quarta-feira, 29 de julho de 2009

Bibliotecas de todas as formas..

A era das bibliotecas online

Projeto reúne acervo global num único site, disponível nas seis línguas oficiais da ONU e em português

Bruna Tiussu escreve para “O Estado de SP”:

Até o Google deve ter ficado com inveja. Pela primeira vez na história, um projeto pretende reunir num só portal livros, manuscritos, mapas, filmes, fotos e músicas do mundo todo. Como uma Biblioteca de Alexandria – a comparação é inescapável – dos tempos da web, a Biblioteca Digital Mundial (BDM) foi inaugurada em abril, com 5 mil itens. Entre eles estão, por exemplo, raridades como manuscritos científicos árabes, a “Bíblia do Diabo” sueca, do século 13, e a coleção de fotos de d. Pedro II. Tudo original e gratuito.

Coordenada pela Biblioteca do Congresso Americano em parceria com a Unesco e a Federação Internacional das Bibliotecas, a BDM está disponível nas seis línguas oficiais da ONU (árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo), mais o português.

O Brasil participou por meio da Fundação Biblioteca Nacional, que forneceu 1.500 mapas e 1.200 imagens. “Recebemos o convite porque já tínhamos feito projetos com a Unesco e a Biblioteca do Congresso”, diz Liana Amadeo, diretora de Processos Técnicos da fundação.

Segundo Abdelaziz Abid, coordenador da BDM, o portal teve mais de 7 milhões de page views e 600 mil visitantes só no dia da inauguração. “Acervo digital é um fenômeno global. As pessoas querem informações diferentes, disponíveis de forma ágil.”

Para Liana, a época das pesquisas nas enciclopédias já passou. “Esta geração começa a utilizar as bibliotecas digitais. A próxima não vai saber como era possível viver sem.”

Leandro Trindade, de 24 anos, aluno do último semestre de Ciências da Computação da UnB, nunca pisou em uma biblioteca para as pesquisas de sua monografia.

“Trabalho principalmente com as bibliotecas digitais internacionais, que na minha área são muitas. Poderia ficar o dia todo falando das vantagens do acervo digital, mas as principais são: ele é portátil, acho o que quero rapidamente e não gasto papel em impressão. A informação tem de ser livre.”

Outro defensor da informação livre, Rafael Silva, de 26, mestrando em Educação na USP, faz download de cinco a dez obras por semana, principalmente do site Domínio Público, criado pelo Ministério da Educação. Ele diz que os sites são vitais, porque a distribuição de livros no País é precária. “Precisei de um livro que estava esgotado desde 1981, tive que ir até Campinas para consultá-lo. E se o exemplar estivesse em Manaus?”

O Domínio Público cadastra cerca de 3 mil obras completas por mês. Segundo José Guilherme Ribeiro, responsável pelo portal, o trabalho é feito em parceria com 12 universidades. “A maioria do material vem digitalizado. A gente faz o trabalho de coletânea e montamos um banco de dados.”

Os projetos de digitalização começaram a surgir no Brasil no início da década, para democratizar o acesso à informação. O acervo digital da Biblioteca do Senado, da Biblioteca Nacional e iniciativas de universidades inspiraram projetos como o da Biblioteca Brasiliana, lançada em junho. Parte do acervo – doado pelo bibliófilo José Mindlin – já está disponível na web. Mas a Brasiliana não se restringe ao virtual. Terá uma sede física na USP, com entrega prevista para 2010.
(Colaborou Ana Bizzotto)
(O Estado de SP, 28/7)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O que estamos lendo?



Na Comunidade Livro Errante, no Orkut estão circulando, por empréstimo, livros de diversos autores gêneros e estilos. Formando grupos organizados a Com. L.E oportuniza a leitura de livros por preço muito inferior ao do mercado uma vez que o participante paga apenas a postagem da devolução do livro. Na L.E frequentemente conhecemos novos autores e livros. No entanto o que mais cativa é o envolvimento criado entre os integrantes.

Abaixo alguns dos títulos que estão circulando entre os leitores. Esse número não corresponde nem à quinta parte da totalidade e semanalmente outros títulos são introduzidos.

