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Cemitério Romano, Luciano Maia

Censurados têm sido os romanos
Via Ápia - Tripadvisor

por alguns estudiosos dos tempos mais
                                                 recentes
porque uma metafísica não teriam criado
com outras gloriosas estirpes,
mas apenas aquedutos,anfiteatros,foros,
                                                   estradas,
a Cidade Eterna, castros e fortificações de
                                                    fronteira.
Censurados têm sido os romanos
porque apenas teriam construído casas com
                 átrios que recebiam a luz do alto
e tinham um aviso sobre a fachada: cave canem.

Se te for dado chegar um dia a Roma
e adentrar seus subúrbios, amigo,
te perderes pela Via Ápia,
compreenderás então quão injusta é a balança
com que os homens e os povos avaliam
as virtudes de um e de outro, e o coração.
Pois verás uma Estrada,
que se prolonga avançando além da paisagem,
pedra com pedra harmonizada,
uma estrada flanqueada, à esquerda e à direita
por sarcófagos, umas funerárias, mausoléus,
conservando cinzas, ossadas, albergando.

Assim concebiam os romanos a Estrada,
                           cada limite enfrentando
no grande domínio da vida, avançando
                                  através da morte,
semeada em filas
de ambas as partes. Aqueles que à sombra
                                                 dos ciprestes
nos sarcófagos dormem, ouvem o rumor
de escudos e de lanças, o marchar das coortes,

as rodas dos carros, o nitrido dos
                          cavalos. Tudo isso,
tal como existiu, hoje não mais existe.
Mas os mortos, os mais antigos mortos,
                                         escutam ainda,
pela estrada, o que soa sobre a terra.

Assim imaginavam os romanos o cemitério:
uma estrada flanqueada por duas filas
                                         de silêncio.
Esta é a metafísica dos romanos; uma
                                                  Estrada.
Uma estrada que avança através dos 
                       mortos, não dos vivos.

Maia, Luciano, O Espaço Miorítico, Fortaleza - 2014, págs.105-106

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