sábado, 31 de agosto de 2019

Historinha Pra Ninar Gigante, Nara Rúbia Ribeiro.

POEMA 1

Um rei medroso
Ordenou que fossem mortos
Todos os pássaros do seu reino. 
Assim se cumpriu.
Daquele dia em diante
O canto que nascia vinha das entranhas das pedras.
Deu-se uma quebra no encantamento das coisas
E dragões desembocaram do espaço.
Parecia que o mundo inteiro findava.
O rei,
Desobrigado de sonho,
Fechou os seus olhos de esquecer de acordar.
Então, as crianças se aliaram aos poetas
E desenharam um poema
De passarinhos ressuscitados.
Foi aí que pequeninas pedras
Animaram-se a levitar.
Pouco a pouco ganharam penas,
Bico, asas, gorjeio de pássaro.
E as crianças descobriram
Que pedrinhas coloridas
São passarinhos disfarçados de chão.
Segredo milenarmente guardado.
Só o sabem as crianças e os poetas.
Fonte: Revista Pazes Compre o livro aqui

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Rubi,edição especial. Odette Castro


     Odette Castro conta que foi em um ano de muitas perdas que veio o insight de escrever o livro “Rubi” (Editora Impressões de Minas, 106 páginas), lançado no mês passado, na Casa-Atelier, Santo Agostinho. “Final de casamento, perdas financeiras, morte da minha mãe e das tias que me criaram. Quando dei por mim, estava em frente à tela do computador, escrevendo compulsivamente. Uma catarse. E assim foi acontecendo por dias a fio. Como se eu expelisse as dores através das letras. Em nenhum momento pensei na reação das pessoas. Foi uma surpresa. Talvez se tivesse pensado, não escreveria”, diz ela, frisando, ainda, a importância da palavra liberdade. À ela, pois: “Quando você tem que lidar, diariamente, com as diferenças, você se liberta de julgamentos. Esta é a maior liberdade que uma pessoa pode conquistar”.
(www.hojeemdia.com.br)
Ao usar a palavra “diferenças”, Odette se refere, particularmente, à filha, Beatriz, hoje com 28 anos, e portadora da Síndrome de Rubinstein-Taybi (SRT), ou Rubi, que dá nome à obra. A síndrome, cuja causa ainda é desconhecida pela medicina (há algumas hipóteses aventadas, como uma mutação no cromossomo 16), exige, por parte da família, cuidados constantes, no que tange, por exemplo, à alimentação e ao trato respiratório.(www.hojeemdia.com.br)

Li o livro Rubi, quando - não sei de onde tirei essa ideia - achava que a autora tinha uma filha com Síndrome de Down e falava a respeito disso. Sabia que Odette não tratava do assunto levianamente e comprei. 


Encontrei na leitura uma escritora pronta: Odette Castro fala da vida cotidiana de uma mãe cuja filha tem SRT e que por isso vive 24 horas em função dela. Não se coloca como a super mulher que é responsável por absolutamente tudo, não se faz coitada. Nada disso. Fala com absoluto realismo, muitas vezes até com graça do seu cotidiano. É uma aula fantástica de humanismo. 
Agora, já sem Beatriz, Odette Castro quer lançar uma segunda edição ampliada do livro RUBI e nós podemos colaborar:

#umaflorcuraumador
Quando muitos amigos contribuem e compartilham meu pedido para a reedição do livro Rubi, sou toda agradecimentos. Falar sobre os 5 anos pós o lançamento do livro é muito maior do que escrever um livro. Não sou escritora . Sou mãe que usa as letras como sobrevivência aos nós e aos desamarros da vida.
O novo Rubi é a festa de formatura de quem nunca se formou. O casamento de quem não se casou , realização de pequenos sonhos que eu não soube interpretar , missas que me recuso a mandar celebrar. É meu coraçao impresso. Por isto, por mais constrangida que eu me sinta, eu peço . Por amor..Por favor. ( Odette Castro- facebook)