Satiricon – Caio Petrônio

A Casa dos Budas Ditosos - João Ubaldo Ribeiro

Trópico de câncer - Henri Miller

O amante de Lady Chatterley - D. H. Lawrence

Pequenos Pássaros: Histórias Eróticas - Anäis Nïn
A cidade do sol – Khaled Hosseini
Queijo – Willem Elsschot
O sol dos Scorta – Laurent Gaudé
Antes de Morrer – Jenny Downham
O Rei Pasmado e a rainha nua – Gonzalo Torrente Balester
Bom dia Camaradas, Ondjaki
Coração em Cinzas - Adeline Yen Mah
O Calor das coisas - Nelida Piñon
O beijo da Mulher aranha – Maunuel Puig
Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antônio de Almeida
A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada –García Márquez
Sobre heróis e tumbas – Ernesto Sábato
Cândido ou otimismo – François Marie A Volteire
A doçura do mundo – Thiry Umrigar
A Louca da casa – Rosa Montero
Intermitências da morte –José Saramago
As noites e os dias - Ronaldo Correia de Brito
Histórias agrestes - Graciliano Ramos
Leite Derramado - Chico Buarque
Ciclo das águas - Moacyr Scliar
O emblema da amizade – Jacques bonnet
Pai e filho filho e pai – Moacyr Scliar
O perfume - Patrick Süsking
A viagem de Theo - Catherine Clement
This perfect day- Ira Levin
A doce canção de Caetana – Nelida piñon
Pedra Bonita – José Lins do Rego
As vinhas da Ira – John SteinbeckA sombra do vento – Luis Zafón
A casa verde - Vargas Llosa
Pantaleón e as visitadoras – Mário Vargas Llosa
Vento forte – Miguel Angel Astúrias
Cem anos de solidão – GGMárquez

Pedro Bandeira



O escritor Pedro Bandeira, de 67 anos, já foi chamado de "Paulo Coelho dos livros infanto-juvenis". Faz sentido. Ele chegou a vender 100.000 livros em um único ano - em toda a carreira, são 21 milhões de exemplares. A média de vendas lhe garante viver da literatura - raridade no país. Alguns de seus títulos mais famosos, caso de A Droga da Obediência (1984), de longe o mais popular, fizeram parte da formação de leitores que hoje estão na faixa dos trinta anos. Mas esses mesmos livros seguem nas mãos dos mais jovens. Além dos números, há outras indicações de que a obra de Bandeira continua viva. Uma delas é a adaptação para o cinema de O Fantástico Mistério de Feiurinha, livro de 1986 que chegará às telas na pele de Xuxa e Sasha. Não poderia ser mais pop. Além disso, sua obra, que já chega a 80 títulos, será integralmente reeditada a partir de setembro, pela editora Moderna. Na entrevista a seguir, o escritor conta como trabalha para aproximar seus livros dos jovens leitores, em um país em que o índice de analfabetismo ainda atinge alarmantes 11,5% das crianças de até 9 anos.

