A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios. A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o para-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina. A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos. A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de ...
Acorda, João Que eu também quero ser Batizado nas águas do Rio Jordão Êta menino sapeca capeta Dispara espoleta Êta menino ladino porreta danado divino Acorda, São João, e faz o menino levado Saltar de dentro da velha E do velho enferrujado Mas não faz muita zuada João dorme seu sono em paz E se acorda assustado Nem sei do que é capaz Sei não, incendeia o mundo E até o meu coração Sapeca mandureba na fogueira E acabou-se a brincadeira Acorda, João Que eu também quero ser Batizado nas águas do Rio Jordão – Waly Salomão, em “Poesia total”. Editora Companhia das Letras, 2014. Imagem: Noite de São João- Portinari 1957