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A Mulher de Olhos Verdes,


Annuska nasceu na Hungria, pouco antes da Segunda Guerra. Os pais judeus, preocupados com seu futuro, a deixaram com amigos em Paris. Ainda bem, que pouco depois acabaram num campo de concentração. E, deles, nunca mais se soube.  Esses amigos, como tantos naquele tempo, decidiram tentar vida nova em outro lugar. Era algo natural, em uma Europa tão despedaçada. Foi assim que Annuska veio bater no Recife.

     Aqui, tão logo pôde, começou a trabalhar. Num salão de beleza. Por ser diferente das outras mulheres do bairro - na cor da pele, nos cabelos bem lisos e sobretudo nos olhos verdes - , não faltavam pretendentes à sua porta. Escolheu um deles, cadete da  Escola Naval, Jaime. E não por ser militar. É que Jaime, além de simpático, era um homem bom. Pouco depois de casar, Jaime foi expulso da corporação. Segundo a denúncia por ser comunista. Não era. Mas desde, desde cedo, se incomodava com a miséria dos hospitais e das escolas públicas. Seus comandantes o consideravam maçã ruim. Capaz de contaminar a tropa, em tempos de Guerra Fria. Annuska contou às amigas, horrorizada, como foi triste ver aquela expulsão - com as dragonas que tinha nos ombros sendo retiradas e jogadas no chão, para que todos os colegas pisassem nelas.  Seja  como for, depois do episódio, ela ficou ainda mais apaixonada. E aquilo tudo, para o marido, até que acabou sendo proveitoso.

     Com a colaboração de parentes nas despesas, virou advogado. E acabou passando num concurso para a prefeitura.  Com bom salário. Em vez de assessor jurídico, preferiu ser fiscal de rendas. Naquela época, se podia escolher o cargo. Assim se deu para poder fazer seus horários de trabalho e ter tempo livre para jogar tênis. Gostava tanto desse esporte que só usava meias do clube em que jogava - brancas, com duas tiras vermelhas no alto. Mesmo quando estava de terno. Anos depois, Jaime teve um enfarte na quadra. Annuska considerou que morreu contente, fazendo aquilo de que mais gostava. E seguiu a vida.

    Necessidades não passava, que Jaime deixara aposentadoria confortável. Sem contar os aluguéis de alguns imóveis, que completavam a renda. Mas a solidão era maior do que podia suportar. Sem pais, sem irmãos, sem filhos e agora sem marido, viver os últimos anos sozinha parecia  muito pesado para ela. E seus olhos verdes continuavam atraindo admiradores. Foi assim que passados três anos, e  depois de um namoro rápido, casou com aposentado que fora gerente do Banco do Brasil. Annuska apreciou em Rodrigo, sobretudo a elegância meio antiga no vestir, nos gestos largos, no falar.  Como se fosse uma figura do passado. Sem contar que a chamava sempre de minha deusa. Naquela fase da existência, era o que desejava. Ou precisava.  Acabaram indo morar na casa dela, por ser mais central. A de Rodrigo foi alugada, aumentando a receita do casal. E tudo corria bem. Mas só no início. Que  Annuska foi, depois, conhecendo melhor quem ele era. Por dentro. Bem diferente do primeiro marido, infelizmente.

     Para começar, bebia mais do que devia. Ou do que Annuska pensava que devia.  Era rude no trato com pessoas mais simples. Como se elas não tivessem maior importância. E, pior que tudo, soube que seu patrimônio viera de propinas de clientes para quem liberava empréstimos no banco. Sem contar que ainda se gabava disso. Rodrigo vivia como se fosse alguém acima do bem e do mal. Um vencedor. Foi quando Annuska entendeu melhor o sentido de uma frase que vivia repetindo, quando estava bêbado: “Viva o nosso Brasil.”No começo imaginou ser apenas prova de amor ao país. Que nada. Era que, para ele, havia dois Brasis. O dos homens comuns - aqueles ingênuos que ganham pouco, pagam impostos e querem fazer tudo certinho. E o dos espertos, que sabem aproveitar a vida boa. O primeiro Brasil era dessa gentinha. Diferente do nosso. E Annuska foi ficando com horror dele.

     A coisa piorou quando Rodrigo começou a passar  o dia longe de casa. Saía de manhãzinha cedo e voltava só bem tarde. Quase sempre embriagado. Annuska chegou no limite. Seu limite. E assim foi até que, certo dia, informou ao marido: “Se hoje voltar depois das oito, vai dormir longe.”De noite, por implicância talvez, a cena se repetiu. E Rodrigo viu, logo ao chegar, duas malas cheias com suas coisas. Tudo como Annuska prometera.  Pediu perdão a sua deusa . Disse que isso não iria acontecer de novo. Mas ela sabia ser da boca para fora. Sem contar que ela era húngara. E não voltava atrás na palavra dada. Inviabilizadas todas as tentativas de perdão, Rodrigo acabou se conformando. E foi embora. Para morar não se sabe onde.

