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Postagens

Otávio, conto de Nadezhda Bezerra

      Moravam juntos na época. Ele, meus pais, grávidos de mim, e meus tios, grávidos de minha prima.      Um dia  saíram pra trabalhar e voltaram com Otávio. Era novinho.      Já é um treino pra vocês, eles diziam. Elas, ameninadas, davam de ombros e jogavam bola na calçada com barrigões prestes a parir.  Duas meninas esperando duas meninas. Mas só souberam depois de nascidas.      Otávio tomava mamadeira ainda. Segundo eles, não dava trabalho. Segundo elas, dava mais trabalho que eles.       Outro dia virou assunto na cozinha de casa com a visita dos meus tios. Chamada de vídeo com meu pai pra saber o que aconteceu com Otávio.  Depois com minha mãe, pra cruzar as versões.  Nenhuma conclusão satisfatória.       Eu falei que Otávio é um bode? Pois é. Em: O Lugar das coisas Possíveis, Nadezhda Bezerra. Ed. Opera, 2024, pág.13
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Motivos, poema de Letícia Letrux

foi sem querer: o pulo que colocou água dentro do teu ouvidoo quiabo no pote que ficou escondido num canto da geladeira por quase três meses a conta de gás caída atrás do móvel da sala minha língua que deu nos dentes na mesa do bar sobre seu defeito mais secreto foi sem querer: (eu chorando no carro no dia do meu aniversário procurando uma vaga há quase uma hora janeiro inferno caos eu só queria dar um mergulho mas não tinha vaga não tinha vaga estava envelhecendo e não tinha uma vaga white people problems você chocado com meu descontrole você me criticando por tornar um passeio tão maravilhoso num caos eu chorando passando marcha e nada de vaga resolvo desistir leblon ipanema copacabana arrisco ir pra urca invento uma vaga já esperando a multa não estamos nos falando parece que você esqueceu que é meu aniversário e que eu posso parece que eu esqueci que meu aniversário não me possibilita de nada o mar está uma lixeira estou tão obsediada que entro assim mesmo afundo no raso e entre de...

O Mar dos Meus Olhos, poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos Não pela cor Mas pela vastidão da alma E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos Ficam para além do tempo Como se a maré nunca as levasse Da praia onde foram felizes Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens… Há mulheres que são maré em noites de tardes… e calma

Cavalo Das Nuvens, conto de Cícero Belmar

Para Silvinha       O céu de minha infancia era cheio de bichos de nuvem. Olhávamos para ele com o mesmo olhar de quem gosta de cinema. Havia uma grama verdinha, ao lado do rio; e nós dois, eu e minha irmã, deitados de papo pro ar, olhávamos as imagens efêmeras.      As nuvens passando. Não ficou vestígio, só a memória do que vimos.      - Está vendo aquela? Um carneiro!       Ríamos.      Agora é um coelho       As nuvens são como águas do rio. Passam       As águas do rio a gente sabe onde vão dar.      Vento fresco da manhã.      - Eu acho que as nuvens ficam nervosas com o vento. Ficam mais apressadas.      O vento, você sabe o quê? É o cavalo das nuvens. Em: O Livro das Personagens Esquecidas, Cícero Belmar, ed. CEPE, 2022, pág.89

Apenas Um Cisco no Olho, crônica de Clarice Lispector

E de repente aquela dor intolerável no olho esquerdo, este lacrimejando, e o mundo se tornando turvo. E torto: pois fechando um olho, o outro automaticamente se entrefecha. Quatro vezes no decorrer de menos de um ano um objeto estranho agrediu meu olho esquerdo: duas vezes ciscos não identificados, uma vez um grão de areia, outra um cílio. Das quatro vezes tive que procurar um oftalmologista de plantão. Da última vez que perguntei àquele que realiza a sua vocação através de cuidar por assim dizer de nossa visão do mundo: por que sempre o olho esquerdo? É simples coincidência?   Ele respondeu que não. Que, por mais normal que seja uma vista, um dos olhos vê mais que o outro e por isso é mais sensível. Chamou-o de olho diretor. E este, por ser mais sensível, prende o corpo estranho, não o expulsa.   Quer dizer que o melhor olho é aquele que é a um só tempo mais poderoso e mais frágil, atrai problemas que, longe de serem imaginários, não poderiam ser mais reais que a ...

Nada Mais, conto de Ednice Peixoto ( Novos Talentos )

O primeiro objeto que Rita encontrou foi um par de brincos sob o travesseiro. Duas argolas prateadas. Não se assustou. Certamente Mariana, sua sobrinha de dez anos, tinha deixado os brincos ali na hora de brincar de gente grande. Colocou-os na estante para devolver, não sem antes fazer Mariana entender que não apressasse o tempo da infância. Domingo na hora de ir à missa, ao procurar o rosário, encontrou na gaveta um sutiã vermelho um número menor que o seu. Do sutiã vinha um perfume de sândalo misturado a cheiro de bebida que uma mancha bem no peito não deixava dúvida. Chateada, porque aquela coisa escarlate deveria ser de Rosana, a irmã destrambelhada que tem, jogou o sutiã sobre o cabide para entregar depois. Ao acordar naquela segunda-feira, a cabeça lhe dói como bebedeira de véspera. Mas nada bebera além das duas taças de vinho, quantidade mínima para provocar tamanho enfado. A dor, a água fria do banho alivia o suficiente para se apresentar à mesa, onde todos se encontram, esmiu...

Minhas Leituras de 2025

Três escritoras brasileiras que me deram orgulho. Seus  livros  são: Meu Nome É Meu , Natascha Duarte  São contos inteligentes e de fácil leitura. Natascha tem uma escrita leve e muito agradável. Lançado pela editora Urutau, pode ser adquirido clicando aqui Siga Natascha Duarte no Intagram O Lugar Das Coisas Possíveis , Nadezhda Bezerra  Minha segunda leitura dessa autora formidável.  O Lugar das Coisas Possíveis é um livro de crônicas cotidianas, doces e bem escritas. O livro pode ser adquirido pela Editora Ópera Siga a autora no Instagram Vidas de Algodão , Ednice Peixoto Primeiro livro dessa formidável escritora potiguar, lançado em dezembro em Natal. São 49 contos bem trabalhados. Uns são realistas outros nem tanto. Todos, porém,  sem finais previsíveis. Leitura muito agradável e que eu recomendo. Siga a autora no Instagram O Lugar das Coisas Possíveis,Nadezhda Bezerra Vidas de Algodão, Ednice Peixoto