O senhor já foi chamado de "Paulo Coelho dos juvenis". O que acha disso?
A comparação é só por causa das vendagens, não pelo conteúdo. Eu sou o mais vendido da literatura juvenil. Ele é o mais vendido do gênero auto-ajuda. Ele trilha o caminho do esotérico, e eu sou o oposto: gosto de fantasia, mas de esoterismo, não.
Por que seus livros agradam tanto?
Porque tratam de emoções humanas. Shakespeare escrevia sobre amor, ódio, cobiça, ou seja, sentimentos que jamais mudarão. Por isso, suas obras são encenadas até hoje. Se o jovem lê sobre pessoas vibrando, sofrendo, sonhando e se emocionando, tal como ele, é muito provável que irá gostar da história. É o que acontece nos meus livros.
O fato de seus livros serem adotados por escolas determina a escolha dos temas das obras?
Não existe um tema infantil, jovem ou adulto. Os fatos existem para serem vistos por quem estiver ali. O espectador pode ter seis meses, dez, trinta ou oitenta anos. O que varia é o ângulo pelo qual ele olha aquele fato. Para se escrever para determinado público, o segredo é narrar o fato a partir do ponto de vista do leitor que se quer atingir.
Escrever para crianças e adolescentes requer um estudo prévio da realidade desses leitores?
Não necessariamente. Só depois do sucesso de A Droga da Obediência passei realmente a me preocupar com a realidade da criança e do adolescente. E comecei, enfim, a ler tudo sobre eles. Acabei me tornando um especialista e hoje dou palestras no Brasil inteiro, falando das fases do desenvolvimento do ser humano. Mas não é isso que faz de mim um escritor. Caso constrário, todo psicólogo de crianças e todo professor seriam escritores infantis.
É mais difícil escrever para crianças?
De certa forma, sim, pois requer muita observação e vivência. O escritor tenta refletir as emoções humanas que aprendeu ao longo da vida, por isso é pouco comum que pessoas muito jovens sejam bons escritores. Não escrevo pensando no menino de dez anos que fui. Na época, estava crescendo, não observei o suficiente. Eu digo que o ideal é ter acima de 30 anos para começar a escrever para crianças, como Monteiro Lobato, Ruth Rocha e eu mesmo.
Qual o retorno que o senhor tem de seus leitores?
Antes do computador, eu recebia milhares de cartas. Respondia a todas na medida do possível. Agora, o tipo de contato mudou: todos os dias, recebo uns dez e-mails de leitores, geralmente de 12 a 15 anos, elogiando e pedindo mais histórias. Mas também tenho leitor com filho grande, outros que se tornaram meus amigos. São como filhos adotivos. Claro que a gente não deve se iludir com os elogios, porque quem não gosta do livro não perde tempo escrevendo.
Em um país com tantos analfabetos, o senhor chegou a vender 21 milhões de exemplares. Como explicar?
Não é bem assim. Na realidade, existem dois mercados: o mercado das escolas e o mercado do governo. O governo compra muitos livros para repassar às instituições públicas. Dos 21 milhões que vendi, cerca de 10 milhões foram graças a essas compras. Então, o que conta para mim são os outros 11 milhões, efetivamente escolhidos, seja pelos leitores, seja pelos professores.
Como se manter tanto tempo no mercado?
É um fenômeno bem brasileiro, que começou na década de 70. O Ministério da Educação aprovou uma lei que recomendava para crianças e jovens do ensino fundamental literatura produzida no Brasil - além do livro didático. Como não existia uma produção regular, as editoras começaram a correr atrás, produzindo títulos e oferecendo-os às escolas. Então, criou-se o costume da adoção das obras por escolas, que pegou. Em outros países, não existe isso. Lá, as famílias compram os livros para seus filhos. Aqui, os pais não são leitores. Então, ou as professoras fazem esse trabalho, ou as crianças nunca serão apresentadas aos livros.
O senhor ficou rico vendendo livros?
Antes, com a inflação, era infernal. Quando comecei a escrever, recebia muito tempo depois da venda, então não ganhava nada, recebia tostões. Depois do Plano Real, quando a moeda se estabilizou, passei a receber o valor equivalente à venda. Com o que recebo hoje dá para viver bem, sim.
O senhor tem algum projeto novo no momento?
Sempre tenho ideias, mas não sei se consigo fazer um livro que supere os anteriores. Acho que, provavelmente, não, e nem sei se ainda terei tempo de escrever a próxima novidade. Espero que os leitores jovens encontrem novidades nos meus livros já consagrados.
(entrevista concedida à Revista Veja)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Xinran Xue - A Boa Mulher da China


A escritora que criou um programa de rádio para mostrar os problemas das mulheres chinesas diz que o mundo critica seu país sem levar em conta suas raízes culturais.


Por quase uma década, Xinran Xue, hoje com 51 anos, recebeu mais de uma centena de cartas tristes por dia. Apresentadora de um programa de rádio voltado para mulheres, ela tornou-se depositária de ouvintes que lhe confiaram suas pequenas e grandes tragédias – abafadas, quando não provocadas, pelos anos de totalitarismo comunista. Algumas dessas experiências, Xinran havia sofrido na própria pele: seus pais foram presos durante a Revolução Cultural e ela passou a infância num quartel da Guarda Vermelha. Em 2002, publicou seu primeiro livro: As Boas Mulheres da China (lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras), que reúne histórias que não puderam ir ao ar e outras que ela colheu em entrevistas – sempre feitas com uma única unha pintada de vermelho. "As chinesas não gostam de falar de sua vida. Mas são curiosas, e a unha vermelha sempre inicia uma conversa", explica. De passagem pelo Brasil, Xinran falou a VEJA.


