quarta-feira, 28 de junho de 2017

Quarta-feira é dia de: Regina Porto



Cajus  azuis?
     Faltam 4 dias para terminar o prazo e eu aqui nesse branco total. Tenho que escrever um conto e não consigo. Nem é tão difícil assim. Duas páginas com espaço um e meio. Mas acontece que faz sol, está ventilado e eu preciso sair para pagar o cartão de crédito. Passou do vencimento justamente por sua causa.
     - E por que não sobre mim?
    Mas me falta é imaginação! Sei que vc foi do partidão, viveu exilada coisa e tal mas hoje em dia, a não ser que eu fosse bastante experiente e criativo para falar disso colocando mil fantasias, sua história não desperta interesse algum. Afinal, a narração de uma tortura já não atrai mais ninguém. Eu mesmo achei mais interessante vc contar que, por indignação com o entusiasmo dos ingleses diante da chegada da primavera, mentiu descaradamente para eles sobre o Brasil.
     - Quem está mentindo é você, agora.
     - E desde quando no Brasil existem árvores que dão frutos amarelos, azuis, vermelhos e laranjas? Numa árvore só, Cecília? Só a um inglês você podia contar uma destas.
     - Fazia frio, o Hyde Park estava como que coberto por grande tapete branco. Aqueles ingleses têm adoração pelo sol, ficam numa excitação danada quando veem as flores azuis brotando de dentro da neve. É a garantia de primavera no dia seguinte. Eu tinha uma saudade imensa de meu país idealizado. Queria que eu fizesse o quê? No Brasil, tem frutos azuis, vermelhos amarelos e laranjas num cajueiro só, sim. Depende de seu conhecimento sobre cannabis sativa.
     - Sei.
     - Foi circunstancial e você fica escrevendo aí que eu menti. Pensa que é escritor!!
     - Circunstância é coisa para advogado de defesa. Eu só quero escrever um conto e você me atrapalha.
    Como posso terminar? Cecília quer que eu conte sobre ela uma história linear e verdadeira como as bluebells de Londres. Mas, neste momento preciso sair.
    -Tem material nas mãos, eu estou lhe dando e não aproveita. Pensa que é escritor.
    - Não penso nada. Sei que não sou. De certeza, preciso escrever um conto, tenho 2 dias para isso e nenhuma ideia. Agora dá licença que vou ver o jogo do Corinthians. Clarear a mente ou desistir de uma vez.
     Estou aqui de volta dois dias depois e não consigo escrever nada.
    Lembro que conheci Cecília nos anos 80; uma figura por demais estranha. Morava na minha rua, e tinha dois filhos com a mesma idade dos meus. Abriu-se num sorriso imenso quando fui conhecer a escola infantil de sua casa. Dia seguinte já não me conhecia, depois me procurou, sumiu, me ensinou shiatsu, fez que não me viu, por fim, sabe Deus como, descobriu que eu não mordia e, finalmente, aprendeu meu nome. Sempre quis parecer à frente do tempo. Mais ainda quando me descobriu divorciado: sozinho cuidando de dois filhos? Deve ser o máximo. 
     Mulher se encanta com cada besteira!
     - Eu não me encantei com você, Olha a presunção!
    A cidade era pequena para Cecília, ninguém tinha o conhecimento que carregava e eu era um completo imbecil. Onde já se viu? Como pode alguém ser vanguarda assim? A moderna Cecília, já queria me idealizar: se eu era tão especial a ponto de estar com duas crianças sem a mãe, tinha por obrigação que ter feito panfletagem, pixado muro, sido torturado.
     - Já começa a mentir de novo? Nunca lhe chamei de imbecil.
    Mesmo que eu fosse apenas uma criança àquela época. Certo. Admito que me atraia: tinha umas pernas belíssimas e uma certa segurança no que fazia que me encantavam.
     - Olha! Bota aí que lhe ensinei ioga.
