quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Quarta-feira é dia de: A Mudança, Marques Rebelo.

A mudança foi repentina! As estrelas desapareceram bruscamente da noite. Saindo não sei donde, nuvens, cada vez mais negras, amontoavam-se num canto e acabaram por tomar todo o céu. Negror. Então, veio o vento e sacudiu o ar estático , abafado, vergou as árvores, bateu janelas na vizinhança, trouxe gritos distantes para meus ouvidos inquietos. Levantou-se poeira nas ruas, rodopiou, subiu, entrou pelas persianas sujando os móveis.
     Mamãe, aflita, que estava na hora da poção, chegou como uma sombra, cerrou as persianas, mas o vento era sutil e insinuando-se por frestas despercebidas, balançava da mesma forma as bambinelas.
     - As bambinelas estão dizendo adeus!
    Não sei como me acudiu logo o pensamento estranho: As bambinelas estão me dizendo adeus! Ou estarão me chamando?  Sim, é possível  que estejam. Mas para onde? Sinto-me fraco, uma dormência espetante como milhões de alfinetes paralisa as minhas pernas. E elas continuam a acenar: Vem!
     Embala-me, monótono, o tique-taque do relógio na sala onde minha irmã pedia a São Bento para cortar a perna do vento, que eu podia piorar.
     E a febre na mesma. Trinta e sete e seis. E a tosse. O peito doendo sempre, sensação angustiosa de asfixia – o teto caindo sobre mim, me oprimindo, me esmagando. Poderia fugir, mas a dormência, que me prendia as pernas, invadiu-me o corpo agora e me prostra incapaz.
     - Está melhor?
     Mamãe dobrou-se sobre minha face num beijo longo, afagou a minha barba crescida. Seus cabelos grisalhos roçaram-me a testa seca.
     -Estou. Quero dormir.
    Saiu na ponta dos pés, depois de compor o lençol que me cobria, ficou na sala, folheando o jornal, fingindo que lia. Mina correu para o quarto dos fundos, o feio, com papel vermelho, manchado de umidade, se esbeiçando pelos cantos, e a janela estreita que dava para a área onde a pitangueira definhava. Chorar? O vento chorava, também, no jardim despetalado, nos telhados, nas árvores sacudidas na rua. Chiii – eram as folhas se arrastando, secas, na calçada. Pedir? Teresinha de Jesus, no oratório branco da maninha, não fazia mais milagres. Estava surda a todas as orações. Surda?  Não. Era o vento, o vento maldoso, com certeza, que levava todas as palavras boas para as espalhar à toa pelas ruas sem ninguém.
     A febre se elevou um pouco mais, o que é natural. Talvez seja impressão, apenas.  Se pusesse o termômetro, lá viria o seu refrão: trinta e sete e seis. Mas para que aquele abajur colorido, azul, rosa e os bichos bordados em preto? Que inutilidade! Nem era bonito ao menos... Mas se ele crescesse como os gatos, as árvores e as crianças? Ficasse grande, imenso, e cobrisse todo o mundo?  E fosse endurecendo, virasse bronze de tão duro e cantasse como um sino? Cantou! Ele cantou! Não. Foi o relógio.
     -Que horas são?
     - Sete e meia. Está sentindo alguma coisa, meu filho?
     - Nada
     Nada mesmo. Que tranquilidade senti me invadir, que silêncio pareceu se fazer. Até o mosquito sossegou.
     - Tão cedo...
     Tomara o leite às cinco e meia. Não o sentia mais no estômago e só se passaram duas horas?  Não... Aquele relógio estava ficando velho, caduco, não regulava mais. Forçosamente que era mais tarde. Ninguém passa na rua...
     Calma imensa. Nem o vento lá fora assobiava mais. Sete e meia.
E um silêncio na casa.
     Quantos anos tinha o relógio? Quando era menino, já existia, no mesmo lugar, por cima do aparador, e já ia para os vinte e dois anos, uma criança ainda, diziam, e no entanto sentia-me velho de tanto sofrer.
