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Natal, Menoti del Picchia


      Já o burburinho ruma para a manjedoura. A estrela –seria, este ano, aquele enigmático cometa com nome japonês? - fulge no céu.
Bate um pastor na porta da choça do compadre: - “Olá, Esdras! Acorda, camarada! Vamos para Belém!”
As ovelhas balam. Toda a terra é um advento. Até flores estranhas rebentam nos cálices e as corolas atônitas perscrutam na noite um milagre. Os lírios do vale já devassaram o mistério e murmuram com seus lábios imaculados:
      -Vai nascer Deus!
Aí está. Vai nascer Deus. “Fenômeno de rotina” – dirá um político despistando um repórter. “Nada demais, senhor jornalista. Todos os anos nasce Deus.” O repórter, apressado e superficial, registra a declaração numa caderneta e telefona para o redator de plantão. “O Doutor Chuvisco disse que não há novidade: o nascimento de Deus é um fenômeno de rotina”. O redator aceita a explicação bocejando e gosta da palavra “rotina” aplicada ao mistério do Natal, porque a palavra está na moda. E ninguém dá pela transcendência do prodígio.
     Meu vizinho, Felesbino de Freitas Trancoso, excelente pai de família, saiu cedo para a fila das castanhas. D. Ordália Lopes, que é sentimental e fidelíssima, mesmo porque pesa perto de seis arrobas, comprou uma gravata de seda italiana e uns suspensórios de matéria plástica para presentear o marido. Tenho uma sensível admiradora que me mandou um cromo – sempre fui louco por cromos! – representando o presepe.  Ali tudo é lindo: Jesus, tenro e sorridente, de cabelo cacheadinho e grandes olhos azuis abertos, como se um pimpolho que nasce, geralmente tão cheio de rugas e tão feio, pudesse ter aquele tamanho e aquela cabeleira de ouro... São José é um carpinteiro alinhado, de túnica que talvez tenha saído nesse instante da arca. Maria Santíssima é um amor.
     - No Natal do ano passado – diz me a D.Celestina – meu marido me deu uma geladeira. Fico pensando dentro da noite mágica: “ No Natal do ano passado...’”
Há perfumes no ar que vêm dos cedrinhos do Jardim América e, por causa das árvores de Natal, a gente liga o cheiro da resina ao Oriente místico, à chegada daquela divina mãe grávida, morta de canseira na sua marcha ao lado do velho e santo marido, até a cocheira que serviu de berço à salvação do mundo. A imaginação trabalha. Percebe que nos palácios distantes, acordados pelo fulgor da estrela, os reis poderosos preparam suas caravanas de mirra, ouro e incenso, para ver a criança estranha que uma vaca aquece com seu hálito e um burrinho manso humaniza com a bondade que irradia de seus olhos...
     -“Jornal da noite! “Jornal da noite!” – berra um garoto sobraçando os últimos vespertinos. Compro uma folha. Não preciso ler pois a manchete metralha meus olhos: “Dez mil árabes e cinco mil judeus em luta mortal na Palestina. Milhares de mortos e feridos...”
Os sinos de Natal bimbalham. “Glória a Deus na altura e paz na terra aos homens de boa vontade.”
     Nasceu um Deus! Este ano nasceu outra vez um Deus!
     E me ocorre, fulmínea, a interrogação trágica: - mas por que nasce um Deus todos os anos?
Um arrepio me percorre o corpo. O calendário salta-me à memória pontilhado de guerras,brigas,roubos,bombas atômicas,crises, econômicas, manobras políticas ditadas pela cobiça e ambição. No meio dessas memórias os sinos bimbalham. “Paz” “Paz” – brada Cristo, o Cristo que vem nascendo todos os 25 de dezembro há 1947 anos!
     Então, percebo a razão do Natal! Dada a cruel desmemória dos homens é preciso que todos os anos nasça um Deus!

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