     Mas logo voltou à freguesia. Virou corretor de imóveis e fazia ponto num edifício em construção, bem próximo do antigo lar. Todo fim de tarde ficava  num boteco próximo. Bebendo e falando mal de Annuska. Não poucas vezes, ao ir embora, parava o carro na frente da casa de Annuska e gritava, só para irritar o antigo amor: “Viva o nosso Brasil.”

     Indignada com tanto desrespeito, e agora conhecendo melhor o marido, Annuska decidiu que isso não iria lhe sair barato. E começou  um processo de desquite litigioso. No fim, parte substanciosa dos proventos do marido acabou indo parar, todo mês, nas mãos dela. Como pensão alimentícia. Era uma doce vingança. Porque doía na carteira dele. Problema foi que, a partir daí, sua vida virou um inferno.Rodrigo telefonava todo dia. No começo, pedia por favor que abrisse mão do dinheiro. E se queixava.  Depois, foi subindo no tom da reclamação. Cada vez mais. Até que vieram as ameaças. Inclusive de morte. Assustada Annuska comprou um gravador pequeno, Grundig, o melhor que havia na praça. E passou a gravar as conversas. O som era ruim mas dava para ouvir, perfeitamente, suas vozes. Contou à amiga Manuela todo sofrimento em que se convertera sua vida. E disse que estava gravando as ameaças de Rodrigo. Pelo sim pelo não, era bom que soubesse. Sobretudo se lhe acontecesse algo.

     Aconteceu. Dois ou três meses depois, a televisão anunciou a descoberta de um corpo deformado. No outro lado da cidade. Amarrado numa árvore. Amigas preocupadas com o sumiço de Annuska, foram conferir e era ela. Os autores materiais do crime foram identificados logo - dois meliantes de quinta categoria que topavam qualquer serviço em troca de dinheiro para cachaça e maconha. Depois de fumar alguns baseados, começaram a se gabar de terem apagado uma velha. A polícia foi informada. Os convidou a visitar a delegacia. Num camburão. E, com a colaboração de dois ou três sopapos em cada, contaram tudo. Verdade que não conheciam quem contratara aquele serviço - nem o nome do homem, nem o que fazia, nem endereço, nada. Mas fosse quem fosse, pagara o preço combinado. Metade na hora, o resto depois. E grana era o que importava. Problema, paa a justiça dos homens, é que apenas eles foram presos. O mandante do crime, não. Foi quando Manuela se lembrou das ameaças recebidas por Annuska. Foi até sua casa. Encontrou o tal gravador Grundig. Conversou com seu advogado sobre o que deveria fazer. A sugestão foi levar aquele gravador à polícia e contar como o casal vivia às turras.

      Um mês depois da morte de Annuska, suas amigas mandaram celebrar uma missa em memória dela. Rodrigo teve o desplante de ir. Ficou atrás, na igreja, com um riso meio debochado no rosto. Como se achasse graça naquilo tudo. Em seguida, foi para um bar próximo. Chegou eufórico.Disse a todos que a noitada seria por conta dele. Queria comemorar uma data importante. Não disse a razão, nem ninguém perguntou. E começaram todos a encher a cara. No meio da noite, pediu a palavra. E fez um discurso meio sem nexo, com voz engrolada, do qual ninguém conseguiu entender bem o sentido. Começou dizendo que “neste país de merda, quem sabe fazer as coisas sempre se dá bem”. E, em seguida, “Viva a impunidade". “Viva”, completaram todos. Não por concordarem com isso, era só o que faltava. Mas porque ele estava pagando. E todos queriam que assim continuasse. Beber já é bom; e, de graça, melhor ainda. Completando a cena, levantou o copo de cachaça e fez um brinde com palavras que Annuska tantas vezes ouvira antes: “Viva o nosso Brasil!”

     Nesse momento, um cidadão entrou no bar. Dirigiu-se à mesa em que estava o grupo e perguntou quem era o dr. Rodrigo. Com voz de bêbado, ele respondeu: “Sou eu,amigo, em que posso servi-lo?” “Em pouca coisa..” O homem então mostrou, com a mão esquerda, uma carteira de delegado de policia. Com a direita puxou da cintura, perto do revólver um par de algemas prateadas Balançou-as bem no nariz de Rodrigo, sem nenhuma consideração. E disse bem alto, para que todos pudessem ouvir: “Teje preso”. Em seguida mostrando no rosto que fazia aquilo com muito prazer, completou: “Ponha os dois bracinhos para a frente, por favor.”Rodrigo, sem perceber direito o que estava acontecendo, esticou os braços. Ouviu o clique das algemas se fechando. E desabou no chão. Pelo susto e pela bebedeira. O policial nem se incomodou. E saiu do salão arrastando o meliante, pelo chão todo sujo como se fosse um saco de lixo.

Em: Somente a Verdade, José Paulo Cavalcanti, ed. Record 2016, págs. 125-131

Imagem: Google.


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