Como ninguém conhece o Alfinete de Fralda, muito bem, eu acho melhor contar a história dele antes de continuar contando a minha: Um dia eu ia passando e vi o Alfinete caído na rua. Peguei, limpei, desenferrujei, experimentei a pontinha dele no meu dedo, vi que ela era afiada toda a vida: - Puxa! E ela começou a riscar na minha mão tudo que o Alfinete queria dizer: - Me guarda? Já não aguento mais viver aqui jogado: passa gente em cima de mim; chove, eu fico todo molhado, pego cada ferrugem medonha; e cada vez que varrem a rua eu esfrio: "pronto! vão achar que eu não sirvo mais pra nada, vão me levar no caminhão do lixo"; me encolho todo pra vassoura não me ver; e depois que ela passa, e depois que o susto passa, eu risco na calçada um anúncio de mim dizendo que eu sirvo sim; mas nunca acontece nada. Me guarda? - Guardo. - Então guarda. ...
O deserto começou a infiltra-se na casa por baixo da porta, areia tangida por invisível sopro. Abriram, espiaram o elevador, examinaram as escadas. Nada. Nem areia nem vento. Em casa, porta fechada, halitava o siroco. Abrasivo debaixo dos pés, suave concha nos cantos, a areia acumulava-se. Desapareceram as flores do tapete, secaram as folhagens do sofá. Quando o desero sufocou os pássaros da tapeçaria, nenhum verde rstava na sala. Sem chuva, breve morreria também o oásis do quarto. Formada a primeira duna, o pai trouxe a cabra e o cabrito amarrados de corda. Garantiriam o leite. A mãe, arrancando as cortinas, providenciou panos, folgadas roupas, turbantes que protegiam a cabeça e a boca. Os olhos, na claridade, trabalhavam para descobrir entre frestas algum alimento para as cabras. E à noite acendiam em fogueiras o que restava dos móveis. Mas logo a duna começou a mover-se. Desfaziam-se as ondas do cimo para ondularem mais adiante. Era hora de partir. Desmontaram a tenda, a...