    - Me dê sossego. Você é só uma ficção. Prosseguindo, para se mostrar moderna, noto hoje, acabou por revelar o quanto as mulheres se fazem dependentes. O quanto menosprezam suas próprias ideias. Lembro que ela tinha obrigação de gostar de Glauber Rocha e Jorge Amado.
     -E gostava mesmo!
    -Cala a boca! Outro dia falou aí que nunca entendeu Terra em Transe nem gostou de Tieta do Agreste e este foi o único livro do baiano que vc leu. Assistiu a filmes franceses porque ser da esquerda implicava em achar os americanos lavagem cerebral. Cecília empenhava-se tanto em se exibir que acabei por me achar mais atraente que Travolta.
    Matreira, elas são boas nisso, aproveitou meu encantamento por suas coxas para informar das marcas de tortura. Vangloriou-se mais uma vez: Ela era uma heroína, estava muito além do tempo e lugar e eu um idiota, claro. Fez questão de mostrar as cicatrizes que carregava nos seios. Pra ela, a glória, pra mim a perdição. 
    -Você era muito jovem. Não entendia nada rapaz.
    -Não digo? Quer fazer o favor de não atrapalhar? Quer sair espontaneamente? Se não, desligo o computador e você some.
   -Um dia, quando nossas crianças queriam se deliciar com os cajus do verão, a danada me viu no jardim próximo, decidiu subir na árvore. A pretexto de ajudar tirar os frutos, que não eram azuis. Decidi seguir atrás. Era tudo o que ela queria.
   -Só eu??? Vai dar uma de seduzido aos 32 anos por uma mulher de 50?
   A copa da arvore ia até o telhado da casa e lá, na maior liberdade trocamos nossos sabores de caju. Inesquecível. Surpreendemo-nos outras vezes. Inesquecível, repito.
    Um dia, estou trocando pneu chega aquela mulher, metida num jeans-camiseta que lhe deixava mais sensual que nunca, me entrega um envelope grande e abarrotado, – daqui a seis meses, depois do carnaval, quero que você envie este envelope. Já está endereçado. Vou entregar meus filhos ao pai, no Rio de Janeiro.
    -Por que? Eles não estão bem? Você vai ficar bem???
    -Preciso trabalhar, sem trabalho não sobrevivo com trabalho eles ficam sós. Eu vou ficar bem. Quem sobreviveu à ditadura...
    - Não precisa continuar. Você nunca foi vanguarda. Sua modernidade não foi além de gastar tempo da forma mais tradicional possível: procurando um marido. Ir para Londres acabou sendo um presente: lá você encontrou o homem da sua vida. Tudo bem. Era brasileiro também. Porém igual à maioria, como convinha.
    - Que história é essa de envelope e marido tradicional? Nunca falei isso.
    - Quem digita sou eu...
    Além do envelope me deu seu endereço em Manaus para onde eu deveria enviar a resposta do pai dos seus, o homem de sua vida. Tomou a mão das crianças e entrou no táxi recém-chegado. Fiquei paralisado. Por muito tempo essa cena ocupou minha lembrança até que se foi de vez junto com nossos encontros apaixonados.
     Em maio, do ano seguinte recebo o envelope e mais uma carta que me atrevi escrever apenas para saber se estava bem. Ambos marcados: pelos correios:“endereço inexistente”
     Aproveitando a sombra do cajueiro, abri o envelope que o carteiro acabou de me devolver pela segunda vez. Havia 68 páginas escritas em português e ou inglês, provavelmente escritas em Londres. Não diziam coisa com coisa. Nunca mais soube das crianças nem daquela mulher hoje com 75 anos.
     Descobri, no mês passado, e eu mesmo já morando noutra cidade, uma pousada onde foi sua casa e cujo nome me remete a ela: Manaus. Liguei.
     - Nem tenho 75 anos nem pousada alguma.
     -Não enche! Meu time perdeu, estou com sono e não consegui escrever nada. Tem mais: você não passa de uma invenção e eu vou desligar o computador.
     P.S: continuo gostando de cajus.



