Padeci muita caçoada em menino, pela mania de ficar olhando o céu. Companheiros de escola chamavam-me de leso, as caboclas de casa me diziam palerma. Até uma tia velha deu de implicar comigo. As caçoadas malograram: não perdi a mania. Pela rua, a caminho de casa, no fundo do quintal, entregava-me, fascinado, à contemplação das grandalhonas e branquíssimas nuvens que passeavam pelo céu de minha infância. Se valeu a pena? Como valeu. Os tempos passaram, fui crescendo, a mania crescendo comigo, e o resultado foi magnífico. De fato, magnífico: vivo, hoje, inteiramente alheio à calendários. Talvez pareça presunçosa a afirmativa. Mas apenas parece; não vejo como ficar vaidoso de uma dádiva divina: aprender, desde criança, a entender as falas das nuvens. Dos dons que Deus me deu, o que me deixa mais agradecido é o poder de sentir a poesia, errante e maravilhosa, que existe sobre o mundo. Mas aquele é o que me deixa mais feliz. Das estações do ano, ...
Pensa na glória! Arfa-lhe o peito, opresso, — O pensamento é uma locomotiva — Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Que importa que, contra ele, horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!… E só, no quadrilátero da alcova, Vem-lhe à imaginação este soneto: — “A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito… Escrevia Mais por impulso de idiossincrasia Do que por uma propulsão consciente. Entendi, depois disso, que devia, Como Vulcano, sobre a forja ardente Da Ilha de Lemnos, trabalhar contente, Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim os monstros zombeiteiros. Trabalharei assim dias inteiros, Sem ter uma alma só que me idolatre… Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora, trágico e maldito, Como Camões morrendo sobre um catre!” Nisto, abre, em ânsias, a tumbal janela E diz, olhando o céu que além se expande: “ — A maldade do mundo é muito grande, Mas meu orgulho inda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coor...