quinta-feira, 28 de junho de 2018

3 Pequenas Histórias de Sabedoria Sufi, Paulo Coelho




Dando o que tem

     Um sábio chegou à cidade de Akbar, mas as pessoas não deram muita importância.  Conseguiu reunir em torno de si apenas alguns jovens, enquanto o resto dos habitantes ironizava seu trabalho.

     Passeava com os poucos discípulos pela rua principal, quando um grupo de homens e mulheres começou a insultá-lo. Ao invés de fingir que ignorava o que acontecia, o sábio foi até eles e abençoou-os.

     Ao sair dali, um dos discípulos comentou:

     - Eles dizem coisas horríveis e o senhor responde com belas palavras.

     O sábio respondeu:

     - Cada um de nós só pode oferecer o que tem.

     Qual o maior luxo?

     Ao lado do mosteiro de Ibak, vivia um sábio sufi, excelente negociante, que terminou por acumular uma grande riqueza.

     Um visitante do mosteiro, ao ver os custos altíssimos dos trabalhos de renovação do templo, disse para quem quisesse escutar:

     - Eis que os caminhos da sabedoria se transformam na estrada da ilusão! Encontrei alguém que diz procurar a verdade e, no entanto, está podre de rico!

     As palavras terminaram chegando aos ouvidos do sábio. Quando lhe perguntaram o que tinha a dizer, ele comentou:

     - Eu achava que possuía tudo e acabo de descobrir que me faltava uma coisa. Agora sei que sou realmente um homem rico, porque consegui o luxo mais sofisticado.

     - E qual é o luxo mais sofisticado? - quis saber um dos monges.

     - É ver alguém sentindo inveja de você. 


A hora da decisão


     Um vendedor de camelos chegou numa aldeia vendendo belos animais, por excelente preço. Todos compraram - menos o sr. Hoosep.

     Tempos mais tarde, a aldeia foi visitada por outro vendedor - com excelentes camelos, mas com preços bem mais altos. Desta vez, Hoosep comprou alguns animais.

     - Você deixou de comprar os camelos quase de graça, e agora vai adquiri-los por quase o dobro? - criticaram os amigos.

     - Aqueles que estavam baratos me eram muito caros, porque na época eu estava com pouco dinheiro - respondeu Hoosep. - Estes podem parecer mais caros; mas para mim são baratos, já que tenho mais que o suficiente para comprar. 


Distinguindo o bom do mau


     Um padeiro queria conhecer Uways e este foi à padaria disfarçado de mendigo. Pegou um pão, começou a comê-lo: o padeiro espancou-o e atirou-o na rua.

     - Louco! - disse um discípulo que chegava - Não vê que expulsou o mestre que queria conhecer?

     Arrependido, o padeiro foi até a rua e perguntou o que podia fazer para que o perdoasse. Uways pediu que convidasse a ele e seus discípulos para comer.

     O padeiro levou-os até um excelente restaurante e pediu os pratos mais caros. - Assim distinguimos o homem bom do homem mau - disse Uways para os discípulos, no meio do almoço. - Este padeiro é capaz de gastar dez moedas de ouro num banquete porque sou célebre, mas é incapaz de dar um pão para alimentar um mendigo com fome. 


Sufismo: corrente mística e contemplativa do isião.Os praticantes do sufismo, conhecidos como sufis, procuram desenvolver uma relação íntima, direta e contínua com Deus, utilizando-se das práticas espirituais transmitidas pelo profeta Maomé.




segunda-feira, 25 de junho de 2018

Alta Tensão, Bruna Lombardi

eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo
passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.


(Bruna Lombardi) (poema do livro O perigo do Dragão. Rio de Janeiro: Record, 1984. p. 36)

sábado, 23 de junho de 2018

Deus Há de Ser, Pedro Luis, voz: Elza Soares


https://www.youtube.com/watch?v=5TR-LISwDCo
Clique na imagem para ouvir a música.
Deus é Mãe
E todas as ciências femininas

A poesia, as rimas
Querem o seu colo de madona
A poesia, as rimas querem o seu colo de madona

