quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Carta a Ute, Desaparecida na Noite de Ontem. Roberto Taddei



pintura em cinza, vermelho e brancoQuerida Ute,

Desisti de buscar no passado qualquer justificativa para explicar
como vamos vivendo sem poesia nesse país esses dias

Poderia me esforçar para dizer como foram feitas as escolhas
da minha geração e as minhas e separar as reativas das reacionárias

Mas você sabe muito bem que as histórias são mentirosas
e eu faria papel de palhaço aqui

A verdade é que não somos nós quem decidimos as coisas, Ute.
Fazemos apenas na medida em que nos restam os espaços para tanto

E é sobre isso que escrevo,
É o que tentei dizer ontem mas você
tendo estado o tempo todo sob efeito de entorpecentes
não teve disposição para ouvir.

Ainda assim é preciso falar sobre essa condição inevitável do poeta contemporâneo
É nos espaços que está a poesia, ou que se forma a poesia, talvez.

Como se forma a poesia é questão da qual trataremos outro dia
Falo dos espaços, Ute. Não de apartamentos ou quartos, com janelas e vistas amplas
para rios e praias, montanhas ou esquinas com quatro ou cinco cantos
Mas os espaços entre as coisas, especificamente entre os seres,
que é o espaço que se transfigura em tempo, Ute.

E tempo é poesia,
E é também silêncio. 


(Fonte: Folha de São Paulo, 14.01.2019)

Do livro: Essa Música Não é Minha Ed.Quelônio, breve nas livrarias

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Morbus Gravis. Diário de Mauro Parente, Airton Uchoa Neto

    
Domingo de finados e final de fórmula 1. Posso ouvir os zumbidos dos motores na televisão dos vizinhos entediados. Mas o zumbido cessa quando entro no banheiro. qualquer um que sofra  de prisão de ventre crônica - isso diz muito sobre meu caráter - sabe que determinadas oportunidades não podem ser perdidas; são portas que se abrem quando menos se espera e se fecham logo, se a gente não chegar a tempo. Tenho esse problema desde a infância e minha avó, que lia muitos livros sobre nutrição e saúde intestinal e a Bíblia, em vez de me passar um sermão, me mandou ler um daqueles livros técnicos. A razão de o PhD ter se dedicado àquela especialização era explicada no prefácio assinado por ele mesmo: seu pai morrera de câncer no intestino e aquela morte fora ao mesmo tempo rápida e lenta dentro da sua fulminância. Sabe como é: lhe dão alguns meses de  vida a ser vivida sem dignidade alguma e fazem de tudo para que esse período se prolongue e você até agradece porque  naturalmente não quer morrer, mas quando o que resta de sua honra desperta o que você mais queria era estourar os miolos, mas os seus parentes próximos, muito solícitos, afastaram de você todos os objetos e substâncias com os quais pudesse atentar contra a própria vida com suas mãos fracas e secas. E ainda acham que você devia ser grato por isso. O sujeito, sob os olhos do filho, foi privado da capacidade de defecar, teve o ânus e o reto cirurgicamente aposentados. Os médicos tiveram de abrir um orifício no abdome dele e costurar, ali, um anel que impediria o orifício de se fechar. Nesse anel seriam acopladas as sacolas plásticas que coletavam os dejetos que saíam, fora do controle  de seu contenedor tão cioso. O cara definhou até morrer como se fosse sugado...
     Ler aquele livro piorou meu mal estar. Meus intestinos se prenderam com mais força e agora eu lutava contra eles...
     Querido diário, hoje foi a minha maior vitória. Li um artigo de Delfim Netto na Carta Capital, me preparei para bater o ponto na minha função de escriba, como aqueles egípcios carecas que sentavam no chão e escreviam o que lhes mandavam, mas ainda valiam alguma coisa porque nem todo mundo sabia ler e escrever, e deixei na privada, inteiro, um cagalhão do tamanho e quase do formato daquelas bananas que os parentres trazem do interior. Eu sei que as coisas valem e que as fezes, com seus nomes muito mais secos e mais úmidos, são sempre fezes. Mas eu não vou mentir: enquanto as paredes do meu reto voltavam ao lugar pra preencher o doloroso vácuo deixado, eu me senti muito orgulhoso de mim mesmo e acho que minha avó sentiria a mesma coisa por mim.

Neto, Airton Uchoa, Crônica da  província em chamas, Ed. La barca 2012, págs 115-116

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

LivroErrante em Tomé-Açu no Pará.


      O blog LivroErrante em parceria com a Biblioteca Pública Municipal Wilson Marques disponibilizarão livros em lugares públicos para serem levados para casa.  Os livros já começam a ser enviados pelos correios, saindo do Recife e Rio de Janeiro inicialmente, mas outras pessoas integrantes do grupo de leitura livro errante vão participar. Ao longo do ano de 2019 leitoras amigas das cidades de João Pessoa, Goiania, São Paulo, Divinópolis, Piracicaba.. entre outras vão enviar os livros já lidos que estão em suas estantes aguardando novos leitores na cidade de Tomé-Açu.