Para escrever seu mais recente livro, Testemunhas da China, a senhora esteve diversas vezes na província de Xinjiang, onde quase 200 pessoas morreram nas últimas semanas em decorrência de conflitos étnicos. Como é a convivência entre os han (etnia majoritária na China) e os uigures (etnia majoritária em Xinjiang)?

Atualmente, há muitos casais han-uigur, como resultado da política de governo que estimulou a migração de chineses han para a região. Mas as duas etnias são culturalmente muito diferentes. Os uigures sentem-se mais identificados com os muçulmanos dos países vizinhos do que com o resto da China. Têm uma mentalidade tribal, enquanto os han estão mais conectados à família. Honestamente, nós não os entendemos muito bem. Acho que nunca tentamos. É um pouco parecido com a maneira como o Ocidente enxerga o Oriente.Não seria a maneira como o Ocidente enxerga a China?

Não estou falando só da China. Acho que há desconhecimento também em relação ao Japão, à Coreia do Sul, a Cingapura, à Malásia – lugares que têm as mesmas raízes culturais que a China. Ainda que em países como o Japão e a Coreia do Sul você enxergue um verniz ocidental, se você entrar nas casas dos japoneses e dos coreanos, verá que não existe igualdade de direitos entre homens e mulheres e que eles não assimilaram preceitos democráticos. Pergunte a um japonês se é possível questionar o imperador. Pergunte a um sul-coreano se uma filha pode contrariar o pai. Pergunte em Cingapura se alguém pode contestar o governo. Também no regime chinês, há aspectos que não são políticos, mas culturais.
Mas em nenhum desses países tais comportamentos implicam as consequências que têm na China. Concordo. Não existe liberdade de religião na China, não existe liberdade de expressão, não existe liberdade de imprensa. Nosso sistema jurídico está longe de ser independente e os direitos individuais mais básicos são desrespeitados. Mas não se pode esquecer que a China perdeu 100 anos por causa da guerra civil e do ideário comunista. Não podemos simplificar a história. Quando vemos uma árvore cujas folhas estão machucadas e cujos galhos estão doentes, não basta dizer: vamos limpar as folhas e os galhos. É preciso lembrar que essa árvore tem raízes, ainda que não possamos vê-las. É preciso tempo para que as coisas mudem.
A senhora quer dizer que é cedo demais para que a democracia chegue à China?

Vou repetir uma lição que recebi de uma camponesa de Hunan, região onde nasceu Mao Tsé-tung. Entrevistei-a em 1995, quando já era jornalista, achava que sabia tudo, mas na verdade era ainda muito ingênua. A mulher trabalhava num campo de arroz. Perguntei a ela o que escolheria se eu lhe oferecesse três coisas: liberdade e democracia; marido e filhos; ou terra e dinheiro. Ela me olhou como quem diz: "Ah, você está tentando me enganar!". Respondeu que terra e dinheiro pertencem aos homens, não às mulheres. Sobre marido e filhos, disse: "Marido é quem manda em tudo e os filhos são a minha rotina", querendo dizer que aquilo ela já tinha. Então, perguntou: "Mas quanto é a garrafa de liberdade?". Eu fiquei atônita: "Como assim?". Ela repetiu: "Quanto custa essa garrafa de óleo que você quer vender?". Foi aí que eu entendi: em chinês, a pronúncia da palavra óleo (you) é muito parecida com a de liberdade (ziyou). Ela achou que eu estava querendo lhe vender óleo.
Quando ela entendeu que a senhora se referia a liberdade, o que achou da oferta?

