Pensa na glória! Arfa-lhe o peito, opresso, — O pensamento é uma locomotiva — Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Que importa que, contra ele, horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!… E só, no quadrilátero da alcova, Vem-lhe à imaginação este soneto: — “A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito… Escrevia Mais por impulso de idiossincrasia Do que por uma propulsão consciente. Entendi, depois disso, que devia, Como Vulcano, sobre a forja ardente Da Ilha de Lemnos, trabalhar contente, Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim os monstros zombeiteiros. Trabalharei assim dias inteiros, Sem ter uma alma só que me idolatre… Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora, trágico e maldito, Como Camões morrendo sobre um catre!” Nisto, abre, em ânsias, a tumbal janela E diz, olhando o céu que além se expande: “ — A maldade do mundo é muito grande, Mas meu orgulho inda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coor...
Foi na estação das águas, ao repousar contra um tronco, que ela conheceu aquele boa constrictor. Era discreto, persuasivo e muito sedutor. Logo tornaram-se amantes. Todas as tardes, quando langor e achaques prendiam os hóspedes em seus quartos, ela ia encontrá-lo no canto mais sombrio do parque. E o mormaço, o beijo bífido, as espirais amorosas que mal permitiam respirar levava-na a delícias nunca pressentidas. A hora da partida forçou a constatação: já não podia abrir mão de prazer tão intenso. Enrolado o boa numa valise, viajou com ele até sua casa, e o instalou no banheiro. Ali ele poderia fugir para o terraço em caso de perigo, ou esquivar-se atrás da banheira. Ali poderiam se amar livre de riscos, sem observância de tempo, trancada a porta da curiosidade. Nunca antes tomara ela tanto banho. Queixava-se em voz alta de calor, sujeira, cansaço. E, controlando ...