segunda-feira, 26 de junho de 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Quarta-feira é dia de: Vou Procurar Outra Padaria, Regina Porto

   
Não estou avistando Lanusa, daqui da varanda da casa de minha filha!
    Hoje vim para cá decidida a encontra-la para perguntar ...  
      Bem, deixa contar a história do começo.  
     Foi assim: ano passado marquei de vir fazer uns trabalhos com minha filha. Viria de manhã e, para não dar trabalho, combinei de almoçar aqui perto numa padaria que oferece almoço em self-service.  Demorei demais no trajeto e, do ônibus, pedi que me encontrasse na padaria. 
    Eu iria direto para lá, reservaria uma mesa e já começaria a fazer nossos pratos. A padaria não faz reposição.
      Desci na parada e não fui pra casa de minha filha.     
Como combinado, segui para a padaria e... Quem vejo, assim que abro a porta e olho na direção das mesas?  Lanusa!
     Estava numa mesa perto das janelas e com uma jovem pra mim desconhecida. Nos olhamos e sorrimos simultaneamente.
     -Oi! Tudo bem?
     -Tudo bem.  Você mora por aqui?
     - Não. Marquei com minha filha que mora aqui perto.
     - Eu moro nesse prédio verde, perto da esquina.
     - Minha filha mora no amarelo. O da esquina.
     Coloquei a bolsa na mesa ao lado e fui fazer meu prato. Lanusa terminou e  estava na fila do caixa, quando notei  um pacote na mesa de onde ela saiu. Supondo ser dela, fui lá entregar. Era de outra pessoa e ela entregou o pacote. Voltei pra fazer meu prato e esperar minha filha que chegou segundos depois que Lanusa deixou a padaria.
     - Já fez seu prato foi, mãe?
     - Não. Botei algumas coisas pra você, antes que acabe tudo. Conversei rapidamente com uma prima...
     -Foi? Eu conheço? Cadê ela?
     - Foi. Não conhece. Ela já saiu.  Tem um problema, Suzi! Ela já morreu
     Voltei a essa padaria mais algumas vezes. Nunca reencontrei Lanusa.
    Este ano, mês passado, voltamos lá. Queria levar minha bolsa, mas por praticidade minha filha sugeriu deixa-la em casa.  Saímos apenas com o cartão e chaves da casa, colocados na bolsa minúscula de minha filha. 
    Quem eu encontro, de costas, perto das janelas e na mesa que eu ocupei no ano passado? Isso mesmo: Lanusa!  Conversava com outra pessoa e não me viu mesmo quando preparar nossos pratos. Ficamos distantes e minha filha, desta vez, conheceu minha prima.   A amiga saiu primeiro e falou animadamente com um mulher que estava na nossa mesa. Lanusa saiu depois, me reconheceu e nos falamos quando ela passou por mim em direção ao caixa.
     Fiquei com cara de divertimento e espanto por vários dias.   
     Vou procurar outra padaria.

Não estou avistando Lanusa, daqui da varanda da casa de minha filha!
    Hoje vim para cá decidida a encontra-la para perguntar ...  
      Bem, deixa contar a história do começo.  
     Foi assim: ano passado marquei de vir fazer uns trabalhos com minha filha. Viria de manhã e, para não dar trabalho, combinei de almoçar aqui perto numa padaria que oferece almoço em self-service.  Demorei demais no trajeto e, do ônibus, pedi que me encontrasse na padaria. 
    Eu iria direto para lá, reservaria uma mesa e já começaria a fazer nossos pratos. A padaria não faz reposição.
      Desci na parada e não fui pra casa de minha filha.     
Como combinado, segui para a padaria e... Quem vejo, assim que abro a porta e olho na direção das mesas?  Lanusa!
     Estava numa mesa perto das janelas e com uma jovem pra mim desconhecida. Nos olhamos e sorrimos simultaneamente.
     -Oi! Tudo bem?
     -Tudo bem.  Você mora por aqui?
     - Não. Marquei com minha filha que mora aqui perto.
     - Eu moro nesse prédio verde, perto da esquina.
     - Minha filha mora no amarelo. O da esquina.
     Coloquei a bolsa na mesa ao lado e fui fazer meu prato. Lanusa terminou e  estava na fila do caixa, quando notei  um pacote na mesa de onde ela saiu. Supondo ser dela, fui lá entregar. Era de outra pessoa e ela entregou o pacote. Voltei pra fazer meu prato e esperar minha filha que chegou segundos depois que Lanusa deixou a padaria.
     - Já fez seu prato foi, mãe?
     - Não. Botei algumas coisas pra você, antes que acabe tudo. Conversei rapidamente com uma prima...
     -Foi? Eu conheço? Cadê ela?
     - Foi. Não conhece. Ela já saiu.  Tem um problema, Suzi! Ela já morreu
     Voltei a essa padaria mais algumas vezes. Nunca reencontrei Lanusa.
    Este ano, mês passado, voltamos lá. Queria levar minha bolsa, mas por praticidade minha filha sugeriu deixa-la em casa.  Saímos apenas com o cartão e chaves da casa, colocados na bolsa minúscula de minha filha. 
    Quem eu encontro, de costas, perto das janelas e na mesa que eu ocupei no ano passado? Isso mesmo: Lanusa!  Conversava com outra pessoa e não me viu mesmo quando preparar nossos pratos. Ficamos distantes e minha filha, desta vez, conheceu minha prima.   A amiga saiu primeiro e falou animadamente com um mulher que estava na nossa mesa. Lanusa saiu depois, me reconheceu e nos falamos quando ela passou por mim em direção ao caixa.
     Fiquei com cara de divertimento e espanto por vários dias.   
     Vou procurar outra padaria.