Mas ela não entendia essa palavra! Eu tive de explicar-lhe o que era e o fiz da forma que considerei mais simples. Disse algo como: "Bem, liberdade é você ter o direito de contrariar o seu marido quando você acha que ele fez algo errado. Liberdade é você ter o direito de dizer: ‘Eu quero algo para mim, não para o meu marido ou para os meus filhos – um vestido bonito, uma comida gostosa ou um dia de descanso’". Achei que, colocando desse modo, ela fosse entender. Em vez disso, olhou para mim e respondeu: "Que mulher tola você é! Isso não existe". Eu falei sobre liberdade, que é uma palavra muito mais fácil. Imagine se eu tivesse falado sobre democracia...
Dito assim, parece que a democracia é algo que o Ocidente tenta impingir aos chineses, sem que eles queiram
. Não, não. Eu concordo totalmente com a ideia ocidental de liberdade e democracia e sei que nós precisamos disso. Mas a questão é que há trinta anos esse conceito não existia na China. Os atuais governantes não foram educados à luz desse conceito. O mesmo se pode dizer dos professores. É ainda muito recente a geração de professores que aprendeu inglês e, portanto, tem acesso a pontos de vista do Ocidente. Acredito que, às vezes, os ocidentais cometem o mesmo erro que os governantes chineses, que pensam que basta modernizar as ruas para modernizar o país.
A senhora mora desde 1997 na Inglaterra. Não tem problemas para entrar na China? Tenho muitos problemas. Recentemente, eles deram um visto de dois anos a meu marido, que é inglês, e negaram o visto para mim. Isso me doeu muito. Quando finalmente consegui o visto, em novembro do ano passado, uma oficial chinesa tentou me barrar na alfândega. Ela abriu meu passaporte e disse: "Por que você é contra a China? Eu vi você na BBC, e a BBC odeia a China". Eu lhe perguntei se havia entendido o que eu dissera na TV e ela respondeu que isso não importava: o que importava é que eu não deveria ter falado com pessoas que odeiam a China.
A senhora resolveu deixar seu país num momento em que apresentava um programa de rádio de enorme sucesso, no qual era permitido que centenas de chinesas falassem pela primeira vez de seus problemas. O que motivou a decisão? Ouvir aquelas mulheres e acompanhar o desenrolar de suas histórias, muitas vezes trágico, deixou-me emocionalmente exaurida. Fiquei doente, tinha de tomar remédios para dormir. Os telefonemas, os relatos de abusos, os suicídios, as cartas de suicídio que elas deixavam para mim... Eu me sentia tão impotente! Ainda tenho aquelas vozes na minha cabeça. Aqui no Brasil, encenaram capítulos do meu livro As Boas Mulheres da China. Apesar de as atrizes falarem em português, uma língua que não entendo, o que eu ouvia eram as mulheres chinesas chorando. Isso me aniquila. Sei que é porque eu misturo o sofrimento delas com a minha própria história. Diante da encenação, não consegui me controlar. Normalmente, consigo – ao menos durante o dia. Mas, à noite, os pesadelos voltam.
Que tipo de pesadelo a atormenta?
São tantos... Durante a Revolução Cultural, meus pais foram presos, acusados de ser capitalistas porque haviam trabalhado com estrangeiros e falavam inglês. Os guardas vermelhos entraram em casa e fizeram uma fogueira com tudo o que diziam ser "reacionário" ou "burguês": livros do meu pai, meus brinquedos e até minhas tranças. Eu usava duas tranças, amarradas com fitas. A guarda gritou que era um penteado burguês. Cortou-as e jogou-as no fogo também. Depois disso, fui levada, com meu irmão mais novo, para um quartel da Guarda Vermelha. Vivi lá por seis anos e meio. Como nossos pais eram considerados reacionários, éramos chamados de "crianças negras" e não podíamos brincar com as outras. Dormíamos no chão. Muitas noites, os guardas vinham, no escuro, pegavam uma criança e a levavam para o quarto ao lado. Era a hora dos abusos, dos espancamentos... Eu ouvia o choro e os gritos e ficava tão assustada que meu corpo todo tremia. A cada noite eu achava que seria a minha vez. Era aterrorizante. Acho que escapei porque era muito pequena. Até hoje, quando meu marido está viajando, não durmo sem colocar minha bolsa, minhas chaves, tíquetes de avião, qualquer coisa assim, ao lado da cama. Faço isso para não entrar em pânico quando acordar no meio da noite – para lembrar que não estou mais lá e quem eu sou agora. Não consigo me livrar disso. Procurei psicólogos, mas não funcionou. Acho que eles eram ocidentais demais para me entender.
O que, por exemplo, eles não entendiam?
Bem, faz parte do tratamento você falar tudo. E isso eu ainda não consigo. Nem ao meu filho contei tudo o que aconteceu comigo durante a Revolução Cultural.
Por quê? Porque acho que, se eu contar, não terei mais condição de continuar vivendo.Seu irmão passou pela mesma experiência na infância. Como ele vive hoje? Sinto que ele desistiu de tudo. Vive em Pequim, não tem confiança nele, não faz nada. Sei que sofre muito, embora não fale. Nunca mais o vi chorar desde aquele episódio do frango. (Ela relata a história em seu primeiro livro: o irmão tinha pouco mais de 2 anos quando, por ocasião de uma celebração nacional, serviram frango assado no quartel da Guarda Vermelha em que ambos viviam. Ao ver os outros comendo, o irmão começou a chorar, gritando que também queria. Alguém, furtivamente, deu-lhe um pedaço, mas um guarda viu a cena, arrancou a carne das suas mãos, atirou-a ao chão e pisoteou-a. Gritou: "Filhotes de cachorros imperialistas não comem frango!")
Seus pais já leram seus livros? Não. E minha mãe nunca perguntou o que aconteceu comigo durante esse período em que ficamos separadas. Não tem coragem, e eu também não tenho. Em 2004, sentamos uma diante da outra durante horas, mas não conseguimos falar sobre isso. Sei que esse silêncio se repete em muitas famílias. E é um dos motivos pelos quais muitos jovens chineses não sabem sequer o que foi a Revolução Cultural.
O regime comunista de Mao Tsé-tung teve efeitos devastadores na vida de muitas pessoas, como a senhora. E na China, que marcas ele deixou? Acho que a China, hoje, é como um quadro de Picasso: tem nariz, olhos, boca, mas tudo está fora do lugar. Ficou isolada por tanto tempo e, agora, tudo está surgindo de uma vez. Talvez uma resposta melhor seja esta: antes dos anos 80, a China era um garoto sujo e esfomeado. Nunca teve a chance de tomar um banho quente, de vestir uma roupa limpa, de forrar o estômago. Se você oferece a esse menino, em uma mão, um pão duro e velho, e na outra mão, um cardápio com nomes de pratos desconhecidos e maravilhosos, qual dos dois ele vai preferir?
O primeiro? Certamente. Ele está faminto! O cardápio pode ter comidas deliciosas, mas ele não entende o que está escrito lá e não consegue esperar para que aquele papel se transforme em comida. E não adianta alguém dizer que ele tem de comer um prato do cardápio porque é melhor para ele. Antes de dizer isso, as pessoas têm de entender a urgência dos chineses.


