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| Ilustração: Rita Wainer |
Pergunte a qualquer brasileiro "O que é Paysandu?". Alguns dirão que é uma praça no centro de São Paulo, onde se come o sanduiche mais tradicional da cidade, o Bauru, uma iguaria do Ponto Chic - bar quase centenário. Outros vão responder que é um dos mais famosos e tradicionais times de futebol da Amazônia, Paysandu sport Club, varias vezes campeão paraense, dono da maior torcida dormada o norte do país. As duas respostas estão corretas. Pergunte a um uruguaio "O que é Paysandu?" e a resposta será muito diferente. Um uruguaio irá citar, imediatamente, a heroíca vila de Paysandú, um lugar que já foi sitiado e destruido por portugueses e brasileiros em três conflitos fronteiriços, e que se converteu, desde então, num símolo de resistência. No entanto, esta resposta, a mais correta, é praticamente desconhecida para a maioria dos brasileiros.
Paysandú fica na fronteira entre Uruguai e Argentina, uma vila fundada no século XVI pelo padre jesuíta Policarpo Sandú, chamado pelos índios de Pay Sandú. Em 1864, Paysandú foi o centro de uma guerra civil. A vila foi cercada pelo general Venâncio Flores, com o apoio do exército imperial brasileiro, que era comandado por figuras como o almirante Tamandaré e o general Mena Barreto - atualmente, dois importantes nomes de ruas em várias cidades brasileiras. A guerra do Uruguai, que levou o exército imperial brasileiro as ruas de Montevidéu, apoiando a "Cruzada Libertadora" do general Flores, antecedeu outro importante conflito sul-americano, a Guerra da Tríplice Aliança - formada por Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai. Os brasileiros chamam este conflito de "Guerra do Paraguai", e geralmente não têm muita ideia dos efeitos traumáticos e devastadores que este episódio deixou na alma dos guaranis. A guerra durou mais de cinco anos e, além de território, tirou dos paraguaios boa parte da sua população masculina adult, um desastre demográfico do qual os paraguaios levaram décadas para se recuparar e que até hoje não esquecem.
Apesar das marcas deixadas pelas guerras, os brasileiros não parecem conscientes desta ou de outras histórias importants do seu passado. É claramente um exagero incluir todos os brasileiros nesta afirmação, e há muitos que conhecem bem sua história, assim como há grandes amantes e admiradores da Améerica Latina. Mas, para um hispano-americano que chega a este país, uma das primeiras coisas que surpreendem é que grande parte das brasileiros, em todos os níveis sociais, não se interessa muito pelos países vizinhos e perpetua alguns estereótipos sobre os outros sul-americanos, que poderiam ser os mesmos lugares-comuns que habitam a imaginação de um norte-americano, europeu ou talvez até um asiático.
Mesmo que para lguns possa parecer absurdo, tenho de contar que, no Brasil, já ouvi perguntas como: "Onde fica Cuba?", "Quem é Simón Bolívar?". Ou afirmações como: "o Peru é um país que fica nas alturas, no qual faz muito frio e que não tem mar." Esses comentários sobre meu país, um vizinho de parede do Brasil, me deixavam bastante desanimada. Mas, sempre com muita paciência, contava que nasci em frente ao oceano, e que passei lindos verões na beira-mar do Pacífico, que, apesar de sua água fria, não era a Antártica.
Percebi também que se celebram feriados nacionais sem que deles se tenha uma compreensão ou referência histórica. Um deles é o feriado de 9 de julho, em São Paulo. Muitos não sabem do que se trata. Alguns respondem acertadamente "Revolução Constitucionalista de 32", mas poucos conseguem explicá-la. E é engraçado ver a confusão que alguns fazem entre Dom Pedro I e Dom Pedro II. Há quem pense que Dom Pedro I é filho de dom Pedro II porque a iconografia mostra o primeiro, que morreu aos 36 anos, como um jovem, e ao segundo, que faleceu aos 66, mais de meio século depois de seu pai, como um velho.
Casos mais recentes na história, como os anos de Getúlio Vargas, ou a violenta ditadura militar, são conhecidos em linhas gerais, mas sem contextualização. Não é raro ouvir dizer que a ditadura brasileira foi branda, em comparação comos regimes do Cone sul, e há quem chame p golpe de 64 de Revolução de 64, e aos guerrilheiros que lutavam pela democracia de terroristas. Claro que, nesses casos, há uma questão ideológica, mas também uma repetição automática de informações que vão se acumulandosubliminarmente - até que deixemos de refletir sobre elas. E feriados? Quem não quer feriados? Como em todos os lugares, o que importa é ter dia de folga, e de preferência que caia numa sexta ou numa segunda-feira.
Continuação: Desconexão Geográfica, dia 21/1.
Fonte: Palavra de Gringo, ed. Língua Geral, Org. Hugo Gonçalves, 2014, págs.77-78

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