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O Dia Em Que Morri, crônica de Zuenir Ventura

     O presidente da república tinha acabado de discursar quando recebi a notícia de minha morte. Eu estava na cerimônia de inauguração do Instituto Moreira Salles e vi Marcos Sá Corrêa vindo em minha direção com o cabelo molhado de quem saiu do banho às pressas e a cara de quem estava vendo fantasma. De fato, eram as duas coisas. Viera cor-rendo de casa, ali perto, para me avisar que infelizmente eu tinha morrido. Acho que cheguei a esbo-çar um ar compungido ao ouvir o relato e devo ter dito que o falecido era um cara legal.      O boato fora divulgado na Internet, on-line, pela Agência Estado, que se baseara no telefonema que um repórter deu para um antigo número meu: 267-0415. Quem atendeu disse que eu morrera num desastre de carro na Lagoa. O próprio repórter me contou depois: "a mulher deve ser uma louca, porque me atendeu chorando, dando detalhes de sua morte e dizendo que trabalhava com a familia há 14 anos: 'coitada da Mary, dos filhos', chegou a d...
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Fim do Mundo, poema de Mário Quintana

Ponho-me às vezes a cismar como seria belo o fim                                                                    do mundo. Antes de Cristo…                             Nos campos verdes                             Decorativas ossadas                         ...

Além da Amendoeira, conto de Guimarães Rosa

Vai, vez, um fim de tarde, saía eu com o Sung, para nosso passeio, que era o de não querer ir longe nem perto, mas buscar o certo no incerto, a tão bom esmo. Só me esquece a data. Cumprindo-nos, também, conferir as amendoeiras.       Seria em março as frutinhas do verde já boladas? abril: as folhas birutas, com lustro sem murcho, dando ponto às sanguíneas e às amarelinhas de esmalte. Se em maio, aí que, por en-frequentam e se beliscam um isto de borboletas, quase límpidas, amadurecem as frutas, cheirando a pêssego e de que os morcegos ávidos? Talvez em junho, que as drupas caídas machucam-se ilegíveis roxos. Também julho, quando se colorem ainda mais as folhas, caducas, no enrolar-se, vistosas que nem as dos plátanos de Neuilly ou de San Miníato al Monte, e as amêndoas no chão são tantas? Seja em agosto - despojadas. Ou em setembro, a desfolha espalhando nas calçadas amena saropueira, em que feerem ainda árduos rubros. Sei não, sempre é tempo de amendo...

Espécie de Felicidade, conto de Maria Julieta Drummond de Andrade

Ao chegar em casa para o almoço, encontrei um recado singular: uma leitora brasileira telefonara, de passagem por aqui, pedindo que eu mandasse tirar um gato de uma árvore, na Rua Honduras, em frente ao número 3805. Pensei tratar-se de uma confusão da empregada nova, que não entendera a mensagem, ou de um trote. Se fosse verdade, bem que daria uma crônica... À noite, de volta do trabalho, outro telefonema: era Neide, da Tijuca, que viera visitar um amigo argentino e regressava na madrugada seguinte para o Rio. Notara, há três dias, a presença de um gato na cima da árvore plantada diante da casa em que se hospedava, e não sabia como ajudá-lo, pois o bichinho, que miava desconsoladamente, parecia temeroso de pular. Acudira a um veterinário do bairro, que a aconselhou a chamar os bombeiros, estes a encaminharam à Sociedade Protetora dos Animais, cujo telefone não atendia. Aí lembrara-se de mim e das crônicas em que costumo proclamar meu encantamento pelos felinos; estivera até n...

Azul o Quê? poema de Ladyce West

Não sou fã de azul. Só do céu. de preferência como pano de fundo de uma frondosa bananeira, de uma mangueira, de pitangueiras ou jabuticabeiras. Por trás da montanha, enquadrando a paisagem bucólica, contrastando com um flamboyant. Não há rosas azuis. Nem tulipas. Nem comidas, nem bebidas. Fruta tropical não se passa por azul, nem mesmo mirtilo que e roxo e europeu. A baleia azul, não o é… Tampouco é o blue cheese. Azul, pra mim é cor triste. Não sou a única. Picasso triste é azul. No Irã é a cor do luto. É a cor do nada, na televisão. Indefinível, precisa de companhia para existir: azul-bebê, marinho, celeste, anil, cobalto, ardósia, petróleo, meia-noite, piscina, turquesa. Em inglês, significa tristeza. Are you feeling blue? “Não. Não estou triste, estou verde e amarela!” Em: À Meia Voz , Ladyce West 2020, pág.22

Cântico Negro, poema de José Régio

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos docesEstendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos a...

A Palo Seco, João Cabral de Melo Neto e Belchior

Franco, direto e sem rodeios, João Cabral de Melo Neto escreveu: A Palo Seco  ( poesias completas 1975) 1.1. Se diz a palo seco o cante sem guitarra; o cante sem; o cante; o cante sem mais nada; se diz a palo seco a esse cante despido: ao cante que se canta sob o silêncio a pino. 1.2. O cante a palo seco é o cante mais só: é cantar num deserto devassado de sol; é o mesmo que cantar num deserto sem sombra em que a voz só dispõe do que ela mesma ponha. 1.3. O cante a palo seco é um cante desarmado: só a lâmina da voz sem a arma do braço; que o cante a palo seco sem tempero ou ajuda tem de abrir o silêncio com sua chama nua. 1.4. O cante a palo seco não é um cante a esmo: exige ser cantado com todo o ser aberto; é um cante que exige o ser-se ao meio-dia, que é quando a sombra foge e não medra a magia. 2.1. O silêncio é um metal de epiderme gelada, sempre incapaz das ondas imediatas da água; A pele do silêncio pouca coisa arrepia: o cante a palo seco de diamante precisa. 2.2. Ou o silê...