(Entrevista concedida à Revista Veja(Tais Oyama) Ed. 2122 - de 22 de julho de 2009)

domingo, 19 de julho de 2009

Varredor recebe diploma da U. de Cambridge( história bonita-10)


O varredor de rua inglês Allan Brigham recebeu neste sábado um diploma honorário da Universidade de Cambridge, uma das mais prestigiosas da Grã-Bretanha.
Brigham, que há 30 anos limpa as ruas e parques de Cambridge, recebeu a homenagem pelos serviços prestados à comunidade em seu outro trabalho, afirma a universidade.
Além de varrer as ruas, Brigham é guia de turismo, liderando grupos e contando histórias sobre prédios e parques de Cambridge que, de outro modo, poderiam passar despercebidas.
Entre outros homenageados com um diploma honorário de Cambridge estão o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, o fundador da Microsoft Bill Gates e o bispo sul-africano Desmond Tutu.
Brigham explicou que sempre se interessou mais por história das sociedades, paisagens e cidades do que por reis, rainhas e chefes de governo.
Apesar da homenagem, ele diz que estará de volta varrendo as ruas na segunda-feira, às cinco da manhã.
A melhor parte do dia, diz ele, é coletar o lixo nos parques e espaços verdes de Cambridge.
(Fonte: BBC Brasil - 19/07/2009)

sábado, 18 de julho de 2009

Projeto Livro Sem Fronteiras - Valença - RJ

Estou muito feliz em postar aqui o Projeto Livro Sem Fronteiras. Uma ideia ousada, mas bem organizada, com bons apoios e patrocínios, e cujo objetivo é também ousado porém possível. Transformar a simpática cidade de Valença no Rio de Janeiro em cidade da leitura. O jovem casal Fernando e Juliana do Rango do Compadre, vem trabalhando incansavelmente desde 2007 para incentivar a leitura naquela cidade. Com o apoio de todos os amigos, simpatizantes, educadores, blogueiros e orkuteiros breve nas praças da cidade de Valença - RJ qualquer pessoa vai poder levar para casa, gratuitamente e sem burocracia um ou vários livros para ler.

