antigamente se visitavam com mais freqüência do que as pessoas fazem hoje. E nessas conversas entre amigos, na minha casa, sempre se falava sobre o que estávamos lendo. Recomendava-se um ou outro livro. E os adultos às vezes falavam com “palavras veladas” sobre algum livro que fosse mais atrevido, que as crianças ou os adolescentes não devessem ainda ler.

Outra coisa que me ajudou muito: havia uma biblioteca municipal a dois quarteirões da minha casa, da qual nós todos éramos membros. E eu tinha o meu cartão e total permissão de ir lá sozinha, sem acompanhantes e retirar qualquer livro de que gostasse. Freqüentei essa biblioteca dos 8 aos 15 anos, mais ou menos.

Tive alguns momentos marcantes nessas viagens pela literatura. O primeiro foi quando aos 11 anos, chateada, já com aquele aborrecimento adolescente, reclamei que não tinha nada para fazer. Minha mãe veio então com o livro “ bem água com açúcar” , O tronco do ipê, de José de Alencar e me disse: “Acho que você já está na idade de ler alguns livros de ‘gente grande’, tente ler este aqui. Se gostar, há mais livros parecidos com esse. “ Aquilo foi um presente dos céus: ler livro de ‘gente grande’! Ele ficou como um talismã para mim já perdi a conta de quantas vezes reli O tronco do ipê. Assim, li não só José de Alencar, mas quase dúzias de livros da Biblioteca das Moças. Deles passei para os livros de mistério, que por alguma razão eram sempre lidos durante as férias. Esses, cheguei a trocar com meus primos, às dezenas: Charlie Chan, Arsène Lupin, Poirot, foram todos personagens que habitaram a minha imaginação nesse período entre a infância e a adolescência. Havia também as revistas com contos de amor e contos de suspense, que se comprava no jornaleiro. Muito trocado da minha mesada foi gasto com essas publicações.

Já aos quinze anos com liberdade de ler o que quisesse, cheguei em casa uma vez com um livro que acabara de comprar, Trópico de Câncer. Deixei o livro sobre o sofá, enquanto ia lavar as mãos, colocar uma roupa caseira. Quando voltei para apanhar o livro encontrei minha mãe lívida e com o livro nas mãos. E me questionou: “Onde comprou esse livro? Quem vendeu para você? Esse livro não é para menores é um livro indecente”. E na sua fúria, rasgou o livro ali, bem na minha frente. Eu fiquei apavorada, nunca tinha tido qualquer restrição à leitura. Nunca poderia imaginar que alguém lá em casa iria rasgar um livro... Chorei, chorei muito pelo susto, pela humilhação, por ser adolescente, com as emoções em altos e baixos. Pensei que quando meu pai chagasse do trabalho eu pudesse ter um aliado nele. Qual não foi a minha surpresa: ele concordou com mamãe. Levei anos para ler Henry Miller. Quando o fiz, achei-o sem graça.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Capas de livros - 1 Imilce (Poemas para quatro vozes)

Capa do  livro lmilce (Poema para quatro  vozes) de Lucila Nogueira
Foto de  Marcos Prado - Criação da capa: Jadson Bezerra

segunda-feira, 1 de março de 2010

Comunidade Livro Errante, 3 anos

No dia  10 de março a comunidade Livro Errante, no Orkut completará 3 anos. Hoje estão  circulando por empréstimo 106 livros entre seus integrantes. Desde que foi  criada em 2007 diversos livros foram  enviados para leitura  entre pessoas que jamais se conheceram. Sem haver restrição a autor, gênero ou  estilo um  escritor de Cabo Verde, pode ser enviado de São Paulo para ser lido em Porto Velho e, de lá, seguir para  Salvador, voltar ao  dono ainda passando  por contagem-MG e Cabo Frio-RJ.
Repetindo o  que  aconteceu em  2006, quando um  grupo de leiteres vorazes, por brincadeira, criou um  tópico noutra comunidade, para fazer dois  livros circularen pelo maior número de estados brasileiros possíveis .  A comunidade Livro Errante, vai colocar novamente em  circulação no dia 10 de março os livros: A VALSA DOS ADEUSES, de Milan Kundera e O OPOSITOR de Luis Fernando Veríssimo.
É só aguardar: dia 10 de março no tópico VIP, entrem na fila.