quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Quarta-feira é dia de: Paulo Mendes Campos

Fábula Eleitoral Para Crianças
     Um dia, meninos, as coisas da natureza quiseram eleger o rei ou a rainha do universo. Os três reinos entraram logo a confabular. Animais, vegetais e minerais começaram a viver uma vida agitada de surtos eloquentes, manobras, recados furtivos, mensagens cifradas, promessas mirabolantes, ardis, intrigas, palpites, conversinhas ao pé do ouvido. Iam eleger o rei dos três reinos.
     Entre os bichos, era um tumulto formidável. Bandos de periquitos saíam em caravana eleitoral, matilhas de cães discursavam dentro da noite, cáfilas de camelos percorriam os desertos, formigas realizavam comícios fantásticos, a rainha das abelhas zumbia com o seu séquito, sem falar no baile  dos peixes, nos lobos em festival  pelo monte, na barafunda  de búfalos pela savana, na revoada instantânea dos pombos-correios.
       Todas as qualidades eram postas à prova: a astúcia da raposa, a agilidade dos felinos, o engenho dos cupins, o siso da coruja, o poder de intriga das serpentes, a picardia do zorro, a doçura da pomba, a teimosia do burro, o cosmopolitismo dos ratos.
      O leão, o tigre, a pantera, estavam prontos  a derramar sangue.Os pássaros coloridos faziam frente única para indicar um pássaro colorido; já os pássaros que cantam, decidiram apontar como candidato de boa garganta, como o rouxinol, a cotovia, a patativa.As cegonhas irresolutas passavam as tardes pensando, pensando. Os patos selvagens abriam cartazes no céu. As tímidas andorinhas buscavam refúgio na igreja. E a águia, fascista de nascença, pretendia organizar lá no alto uma conferência de que só participassem as aves de rapina como o falcão, o condor e o gavião-de-penacho. 
     Os papagaios viviam a arengar bobagens pelos galhos. A raposa corria as várzeas articulando uma candidatura, ninguém sabia qual. O macaco era vaiado quando alegava semelhança com o homem. O cavalo se meteu a candidato, dando a sua condição de antigo senador do império romano.
     O pavão, escondendo os pés, exibia a cauda. No brejo os sapos repetiam slogans monótonos . Jacarés e tartarugas  ressonavam na beira  beira dos rios, que passavam levando sussurros  quase imperceptíveis, a conversar as pedras e as ervas das margens.  O rato do campo ia de vez em quando se aconselhar com o rato da cidade , mas não seguia seus conselhos. Os gansos citavam velhos costumes clássicos. Certos bichos, como o boi e a íbis, invocavam  direitos divinos, que não eram mais levados a sério. As hienas e os chacais opinavam por um conselho de notáveis, a ser instituído pelos animais ferozes que lhes deixavam os restos. Até a boba da ameba, coitada, queria ser candidata, dizendo-se a origem da vida.
     A mosca azul voava e revoava por todos os cantos. Quem será o rei do universo? De dia,as borboletas andavam como doidas pelo campo; à noite, os vaga-lumes acendiam lanternas.
     Nas profundezas do chão, o carbono fazia estranhas combinações com o hidrogênio. O diamante e o ouro brilhavam de esperança. As estrelas pretendiam uma coalizão de todo o espaço constelado em torno de Vênus, causando ciúmes à Lua.
     As flores distribuíam perfumes à vontade. Árvores agitadas recebiam recados que o vento trazia de longe. A floresta pensava eleger não um rei, mas um colegiado de carvalhos experientes. E por toda a flora era um germinar, um brotar, um verdejar, um florescer sem conta.Os monocotiledôneos discordavam dos dicotiledôneos; os fanerógamos acusavam de hipocrisia os criptógamos. Era a plena campanha eleitoral com todos os incidentes. só os cipestres continuavam fechados em indiferença, apolíticos que são.
      A despeito dos imensos interesses em choque, de tantas contradições, é preciso dizer, a bem da verdade, que o pleito transcorreu com limpa lisura.
      Ao fim de tudo, a escolha não podia ter sido mais feliz, pois os três reinos unidos elegeram a rosa Rainha suprema do Universo.
     Sim, a rosa, a rosa na sua simplicidade tocada de imenso esplendor, erguida na haste entre o céu e a terra, eterna e efêmera, a roa, carne, espírito e pó.
     E para entronizar a rainha o dia acendeu a luz mais clara, os pássaros cantaram com inspiração, as árvores se puseram mais verdes e mais altas, as flores vestiram roupagens de gala, os seixos rolaram infantilmente nas praias, as nuvens se desfraldaram como cortinas de gaze sobre o azul e o verde, No fundo do mar era uma alegria solene, como um Te-Deum, os polvos gesticulando em câmera lenta, os peixes e as medusas passando sem barulho.
       Entre os serres humanos, só as crianças sabiam que era o dia da entronização da rosa, e nada contaram a ninguém. Nem o poeta se lembrava de que a rosa era a rainha, a rosa que se achava expectante no seu recato soberano, quando passou pelo jardim um homem feio e preocupado. Era um candidato a qualquer coisa, a vereador, a deputado, a prefeito, a presidente, não se sabe ao certo. Distraído nas suas ambições, o homem colheu a rainha do universo, que entrou logo a fenecer entre dedos úmidos. Depois, ele olhou e viu que se tratava de uma rosa, uma rosa a morrer. Mal me quer, bem me quer...
       O homem começou a desfolhar  a rosa só para saber se dessa vez seria eleito. E a rosa morreu.
      Foi por isso que o dia   se fechou de repente, os animais uivaram no bosque, as aves sumiram,o vento se desatou sobre o mar enraivecido, o raio e o trovão, tomaram conta da noite sem estrelas. Entre os humanos, só as crianças na hora do jantar perderam a fome. Estava morta a rainha do universo.
     Mas nas trevas, insistente, nasceu de novo a rosa e iluminou o paraíso perdido.