Quem quiser cooperar:
fernando.s.moncao@gmail.com
juliana.livrosemfronteiras@gmail.com

Quem quiser ver o projeto em vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=JMKYGl52VRs

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Livros por encomenda

Uma livraria em Londres está oferecendo aos clientes um serviço de impressão de livros sob encomenda.

Obras que já estão esgotadas ou que não estão disponíveis na loja no momento podem ser impressas na hora em uma Máquina Espressa de Livros.

Além disse, o cliente também pode ter seu próprio trabalho impresso.

O serviço ainda está em fase experimental. Se der certo, a rede de livrarias pretende instalar a máquina em outras lojas menores, que mesmo com pouco estoque teriam condições de vender mais livros.



http://www.bbc.co.uk/portuguese/multimedia/2009/07/090717_livrosondemand_video.shtml

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Trilogia: entrevista com Deus, Marcos Losekann, agradável surpresa



Marcos Losekann surpreendeu lançando-se na ficção. O jornalista gaucho tomou como mote, digamos assim, três fatos da história do Brasil e fez uma trilogia agradável de ler. O Dossiê Iscariotes,O Segredo do Salão Verde, Entre a Cruz e a Suástica que trazem respectivamente o assassinato de Chico Mendes, o impeachement de Collor e o assassinato de P.C Farias, prendem o leitor que da primeira à última página de cada volume não desvenda o mistério em que se mete o personagem principal o jornalista A.G.V; Entrevista com Deus é uma história completa que pode ser lida fora de ordem ou mesmo isoladamente. No programa do Jô Soares Marcos Losekann disse que escreveu os três volumes paralelamente quando estava no Líbano, ocasião em que foi sequestrado pelo Hesbollah.
(http://www.youtube.com/watch?v=SEoUZyWQfiM)

O Dossiê Iscariotes -Ed.Planeta do Brasil R$49,90(Saraiva)
O Segredo do Salão Verde - Ed.Planeta Brasil 44,90(Saraiva)
Entre a Cruz e a Suástica
- Ed.Planeta do Brasil R$39,90(Saraiva)

Do mesmo autor: O Ronco da Pororoca - Ed.Senac SP R$53,00 (Saraiva)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Reinaldo Azevedo: Chico Buarque. Ou: Chute Deus,Mas Preserve o Chico



Lá vou eu dedicar um pouquinho das minhas férias a Chico Buarque
Em 1991, fiz uma resenha de Estorvo, o primeiro romance de Thico. Quase ao mesmo tempo, Bruna Lombardi lançara Filmes Proibidos. Pediram-me uma resenha de ambos. Lembro que fiz uma piada mais ou menos assim: se é pelos belos olhos, o livro de Bruna é - e é mesmo! - muito melhor. Mas ela foi recebida com o ceticismo que se pode imaginar; ele, com o embevecimento costumeiro e a reverência injustificada da crítica. Estorvo é um livro chato e pretensioso. Desisti do “Chico-enquanto-romancista”. Cai em tentação, anos mais tarde, com Budapeste, ainda mais festejado. E ainda mais chato e mais pretensioso. E fiquei e ficarei nesses dois. Chico não sabe o que é romance — ou, mais amplamente, prosa de ficção. Não como autor ao menos. Ignora as ferramentas para construir uma personagem e tenta compensar a falta de carpintaria com uma linguagem supostamente densa, enfileirando metáforas que conferem à narrativa cediça uma aparência de profundidade filosófica, misturando doses de melancolia de apartamento, pessimismo blasé e desconstrução de moderno romance francês. A parada é indigesta. Sigamos. E vamos começar a desmisturar as coisas para desmitistificá-las.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Britânicos Disponibilizam Conhecimento


 A segunda maior biblioteca do mundo: The British Library, disponibiliza seu acerto para o mundo pela internet.

