Estou deitada, baixo do céu estreloso, lembrando meu pai. Nesse há muito tempo, nós nos dedicávamos, À noite, a apanhar frescos. O céu era uma ardósia riscada por súbitos morcegos, desses caçadores de perfumes. —Pai, eu quero ter uma estrela! —Estrela, não: é muito custosa de criar. Eu insistia. Queria possuir estrela como as outras meninas tinham brinquedos, bonecos, cachorros. Aqui, no rés da terra, eu não podia ter nada. Ao menos, lá no infirmamento, se autenticassem minhas posses. —Mas, pai: o senhor diz que faz criação de estrelas. —Fazia, tive que entregar todas. Eram dívidas, paguei com estrelas. —Eu sei que sobrou uma. Meu pai não respondia nem sim nem talvez. Era um homem vagaroso e vago, sabedor de coisas sem teor. Dedicava se a serviços anónimos, propicio a nenhum esforço. Dizia: —Sou como o peixe, ninguém me viu transpirar. E me alertava: veja o musgo, que é o modo do muro ser planta. Quem o rega, quem o aduba? Nada, ninguém. Há coisas que só paradas é que crescem. —É, minh...
Annuska nasceu na Hungria, pouco antes da Segunda Guerra. Os pais judeus, preocupados com seu futuro, a deixaram com amigos em Paris. Ainda bem, que pouco depois acabaram num campo de concentração. E, deles, nunca mais se soube. Esses amigos, como tantos naquele tempo, decidiram tentar vida nova em outro lugar. Era algo natural, em uma Europa tão despedaçada. Foi assim que Annuska veio bater no Recife. Aqui, tão logo pôde, começou a trabalhar. Num salão de beleza. Por ser diferente das outras mulheres do bairro - na cor da pele, nos cabelos bem lisos e sobretudo nos olhos verdes - , não faltavam pretendentes à sua porta. Escolheu um deles, cadete da Escola Naval, Jaime. E não por ser militar. É que Jaime, além de simpático, era um homem bom. Pouco depois de casar, Jaime foi expulso da corporação. Segundo a denúncia por ser comunista. Não era. Mas desde, desde cedo, se incomodava com a miséria dos hospitais e das escolas públicas. Seus comandante...