quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Quarta-feira é dia de: Raquel Brabec



Para adoecer, vá ao médico

     Taquicardia, suor frio, ansiedade e princípio de gagueira. Esses seriam sintomas suficientes para levar você a procurar um médico, mas nem sempre é assim que acontece. Em uma lógica invertida, pode ser que esses sintomas apareçam justamente porque você está procurando um profissional de saúde.

Não vou fazer aqui comparações entre atendimento privado e público, porque isso não seria jogar limpo. Se em um a situação está ruim, no outro, ela beira a calamidade pública. Considerando que você é um cidadão que gasta seu suado dinheiro em um plano de saúde e planeja fazer o check-up anual, então se prepare, pois está prestes a enfrentar a Via Crúcis do sistema de saúde.

    
Chargista: Amarildo
O começo de tudo: agendamento de consulta. O que deveria ser um momento prático e rápido pode levar toda sua preciosa manhã. Se alguma alma santa atender ao telefone, considere-se uma pessoa de sorte, pois na maior parte das vezes te esquecem no abismo de “tu-tu-tu” dos cabos telefônicos ou em alguma fria mensagem gravada te avisando que aquele não é o horário de atendimento do dito cujo médico.

Mas, na verdade, essa alma santa que te atendeu é um lobo transvestido de lebre. Aquelas atendentes bem vestidas, de maquiagem e cabelos feitos, compõem uma classe dúbia, a prova de que as aparências enganam. Com ares superiores, elas te atendem como bem lhes convém, pois no mercado da procura e da oferta, você, sinto dizer, sai perdendo.

E a perigosa pergunta, aquela que põe em definitivo o tipo de atendimento que você receberá: “é privado ou plano?”. Depois dela, tenha certeza que as palpitações começarão a aparecer.

      Mas você é uma pessoa sortuda, pois já conseguiu ser atendido e a atendente, depois de alguns muxoxos de desagrado audíveis pelo telefone, marcou sua consulta para daqui a três meses, já que seu plano, apesar de caro, é muito concorrido. Por algum tempo você esquece o estresse de ir ao médico, até que a data vai se aproximando. E com ela, a perspectiva da temível sala de espera.

Naquela sala branca, sob o olhar indiferente de uma atendente empoleirada por trás do balcão, é preciso desencavar suas habilidades de escoteiro. Durante as longas horas que se seguirão antes que seja chamado, será preciso se munir de água, casaco, barra de cereal e um livro para enganar o tédio. Depois das primeiras duas horas, comece a entoar alguns mantras budistas para incorporar o espírito da paciência. Os demais pacientes na sala de espera te lançarão olhares de reprovação, mas isso não é exatamente um perigo, eles estão apenas com inveja da sua preparação.

      Enfim, o médico te chama. Lá está ele, ou ela, uma pessoa tão distante e disputada que você sente necessidade de chamá-lo de doutor ou de doutora a todo momento. Mas essa reverência é em vão.  O médico olha brevemente para você e depois desvia toda a atenção para uma ficha interminável, que ocupa 2/3 do atendimento. Então começa o bombardeio: “Tem histórico de diabetes na sua família? Pressão alta? Colesterol alto? Alguma alergia?”, e antes que você lembre se aquela tia distante sofria de algum desses males, ou na verdade era Parkinson, ou quem sabe Alzheimer, a consulta já está em outra etapa.

     O outro 1/3 da consulta é dedicado a algumas ordens que você executa sem questionar. “Suba na maca”, “Levante um pouco a camiseta”, “Respire fundo três vezes”, “Estenda o braço”, frases que, em outro contexto, pareceriam sugestivas. Depois disso, mudez completa, e dá-lhe mais ficha para preencher.

No silêncio sepulcral do consultório, você reflete: “será que devo falar algo”? Antes que pense em acrescentar ao monólogo aquele episódio em que engoliu uma faca de manteiga sem querer, o atendimento é finalizado com mais ordens de exames, e tudo acaba em um breve acenar de cabeça. Maldita ficha!

     A espera e a preparação são recompensadas com mais exames, mais salas de espera, mais consultas com robôs, quer dizer, médicos. É ai que os sintomas aparecem de verdade. Taquicardia, suor frio, ansiedade e princípio de gagueira. O diagnóstico da doença? Você foi ao médico.

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