segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Uma Véspera de Natal, Marques Rebelo

Ventava, mas a noite era quente, luzindo estrelas por cima do recorte dos morros. O grilo cantava no meio da grama, no jardinzinho quieto.
Ele ouvia, pensativo. Quando o grilo sossegou, saiu da janela, acendeu outro cigarro, chegou-se para a poltrona onde ela se reclinava e venceu o silêncio que se prolongara.
     - Não te vais vestir?
Continuou com a cabeça loura tristemente apoiada na mão, e respondeu sem entusiasmo:
     - Vou. Tem tempo. Que horas são?
     - Dez.
     - Já?
Mostrou-lhe o relógio-pulseira, chegou-se mais e beijou-a:
     - Estás triste?
Deu um suspiro, fitou-o longamente:
     -Não. Por quê?
     - Não sei.
Não sabia mesmo. Parecia, porém, que estava,tão distante se mostrava. Pegou-lhe na mão, revirou-a, mirando a anel.
     - Papai Noel é pobre...
     - Você duvida meu bem?
     - Duvido duma coisa.
     - De quê?
     - Da tua memória.
     - Memória?! – Até se espantou, virando os olhos verdes e fundos.
     - Sim, memória. Queres ver? Vejamos: que é que aconteceu há sete anos?
Riu com meiguice: bobo. Chamou-o para junto de si, estreitou-o contra o peito, beijou-o e fugiu para o quarto.
     - Vou me vestir, ouviu. É um minutinho.
Ficou só na salinha, que o abajur de crepe tenuemente iluminava, de smocking, pronto, esperavam, um fecho divertido Para aquele dia que lhe correra tão bem. Recebera  a gratificação, trouxera um bonito presente, jantaram entre flores. Fazia justamente sete anos que se conheceram, casando pouco depois. Tivera alguns maus dias, padecera privações, mas sempre encontrara o apoio da esposa, que não o fizera fraquejar. Sete anos já se iam, e conservavam-se sempre unidos, muito amigos, sempre amorosos. Somos um casal feliz, dizia, às vezes.  
E Dona Cidoca, a prestimosa vizinha, não perdia ocasião para firmar “que a vida deles era uma eterna lua de mel”. Não compreendia, pois, a melancolia de Maria de que se achava possuída e que não conseguira, apesar das negativas, dissimular. Também, raciocinava, jantaram tão solitários... Fizera mal não convidar alguém. Estava um jantarzinho tão bom! Ao menos, tia Lulu, tão amiga deles, tão bondosa... Poderia parecer-lhe ingratidão. A história dela teimar em não ter telefone dava daquelas. Pouco importa. Poderia tê-la avisado de outra forma. Fora mesmo um grande esquecimento que não se repetiria. Enfim, iriam para o réveillon. Lá, sim, entre amigos, não faltaria alegria.
     Sentiu-se inquieto, apressado:
     - A minha princesa ainda demora muito?
     Ela aparecia radiosa, linda no seu vestido azul, comprido, quase escondendo os pés. Teve um sincero orgulho da esposa.  Não se conteve:
     Estás encantadora! Maravilhosa!
Correu para ela e enlaçou-a:
     - Vamos dançar muito, estás ouvindo? Havemos de nos divertir bastante para desanuviar este coraçãozinho!
     E marcando o compasso das palavras com o dedo conselheiral:
     Faz hoje sete anos...
     Ela abaixou os olhos, ele acompanhou-os com os seus, foram pousar na capa da revista, sobre a mesinha, uma singela alegoria – crianças brincando à volta duma árvore de Natal.
     Compreendeu tudo num relance. Que tolice pensar em tia Lulu, em amigos, em danças, em réveillon. Ver passar ,como passavam, aquela noite feita para  outras, tão diversas alegrias, era realmente doloroso.
     Tirou os olhos da revista e gemeu desconsoladamente:
     - Eu não tenho culpa.
Ela também não tinha. Agasalhou-se no mantô, deu-lhe um beijo triste:
     - Deus não quer.
Ficou parado,sem palavras, sem gestos, sem saber o que fazer.
Ela, então, gritou para a criada:
     - fecha tudo direito, Francisca. Olha que andam muitos ladrões pó aí!
E, enchendo-se de doçura, virou-se para ele:

- Não vai chamar o automóvel?