domingo, 17 de agosto de 2014

Lygia,Marcelo Diniz




LYGIA
Não, Lygia, a chuva não é triste.
Se tanto agrada a vista avulsa,
nunca pense ser, Lygia, a chuva
um filme mudo em que se assiste

à demora do que persiste,
nem metáfora mais difusa
do que a própria chuva, profusa,
cabendo-se no que consiste.

Não são tristes, não são aflitas,
nem mais nem menos que você,
Lygia, as gotas que você fita

esgotam-se no que se vê:
sem lágrimas por ser finita,
Lygia, a chuva não se entrelê.

(De: Trecho, Marcelo Diniz, ed. Aeroplano