https://www.kickante.com.br/campanhas/reedicao-do-livro-rubi-odette-castro

domingo, 25 de agosto de 2019

A Todos Que Não Foram e Não Ligaram, Fernanda Young



     Bom, você não foi. E não ligou. A mim, só restou lamentar a sua falta de educação. Imaginando motivos possíveis. Será que você não foi porque realmente não pôde ou simplesmente não quis? Será que não ligou para não me magoar ou justamente o inverso disso?
     Estou confusa, claro. Achava que você iria.
   Tanto que eu aguardei sua chegada por mais minutos do que deveria, inventando desculpas esfarrapadas para mim mesma. O trânsito, o horário, a meteorologia. Qualquer pneu furado serviria. E até o último instante, juro, achei que você chegaria a qualquer momento. Pedindo perdão pelo terrível atraso. Perdão que você teria, junto com uma cara de quem está acostumada, e assim encerraríamos o assunto. Mas você não foi.
    Esperei outro tanto pelo seu telefonema, com todas as esclarecedoras explicações. Para cada razão que houvesse, pensei numa excelente resposta. Para cada silêncio, num suspiro. Para cada sensatez de sua parte, numa loucura específica da minha.
     Se você tivesse ligado do celular, eu seria fria. Se tivesse ligado do trabalho, seria levemente avoada. Se a ligação caísse, eu manteria a calma.
     Foram muitos dias nessa tortura, então entenda que percorri todas as rotas de fuga.        Cheguei a procurar notícias suas pelos jornais, pois só um obituário justificaria tamanha demora em uma ligação.
     Enfim, por muito mais tempo do que desejaria, mantive na ponta da língua tudo o que eu devia te dizer, e tudo o que você merecia ouvir, e tudo. Mas você não ligou.
Mando esta carta, portanto, sem esperar resposta. Nem sequer espero mais por nada, em coisa alguma, nesta vida, para ser sincera. No que se refere a você, especialmente, porque o vazio do seu sumiço já me preenche; tenho nele um conforto que motivos não me trarão.
     Não me responda, então, mesmo que deseje. Não quero um retorno; quis, um dia, uma ida. Que não aconteceu, assim deixemos para lá.
    Estaria, entretanto, mentindo se não dissesse que, aqui dentro, ainda me corrói uma pequena curiosidade. Pois não é todo dia que uma pessoa não vai e não liga, é? As pessoas guardam esses grandes vacilos para momentos especiais, não guardam?
     Então, eis a minha única curiosidade: você às vezes pensa nisso, como eu penso? Com um suave aperto no coração? Ou será que você foi apenas um idiota que esqueceu de ir?

Fonte: Revista Claudia (19.11.2007)
Leia aqui sobre a autora falecida hoje, 25.8.19 aos 49 anos
Conheça os livros de Fernanda Young