A biblioteca de Londres, só menor que a do congresso americano, possui 25 milhões de livros impressos, 4 milhões de mapas, 625 km de estantes e tudo isso está ao alcance de todos agora através de seu site 




Nota: a maior biblioteca do mundo é a do Congresso Americano e fica em Washigton.

quarta-feira, 8 de julho de 2009


São Paulo
Livros com palavrões serão recolhido

A Secretaria de Educação de São Paulo determinou o recolhimento de 1.216 exemplares de um livro paradidático distribuído em escolas estaduais para apoiar o programa "Ler e Escrever", para a alfabetização infantil. A publicação "Dez na área, um na banheira e ninguém no gol", livro composto por onze histórias em quadrinhos sobre futebol, continha frases de conteúdo sexual e de duplo sentido, além de assuntos não apropriados para os alunos de nove anos, faixa para qual o livro foi indicado.
De acordo com a secretaria, este é apenas um dos 818 títulos comprados de 80 editoras para apoiar o programa e muitos dos livros com problemas nem chegaram às crianças. O governador José Serra afirmou nesta terça-feira que vai punir os responsáveis pela distribuição. "Abrimos sindicância, os responsáveis cometeram algo muito grave", disse Serra.
Em nota, a Secretaria da Educação afirmou que a escolha do livro paradidático foi um erro e que a falha foi apontada pelos coordenadores pedagógicos do programa de leitura do governo na semana passada, quando os títulos chegaram às escolas estaduais.
(Revista Veja on line)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Descaso total

Montanha de livros no lixo

Milhares de exemplares novos comprados pelo MEC e repassados para Prefeitura de Vitória de Santo Antão, alguns lacrados, vão virar material reciclável

Margarida Azevedomazevedo@jc.com.br

Em um País que tem 10% da população com mais de 15 anos analfabeta, que o tempo médio de estudos é somente de 7,3 anos e que o número de livros lidos anualmente por pessoa não chega a dois, causou indignação a cena de desperdício do dinheiro público flagrada, ontem de manhã, na Avenida Norte, bairro de Santo Amaro, área central do Recife. Milhares de livros didáticos novos comprados pelo Ministério da Educação (MEC) e repassados para a prefeitura de Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata pernambucana, foram parar no lixo. Em vez de serem usados por alunos e professores, os exemplares, muitos deles ainda com a embalagem lacrada, vão virar papel reciclado, uma vez que quem os comprou foi um catador de material reciclável.
A montanha de livros chamou a atenção de quem passou pelo local. Havia publicações de matemática, português, história, geografia, estudos sociais e ciências. A maioria era destinada a séries do ensino fundamental. Mas também havia títulos de alfabetização de turmas de Educação de Jovens e Adultos. (EJA). O catador, que não quis dizer o nome, contou que comprou os exemplares do Hospital de Câncer de Pernambuco. “Disseram que as palavras que tinham aqui nesses livros não servem mais. Que está tudo velho”, afirmou. Sem nenhum constrangimento, enquanto conversava com a reportagem do JC, ele arrancava as capas dos livros, que não servem para reciclagem, e guardava o miolo para ser pesado depois. “Tem mais de 1.300 quilos de papel”, contou.
Em vários pacotes havia uma etiqueta informando o destinatário. Pelo menos cinco colégios da rede municipal de Vitória de Santo Antão deveriam ter recebido as publicações, segundo essas etiquetas: Escola Municipal Nossa Senhora das Graças (localizada no Engenho Marmajuba), Escola Municipal José Marinho Alvares (Sítio Urubas), Escola Municipal Santa Terezinha (Engenho Ribeirão), Caic Diogo de Braga (Águas Brancas) e Grupo Escolar Municipal Mariana Amália. Em todos os livros, havia o carimbo do Plano Nacional de Desenvolvimento da Educação (PNLD), programa do MEC que distribui material didático para as escolas públicas. Referiam-se aos anos de 1998 a 2006.
O Hospital de Câncer de Pernambuco informou que recebeu, ontem, a doação de 4.053 livros da Secretaria de Educação de Vitória. No ofício em que consta os títulos e a quantidade doada, a secretaria explica que os livros serão repassados à unidade de saúde porque “encontram-se inutilizados por terem seu PNLD vencido”. O hospital vendeu os exemplares para serem reciclados por entender que, por isso, não teriam como ser aproveitados.

(Matéria de Margarida Azevedo, publicada no Jornal do Commércio (PE) em 1 de julho de 2009)