segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Noventa e Três, Mia Couto

                                               


                                               Foram entrando um por um. O velho estava na cabeceira, cabeceando. À medida que entravam alguém anunciava os nomes, descrevendo em alta voz o jeito dos vestidos. Os netos encheram a sala, os bisnetos sobraram no quintal. O avô levantava um olhar silencioso, sem luz. Sorria o tempo todo: não queria cometer indelicadeza.O avô fingia , aniversariamente. Porque em nenhum outro dia os outros dele se recordavam. Deixavam-no poeirando com os demais objetos da sala.
     Esta noite, as prendas se juntam e ele apalpa os embrulhos. O seu gesto não leva desacerto. Afinal, não há mão mais segura que a do cego. Porque o cego agarra  o que há e o resto não acontece. Lugar de quem não vê está sempre certo:  afinal, só erra quem pode escolher. O velho agradece, vidente invisual. Tudo estando longe da vista, perto do coração.
     Os convidados ficam um tempito junto dele, não sabem o que dizer, não há quase nada a dizer, o velho ouve só acima das gritarias. Depois, quem sabe olhar um cego¿ Vendo-o  assim esplendoroso, acreditam,para sossego deles, que o avô já tenha adormecido. O dia lhe sendo igual à noite, o cego bem deve dormir de ouvido.
     Mas o avô apenas se finge dormindo. Naquele enquanto, ele apenas aguarda uma fresta para poder  exercer sua mais secreta malandrice. Todos os dias escapa do lar. Quando a cidade refreia o pulso, ele sai à rua. Nunca lhe notaram essas ausências. Nem imaginam que, andando em tropeços  tão pequenos que nunca chega a cair, ele diariamente se evade para o jardim público. Vai encontrar seus dois vigentes amigos: um gato silvestre  e Ditinho,o menino da rua, desses que perderam morada. O miúdo lhe conversa e o velho lhe oferece uma nenhumita coisa que roubou de casa.Para ambos o mundo é muito grande. Cansado de puxar estória, o miúdo adormece. Amolecido o avô também se aplica no banco de jardim. Até que aparece o gato, mais meloso que remeloso. O gatito se esfrega, seu todo corpo é uma língua lambendo o velho. O bicho ronrona farfalhante. Gato que ama é sempre asmático?
     Agora, por entre os barulhos que invadiram  toda a casa , o avô sente saudade do jardim. Será que pode sair?
     - Sair?
     Os familiares se admiram, indignados. Então no preciso dia de anos¿ E aonde¿ O velho se resigna, desistido. Que ele era de manias já  sabiam. Há três anos atrás ele decidira fazer seu próprio caixão. A família se perguntava: que deu nele¿ A filha mais velha estremeceu: seria pressentimento¿ Os irmãos, contudo,riram: disparate!  O velho, no entanto, prosseguia a construção. Hoje um toque , amanhã um retoque. Esta é a morada a mais definitiva, obra para nossa eternidade, não será que vale a pena cuidar dela?  Vocês estão a vida inteira trabalhando para eerguer casa provisória; eu trabalho no definitivo.
     Por isso, os familiares não se perturbam com os desejos do velho. Em plena comemoração da sua idade ele quer ir passear-se longe e sozinho? Coisa de menino, delírio infantil. E assim deixam o velho na poltrona da cabeceira , em aparência de sono. Todos se garantem de que ele não precisa mais cuidado. Mas a ilusão de estar certo nasce de todos estarem errado no mesmo momento. Pois, o velho, de repente, proclama a súbita pergunta:
     - Me desculpem vocês todos: mas, fim ao cabo, quantos anos eu faço?
    Riram-se. O velho malandrava, devia fingir esquecimento. Uma voz se levanta, lhe anunciando a idade. O velho franze a testa desconfiado:
     - Noventa e três?
   Parecia atónito. No restante da noite, ele intervalava a cada hora com repentinos espantos. E voltava:
     Noventa e três?
    Mais tarde, já as danças se emparelhavam. O velho tropeçando entre os casai, aborda um alguém: me desculpa, meu filho, em que ano estamos?
     - Noventa e três, pai.
     Não, corrige o velho. Pergunto em que ano estamos. Mas já ninguém estava. A multidão ruidosa, acelera os festejos. Naquela alegria não cabem os avôs. As bebidas correm, as mentes se vão tornando líquidas.
Finalmente trazem o bolo de aniversário. O velho sopra em todo o lado menos no bolo. Decidem todos juntos apagar as vela, na vez do festejado. O bolo é cortado rápido , há que regressar à alegria. O velho deve estar por aí dormindo, dizem, ele descansa assim no meio de qualquer momento. Mas o avô não dorme. Está quieto sofrendo de saudade dos seus companheiros da rua,Ditinho mais o gato. Esses, sim, mereciam pensamento.Só para eles, vadios do jardim, ele se sentia avô.
E sem que ninguém se aperceba, o aniversariante escapa do aniversário. Se adentra no jardinzito  e se estende no banco, suspirando uma leve felicidade. O gato desce da paisagem e se enrosca  docemente no braço. O velho lhe tinha reservado um doce roubado à festa. Ditinho chega depois, vindo de jantar um lixo.
     Diante do banco, o miúdo espreita curioso. Nunca o velho se apresentara tão tardio. A criança se senta familiar. Coloca a mão no bolso do avô, avalia-lhe o volume da carteira  e pergunta:
     -Então, quanto temos aqui?
     O velho sorri , leva a mão ao peito e proclama:
     - Noventa e três!
     Os olhos do miúdo relampejam:
     -Tudo isso? Estás rico, vovô!
     O velho concorda acendendo um sorriso. O menino tinha o coração em trabalho de parto:
Com esse tanto dinheiro hoje vamos fartar por aí: comer, beber, gargalhotar.

     E se levanta puxando o velho por uma escura ruela. O avô ainda se lembra: a minha bengala! Mas Ditinho responde: sua bengala,a partir de hoje, sou eu. E se afastam os dois, cada vez mais longe dos ruidos da festa de aniversário. No jardim, o gato esfrega uma saudade na esquecida bengala. Depois, corre pelo beco escuro, juntando-se aos dois amigos, que, já longe,festejam o tempo, comemorando o dia em que todos os homens fazem anos.