Pegar carona nesse seu calor divino
Transforma qualquer homem em menino
Ser pedra bruta nesse seu colar de braços
Amacia dureza dos fatos
Deus é Mulher
Deus há de ser
Deus há de entender
Deus há de querer
Que tudo vá para melhor
Se for mulher Deus-há-de-ser
Deus-há-de-ser Fêmea
Deus-há-de-ser Fina
Deus-há-de-ser Linda

Deus-há de Ser
Deusa
Deus é Mãe


Deus é Mulher - Elza Soares - Abril 2018
CD e Vinil
 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Denuncie. Não Fique Calada


                                                 Ajude a mudar a história das mulheres.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pra Não dizer Que Não Falei de Futebol, Artur Carvalho


    
Eu nunca consegui ser um torcedor de futebol digno do nome. Um desses torcedores normais, entende? Que vai ao estádio gritar por seu time, ou pelo menos um desses que ficam em casa, assistindo aos jogos pela TV. Pra ser sincero, eu bem que tentei. Quando era moleque, fui até sócio da Torcida Jovem da gloriosa Associação Atlética Ponte Preta de Campinas. Mas eu não consegui pegar o jeito da coisa. Enquanto que para os meus companheiros a derrota da Ponte significava uma tragédia grega, para mim tanto fazia.
      - Mas o que é que você está fazendo?
      - Eu? Pedindo uma cerveja, oras.
      - Mas como é que você pode pedir cerveja numa hora dessas?
      - E o que é que você queria que eu pedisse? Cianureto?
      - Bem, não deixa de ser uma idéia...
      Mas esses torcedores assim, a gente até que consegue entender. Eles estão lá, querendo o bem de uma agremiação que eles conhecem desde crianças. É uma coisa bastante parecida com o patriotismo. Todos nós queremos o bem do nosso país. Lutamos por ele. Torcemos por ele.
      Agora, o que não dá pra entender são esses caras que torcem CONTRA os outros times. Às vezes, eles torcem mais contra um time do que a favor do time deles mesmos. Têm uns palmeirenses vizinhos meus que a coisa chega a ser até meio doentia. No dia em que o Santos perdeu para o Boca Juniors, na decisão da Taça Libertadores da América, os caras soltaram até rojão. Eu, que não estava assistindo ao jogo, teve uma hora que achei que o Santos estava dando uma sonora goleada no Boca.  Era um rojão atrás do outro. Gritos de gol. Fiquei curioso. Fui ligar a televisão e o Santos perdia de três a um. Logo depois, o jogo acabou, e os vizinhos saíram para a rua aos berros. Eu não me lembro de eles terem feito tamanha festa nem quando o Brasil foi pentacampeão. E neste último domingo a coisa se repetiu. Desta vez a vítima foi o Corinthians, que perdeu pelos mesmos três a um do Atlético do Paraná. A maior festa. Até mesmo as crianças da casa saíram para a rua, e balançavam bandeiras para os carros que passavam. Bandeiras do Palmeiras, evidentemente.
     A reação dos meus vizinhos mostra bem o que é que essa sociedade competitiva está fazendo com a gente. Ninguém mais se importa realmente com sua própria situação, contanto que seus vizinhos estejam em situação pior. O lance não é ter um carro zero. Se o vizinho tiver um carro 99, basta ter um carro 2.000. Ninguém coloca o filho na melhor escola para garantir o futuro das crianças, mas porque o primo matriculou os filhos deles lá, e a gente vai colocar os nossos numa escola pública?  Mas de jeito nenhum!
      Uma vez eu precisei fazer uma reforminha na minha casa. Nada muito significativo, uma pinturinha aqui, um murinho ali, um jardinzinho acolá, mas, depois de terminada, ficou até que bastante apresentável. Bem, estava eu chegando numa tarde, e encontrei o carro de um colega de serviço estacionado na frente de casa. Eu nem tinha parado direito e ele já estava descendo do carro. Parecia furioso.
      - Como é que você foi fazer uma coisa dessas sem me consultar?
      - Mas fazer o quê?
      - Reformar a sua casa, oras!
      - Mas para quê eu teria que consultar VOCÊ para reformar a MINHA casa?
      - Porque agora a minha mulher quer que eu reforme a nossa também, será que você não entende?!
      Tem coisas que eu não entendo mesmo. E, sinceramente, acho que prefiro ficar sem entender.

Fonte: Carta Maior

Nota: o blog manteve  grafia original.