terça-feira, 21 de maio de 2019

A Mulher Que Não Queria Acreditar, Fernanda Takai


   
     Todo dia ela pensava apenas sobre as questões práticas da vida. Tem pão pro café? O filho devolveu o livro da biblioteca? A roupa tá passada? Os relatórios do trabalho prontos? O chefe satisfeito? O ingresso pro teatro comprado? O dinheiro na poupança? Sim, sim e sim. Era muito organizada. Tudo no esquadro. Pé mais do que no chão.

     Quando lia o jornal pulava sem pestanejar a seção do horóscopo. Nem sabia seu ascendente. Nunca entrava em loja de artigos esotéricos. Não amarrava fitinha só senhor do Bonfim. Aliás, amarrou só uma vez porque estava vindo de uma temporada na praia e aquele amarelo ia bem. E sem nenhum constrangimento cortou-a com a tesourinha quando começou a ficar embolada. Religião? Não tinha. A família era católica e ela gostava de cantar musiquinhas de igreja, mas nem crismada foi; quando achou que aquele mundo não fazia sentido disse "não", para desgosto da mãe e das tias, que acreditavam eu tudo. Tudo mesmo. Ela se divertia com banhos para tirar energias negativas que lhe preparavam para o Ano-Novo. Pra não deixá-las chateadas, até jogava no corpo o líquido do frasco quando vinha cheiroso, ou quem sabe despejava pelo ralo,  mas devolvia vazio. "Obrigada". E soltava um risinho...

     Passou embaixo de mais escadas que qualquer um, só pra ver os olhares espantados e sinais da cruz das pessoas na rua. E, quando podia, ainda levava um gato preto no colo! Se tinha algum problema e alguém vinha ensinar uma simpatia, ela logo desconversava: "Não acredito".

     Quando era nova, ganhou um trevo de quatro folhas plastificado de um namoradinho da escola e, pra desespero do moleque, começou a descolá-lo só pra provar que era falso. "Viu?" Ele foi embora. Ela ainda mostrou o troféu pra todo mundo.

   Gostava muito de matemática, mas conseguiu brigar com seu professor preferido quando teimou sobre o conceito de números imaginários. "Tente me explicar de novo porque ainda não entendi." O seu próprio veredito foi que era algo de que ela também não ia precisar acreditar mesmo...

     No fundo, às vezes ela era cruel. Mas sua educação disfarçava isso bem. Em qualquer jantar com amigos ela sempre acabava discutindo e no fim ia embora pra não brigar de verdade. Zombava do casal que estava fazendo análise há dez anos. Não acreditava. Achava engraçado a prima ver um programa de TV sobre um senhor que se comunicava com parentes mortos. Até no cinema, quando o assunto era "crer ou não crer" ela dizia em voz alta: "Mas não é possível, gente!" Uma quase chata.

     E assim viveu por muito tempo. Se não houvesse questão metafísica no caminho, tudo bem. De certa forma ela e suas certezas interiores se bastavam. Tinha seus problemas mas achava que tudo se resolvia, de algum modo, com o passar da vida.

     Era véspera de seu aniversário de cinquenta anos e uma coisa estranha aconteceu. Ao acordar, não sentiu vontade de comer. Nem de ir trabalhar. Nem de verificar se estava tudo certo em casa. Fechou os olhos de novo e percebeu que todas as suas certezas tinham desaparecido. Num primeiro momento, nem nisso acreditou. Depois de passar o dia sentada na cama dando desculpa de que estava se sentindo enjoada, ligou assustada para sua melhor amiga contando o que se passava.

Ao chegar à casa da mulher que nunca quis acreditar em nada, a amiga percebeu que ela estava mesmo diferente e disse brincando:"Não acredito no que você me contou...". E então a mulher baixou os olhos meio sem jeito:"Por favor, acredite! Mas não conte pra ninguém nem me venha com simpatias, consultas, terapias...".

     A amiga sorriu, abriu a bolsa e escreveu, com a mais bela caligrafia, uma frase numa página arrancada de sua agenda. Entregou à mulher que, ao ler aquilo, deu-lhe um abraço longo e apertado. Não podia ser a mesma depois daquele dia. E não foi.


     Para sempre guardou em sua carteira aquele amuleto:"Eu acredito em você".


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