sábado, 24 de agosto de 2019

Os Índios de Berlim, João Ubaldo Ribeiro

          Uma coisa eu aprendi, nesta minha temporada berlinense: só apareço outra vez na Alemanha depois de frequentar um curso sobre a Amazônia e ler pelo menos uma bibliografia básica sobre os índios brasileiros. As coisas aqui podem ficar difíceis para brasileiros como eu, que não entendem nada de Amazônia e de índios. Ao serem informados dessa minha ignorância, alguns alemães ficam tão indignados que desistem imediatamente de conversar comigo. 
     Outros, talvez a maioria, se recusam a acreditar em algo tão inaceitável,não ouvem minhas negativas e vão em frente, num diálogo às vezes um pouco esquizofrênico. 
     — Deve ser fascinante a Amazônia, não é?
     — Deve ser, sim. Certamente que é. 
    — Compreendo o que você quer dizer. Para você, imerso na Amazônia, é difícil ter a mesma visão fascinada que um estrangeiro. Para quem está de fora, contudo... — Não é bem isso, é que eu nunca vi a Amazônia. 
      — Você mora fora do Brasil desde criança? 
      — Não, moro no Brasil mesmo. Mas nunca vi a Amazônia. 
      — Meu Deus do céu, o que é que você está me dizendo, que coisa horrível
      — Sim, bem... Eu... 
    — Eu não sabia que a devastação havia chegado a esse ponto, que horror! Você não chegou a ver a Amazônia! Quando nasceu, ela já tinha sido em grande parte destruída,queimada, arrasada! 
      Você não acha isso um terrível crime contra a Natureza, o planeta? 
     — Sim, claro que acho. Mas não é isso, é que eu... 
    — Você não concorda em que é preciso conter de qualquer maneira a devastação da Amazônia? — Concordo, concordo. 
   — Eu não esperava outra atitude de sua parte. Realmente é uma coisa terrível.      Helga,venha cá, escute aqui o que este amigo brasileiro está me contando sobre a Amazônia, ninguém melhor do que um brasileiro para nos mostrar a verdade sobre a Amazônia, e o que ele está me contando é de estarrecer, é muito pior do que nós pensávamos! Imagine que ele nasceu e se criou no Brasil e não chegou a ver a Amazônia!  A destruição já se estendeu a tal ponto que não deu para ele ver mais nada! Conte aqui, meu caro amigo, conte aqui para a Helga o que você acaba de me contar, realmente é terrível Helga, ele me disse que...Em leituras, palestras e ocasiões semelhantes, a situação piora, porque a pressão é coletiva. 
     Acabo de falar, levanta-se um senhor com ar de reprovação perplexa e me diz: 
   — Eu li aqui num jornal que o senhor disse que nunca tinha visto um índio. 
   Isto é verdade?Zum-zum-zum na plateia. 
     Aquilo branco na mão do rapaz de cabelo punk será um ovo prestes a ser lançado em minha direção, se eu der a resposta errada? A senhora da primeira fila estará erguendo a sombrinha? O grupo de estudantes lá atrás mexe-se para levantar-se e prorromper em estrepitosa vaia? Numa crise internacional deste porte, é necessária alguma criatividade.      — Claro que não — respondo jovialmente. 
    — Isso é mentira de jornal, jornal mente muito.Todo dia eu vejo índios. Quando eu era menino, os índios costumavam sair da selva do outro lado da rua e pulavam o muro do nosso quintal para flechar as galinhas. Ultimamente eu estava morando no Rio de Janeiro, onde há relativamente poucos índios, mas assim mesmo dá para agente ver uns duzentos ou trezentos por dia.
     Alívio geral. Sorrisos, entreolhadas satisfeitas, um mar de mãos levantadas, perguntas e mais perguntas. 
     — E eles mantêm seus costumes, lá no Rio? 
    — Depende da tribo. Algumas estão mais ou menos assimiladas. Outras não, de forma que é bem possível você estar num ônibus e no mesmo banco sentar-se um indiozinho nu e todo pintado. 
    — E quanto ao canibalismo? 
  — Está praticamente em desuso, apesar de alguns grupos ecológicos que protestam contra a repressão branca a esse milenar costume índio. Mas de vez em quando a gente ouve falar que comeram alguém, geralmente um deles mesmos. 
    — E qual é sua posição quanto ao extermínio dos índios? 
  — Radicalmente contra, claro. Até porque isso para mim seria praticamente um suicídio.Como vocês veem claramente pelo meu tipo físico, eu tenho sangue índio. Um quarto. Minha avó paterna era da tribo Caeté, famosa por ter comido um bispo português no século XVII.Aplausos, apertos de mãos calorosos, sucesso. Tanto sucesso que acho que vou adotar o mesmo tipo de abordagem em todos os setores da vida, enquanto estiver aqui em Berlim.Acho, não, já adotei, pensando bem. 
     Ontem mesmo minha mulher atendeu o telefone, falou um pouco e pediu à pessoa do outro lado que esperasse um pouco. 
     — É um alemão muito simpático — disse ela —, que está produzindo uma peça de rádios obre a Amazônia e precisa de vozes de crianças amazonenses. Aí ele soube que nós temos dois filhos pequenos e quer saber se eles podem fazer essas vozes na peça. 
     Explico a ele que nossos meninos não são da Amazônia, nem nunca estiveram lá?
     — Não — disse eu. — Pergunte quanto ele paga. E diga que, se precisar de alguém para o papel do cacique, eu faço.

Ribeiro, João Ubaldo. Um Brasileiro em Berlim.