     Pensei no tempo do futebol na rua – lampião era o gol, a meninada convencidíssima. O Julinho ostentava chuteiras Atlas, invejadíssimas  pelas travas em rodelas; o Zé Maria agora era soldado e uma vez viera visita-lo: estava achando a vida difícil, tinha medo de ficar desocupado, sem casa, sem dinheiro, já pensava em engajar.  O Russo, filho do quitandeiro, tinha morrido do peito. Os outros se perderam por este mundo. Ah! E a escola pública! ... Dona Maria José, a professora se casara; e aquela menina! ... Loura! Loura! Tão loura! ... Lourdes... Perdera o seu retratinho, perdera-a também... O pai dela bebia, vivia cambaleando nas esquinas do bairro, batia-lhe. Era dócil, tristonha, trazia-lhe flores, dizia-lhe que ele era o seu amor, tinha a boca carnuda e cor de sangue, um contraste flagrante com o rosto pálido. Depois, os exames na Faculdade, o velho professor condescendente, o porteiro filante e os cadáveres.
     Às oito horas em ponto, senti-me molhado, depois dum rápido acesso de tosse: era sangue. Sangue, mais sangue. Morri. Na casa toda, continuava o silêncio.
     Na escrivaninha aberta, folhearam as minhas páginas. Poeta? Ora! ... Leram surpreendidos. Elogios. As velas queimando em volta de mim, as flores cobriam o meu eito, sem pressão, descarnado, mas eu não sentia os perfumes.
     - Quem diria, hem?
     - É mesmo.
     - Tão bom! ... Tão simples!...
     Contavam fatos:
     - A última vez que que o vi...
     - “ A noite é assim: silenciosa, fria.” Bonito este poema! – Cercaram o Souza que lia, o papel suspenso enfaticamente das mãos gordas. “ Um cheiro de suspeita na aragem traiçoeira, onde a trepadeira, branca, se reclina.” Lindo, sim!
     Eurico aprovava só com a cabeça.
     - “Os pirilampos todos se sumiram.”
     Antônio não compreendia nada. Os pirilampos se sumiram? Todos? Que diabo!
     - “ Só ficaram os grilos no jardim, cantando para as estrela indiferentes.”
     - Admirável! Admirável!
     Eu os lia por dentro devassando-lhes todos  os pensamentos; cada rosto era para mim uma janela aberta; bastava me debruçar um pouco e toda a casa se me mostrava.
     Luís, sempre desconfiara dele, namorava o meu Larousse na velha estante desarrumada, mas haveria de passar bastante lisol nos volumes porque aquilo pegava um visgo.
     Minha irmã inexperiente, minha mãe imprestável, atirada na cama numa crise violenta de nervos, que longe de excitá-la, prostrara-a inerte, sem ação, como morta, foi Seu Cardoso – aborrecido, mas que se há de fazer? – que tratou de tudo, com gorjetas somítegas para o velhote da Santa Casa.
     A primeira pá de cal foi do Oliveira – tão engraçado o Oliveira! – após a despedida de amigo entre caras enfastiadas. Queixava-se amargamente, com seus botões, daquela vasta estopada – as lágrimas, o enterro atrasadíssimo, ele sem jantar até àquela hora; imaginava já uma tuberculose também, proveniente duma gripe seriíssima apanhada naquela maldita tarde, gélida, úmida, terrível. A última foi a do Mauro, que sempre  se distraíra admirando as coroas, lendo fitas: “Saudades da Dondoca” ( a prima loura que morava no Méier), “Seus colegas do 4º ano”, a do Seu Ramalho da farmácia, enorme, de dálias, humilhando todas as outras, mesmo aquela pequena, tão simples: “Tua mãe e tua irmã”.
   Quando tudo acabou, a cova cheia, os passos em cima da terra – bem se ouviam – afastando, senti-me livre, só, aliviado. Enfim! Uma ânsia, porém, sem limites se apossou de mim, agora que eu via tudo, pois vi minha casinha humilde na Rua Dona Constança, deserta de todos os meus sofrimentos. Vi e quis voltar para lá, para o meu desespero, para a minha dor, a febre, o peito aflito, a asfixia e esperar a hora da poção – esperança, esperança! Que minha mãe vinha dar, os olhos úmidos.


REBELO, Marques, Contos Reunidos, Rio de Janeiro, José Olympio, 1977.