(De uma carta do poeta José Maria Cerqueira)
Vem vindo José Maria,
vem de São Bento do Una,
vestido de roupa cáqui e de botinas reiúnas.
No conselho da família,
só encontra hierarquia
do avô cabo de polícia.
O pai na barbearia
do povoado trabalha,
mal completa o pagamento
da prestação da navalha.
Vem vindo José Maria,
o amarelinho de São Bento
do Una, sem genealogia.
Vem montado no jumento.
Saiu da escola. ( Não tinha nem livros nem fardamento.
Aprendeu a ler sozinho.)
Oh, que infância sem infância.
essa de José Maria!
Entrava na terra o casco
do seu cavalo de pau,
que o cabo da enxada era
a escoiceante montaria.
tirava leite das vacas,
mas o leite não bebia.
Os animais da fazenda,
com que doçura tangia!
Carregava areia e lenha
com o gosto do engenheiro
que uma obra construía.
Foi bicheiro e negociante
de passarinhos na feira.
Vendeu frutas e roletas
nas festas da Padroeira.
Lavou frascos de botica,
lavou os pratos do hotel,
fez os serviços miúdos
da casa do coronel.
- Pega o carneirinho mocho
para Jorginho montar.
- Vê se a novilha cinzenta
já voltou para o curral.
- Leva o peru para a ceia
do Doutor pelo Natal.
Vem vindo José Maria
vem de São Bento do Una,
vestido de roupa cáqui
e de botinas reiúnas.
Puxa aionda o seu jumento,
remexe nos caçuás.
Carrega barro e madeira
para a construção que faz
com alicerces na poesia
dos desesperos rurais.
Em: Itinerário, Mauro Mota, Livraria José Olympio 1975, págs 16-17
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