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

As Tardinhas Caem, Ronaldo Wrobel

    
Há poucos anos fui convidado para um evento literário em Monte Alto, no interior paulista, e tomei um voo até Ribeirão Preto. Para meu espanto, quem me esperava no aeroporto era uma dupla sertaneja paparicada por fãs. Entre autógrafos e fotografias, os dois disseram que tinham sido contratados pelos promotores do evento literário porque trabalhavam com transportes durante a semana e só se apresentavam de sexta a domingo.
     Embarcamos numa van colorida com o nome da dupla. Na estrada, carros piscavam e buzinavam para seus ídolos, que retribuíam alegremente. A emocionada cobradora do pedágio ganhou um CD de presente. Quarenta minutos depois, passamos pelo segundo pedágio e deu-se algo estranho: o cobrador não mostrou qualquer interesse pelos dois, se é que chegou a reconhecê-los. É que aqui não somos famosos, explicaram. Meus condutores só faziam sucesso no entorno imediato de Ribeirão Preto e em algumas cidades perto de Minas Gerais, numa área “dominada” por outras duplas sertanejas. Achei aquilo curioso, me perguntando quantos artistas existem por aí, famosos até aquela curva, aquela ponte, aquele posto de gasolina, com zonas de influência bem demarcadas. Conversamos ao som de canções sertanejas que, para mim, formavam uma argamassa musical associada a coisas como boi no pasto, caminhoneiro solitário, bolo de fubá e galinheiro. Pois eles falaram sobre diferenças estilísticas e as transformações que o gênero vinha sofrendo nas últimas décadas.  As violas tradicionais iam ficando para trás, substituídas por guitarras e baterias ao gosto do público urbano e universitário. As letras também andavam mais salientes, sem a inocência rural de outros idos. Aprendi que o sertanejo é o gênero musical mais popular do país, com audiência cativa em todo o centro-sul, enquanto o Nordeste prefere forró e as grandes capitais curtem funk.
     Todos sabem que o Brasil é “muito mais que qualquer zona sul”, nos dizeres (ou cantares) de Milton Nascimento. Chega a ser clichê falar sobre diversidade nesse país com 8 milhões e meio de quilômetros quadrados. Há cidades dentro de cidades rodeadas de cidades, tudo na mesma região metropolitana. Rio e São Paulo, para ficarmos nos exemplos mais óbvios, são colchas de retalhos onde lidar com desigualdades é questão de sobrevivência. Ainda assim, sempre há situações desafiadoras para umbigos sensíveis do Leblon e dos Jardins.
     Semana passada, por exemplo, descobri que um jovem colega de trabalho não sabe quem é João Gilberto. Ele simplesmente não associa o nome a ninguém (Gilberto Gil é a referência mais próxima). Meu colega tem boa instrução, pertence à chamada classe C e está longe de ser exceção nesse Brasil lindo e trigueiro. Versos como “o barquinho vai, a tardinha cai” não significam nada para ele e para milhões de conterrâneos que só têm escutado bossa nova em propagandas comerciais ou em alguma novela com sol poente em areias cariocas. Fato é que João Gilberto e seus parceiros nunca fizeram parte da rotina ou sequer da memória afetiva dessas pessoas. E mesmo que a fase áurea do gênero seja passado, é preciso admitir que grandes porções do Brasil ou até mesmo de Copacabana e Ipanema, berço de canções consagradas, vivem e sempre viveram afastadas de toda ambiência estética, romântica e filosófica que inspirou obras como Garota de Ipanema, Coisa Mais Linda, Wave ou Carta ao Tom 74. Outra verdade é que a displicência intimista de João Gilberto combina mais com os lounges de Londres e Nova York do que com Madureira, Juazeiro do Norte, Uberlândia ou Santarém. O dia-a-dia do brasileiro pede repertórios mais enérgicos e até fervorosos, como as popularíssimas músicas religiosas, que encorajam e consolam num tom suplicante que é o avesso do requinte blasé de João Gilberto & cia. Mesmo o olhar das elites musicais para realidades periféricas tende a uma sofisticação poética e melódica bem destoante daquilo que ouvimos quando essas próprias realidades resolvem puxar o microfone.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Canção Para Os Fonemas da Alegria, Thiago de Mello

Imagem Pixabay
Peço licença para algumas coisas,
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

As vezes nem há casa: é só chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que se paga por ser homem,
mas um modo de amar - e de ajudar

o mundo a ser melhor. Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:

ele atravessa os campos espalhando
a boa nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,

contra o bicho de quatrocentos anos, 
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:

canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

Santiago do Chile,
verão de 1964.
in Faz Escuro mas eu canto,T de Mello , Rio de Janeiro :C.Brasileira s/d


*Thiago de Mello

Amadeu Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, Amazonas, em 30 de março de 1926. Além de tradutor e ensaísta, é um dos poetas mais influentes e respeitados do país, sendo reconhecido como um ícone da literatura regional. A luta política, o lirismo, as relações de família e os amores são facetas marcantes em sua obra.
Preso durante a ditadura militar (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador. Da amizade veio a decisão de traduzirem os poemas um do outro.
Mello morou na Argentina, no Chile, em Portugal, na França e na Alemanha. Voltou à sua cidade natal, onde vive até hoje, apenas após o final do regime militar no Brasil.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Cora Coralina, 130 anos

Cora Coralina, a poeta doceira mais querida do Brasil, nasceu há 130 anos, no dia 20 de agosto de 1889. Conheça seus poemas, receitas e livros.

DE ANINHA A CORA CORALINA

Cora Coralina dizia que era a menina feia da Ponte da Lapa. Uma menina triste e nervosa, amarela de rosto empalamado e pernas moles, que tinha duas irmãs lindas e que poderia ter sido amada por ser a caçula, mas então veio mais uma e ocupou seu lugar. Por isso, ela escreveu certa vez, ficou sozinha, fechada em seu mundo imaginário.
Ao longo de seus 95 anos de vida – de muito trabalho, garra e coragem e de alguma alegria –, Cora Coralina carregou essa menina ao seu lado, e quando começou a escrever mais sistematicamente e a publicar seus livros, já mais velha, lá estavam a garota, a casa da infância, que foi a casa da velhice, as memórias – tudo o que ela viu, sentiu, viveu neste quase um século, e que não foi pouco.
Nascida Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas em agosto de 1889, meses antes da Proclamação da República, ela começou a escrever muito cedo, antes dos 15 anos, mas só foi publicar seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, em 1965 - depois de casar, trocar sua Vila Boa de Goiás natal por São Paulo - e depois pelo interior, criar quatro filhos, enviuvar, vender tecido, doce e livro. Àquela altura, já era uma senhora de 75 anos.

À obra com a qual estreou na literatura pela José Olympio (foi para a lendária editora, aliás, que, muito antes de sua estreia na literatura, ela vendia livros de porta em porta), seguiram-se outras duas: Meu Livro de Cordel (1976) e Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha (1983).
Foto: Reprodução/Museu Casa de Cora Coralina
Ela já era conhecida na região, mas um texto publicado por Carlos Drummond de Andrade no Jornal do Brasil em dezembro de 1980 tratou de apresentar Cora Coralina, uma pessoa “rica apenas de sua poesia”, a literatos e leitores. Nesse texto, o poeta, com quem ela se correspondeu brevemente depois, dizia que Cora era a pessoa mais importante de Goiás. Ele escreveu ainda: “Na estrada que é Cora Coralina, passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária.” E a simplicidade foi mesmo a sua marca (leia alguns poemas abaixo).
Na estrada que é Cora Coralina, passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária.
Carlos Drummond de Andrade, em texto publicado no Jornal do Brasil em dezembro de 1980
Quinze anos antes desse artigo, o Estado já estava atento à poeta e seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, figurou entre os lançamentos do Suplemento Literário de 26 de junho de 1965. O texto comentava que Cora dizia, na apresentação da edição, que ali não estavam impressos versos, mas sim “um modo diferente de contar velhas estórias”.
Foto: Reprodução/Museu Casa de Cora Coralina
Ela publicaria mais um volume, Estórias da Casa Velha da Ponte, previsto para 1984, mas ela estava cansada. Em Vintém de Cobre ela escreveu: “Tudo em mim vai se apagando. / Cede minha força de mulher de luta em dizer: / estou cansada. / A claridade se faz em névoa e bruma. / O livro amado: o negro das letras se embaralham, / entortam as linhas paralelas. / Dançam as palavras, / a distância se faz em quebra luz. / Deixo de reconhecer rostos amigos, familiares. / Um véu tênue vai se incorporando no campo da retina. / Passam lentamente como ovelhas mansas os vultos conhecidos / que já não reconheço. / É a catarata amortalhando a visão que se faz sombra. / Sinto que cede meu valor de mulher de luta, / e eu me confesso: / estou cansada.”
Cora morreu em 10 de abril de 1985. Estava com uma gripe forte, quando foi levada, pela manhã, para um hospital de Goiânia. A gripe tinha evoluído para pneumonia e ela morreu à tarde, pouco depois de dar entrada no hospital.
Hoje, há mais de uma dezena de livros com textos de Cora Coralina nas livrarias - para adultos e crianças (veja abaixo). E, segundo sua filha caçula, Vicência Brêtas Tahan, há muitos inéditos no baú de Cora, que ela organizou em várias pastas azuis e guarda em seu apartamento, em São Paulo.

Foto: Ninton Fukuda/Estadão

EM FAMÍLIA

Foto: Ninton Fukuda/Estadão
Vicência Brêtas Tahan
tem 90 anos e é a única filha viva de Cora Coralina. “Raspa de tacho”, como ela diz, Vicência guarda os escritos de sua mãe em pastas muito bem organizadas em sua casa, em São Paulo, e contou,em entrevista publicada pelo Estado, que há inéditos suficientes para produzir mais cinco ou seis livros.
Ela também falou sobre a relação com a mãe. “Do que eu sinto mais saudade? Da conversa dela, do espírito dela. E da comida também”, respondeu.
Veja matéria completa no Estadão
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...