Pular para o conteúdo principal

Três Sonetos Positivos, Joaquim Cardozo

Eu te direi de amor em  frase nova:
Estátua na Ponte Maurício de Nassau.

Verbo que em si conduz a singulares
Emanações fatais de escura prova
Que é força de ambições crepusculares

Eu te direi da flor que se renova
Em frondes de segredos seculares
Surgindo da clausura de uma cova
Em mutações tranqüilas e lunares

Direi também de folhas, de aventuras
Levadas velozmente nas alturas
Dos ventos e das asas vencedoras:

Mas de tanto dizer fique o silêncio
Que é cinza de palavras e que vence
O surto de inverdades tentadoras.

II

Por senda escura uma visão me leva...
Em vez dos claros rumos da manhã
Sigo um caminho, um chão feito de treva,
De légua de colina e de rechã.

Em vez do alvor das nuvens que me enleva
Das nuvens de que a tarde é tecelã
Olho o vulto da noite que se eleva
Ouço o vento do mar na telha-vã

Da noite preta que me estende os ubres
De novo sorvo os meus sonhos insalubres
E o leite sugo de imprecisas mágoas.

Do mar que ao fim de tudo há de me ter
Se o meu ferido corpo merecer
O encerro, o encanto e o cântico das águas.

III

Sobre o meu coração dedos de luvas,
Dedos sutis de mãos consoladoras,
Roçaram leves num roçar de chuvas
De vento e de verão sobre lavouras.

Mas se um vinho mortal de eternas uvas
A embriaguez me trouxe, e, aterradoras,
Fulgurações de rútilas saúvas
Meu sangue percorreram, salvadoras,

As tuas mãos lacustres me envolveram,
E de águas matinais frescor me deram...
Mãos e que mãos tão lúbricas e brandas!

As cores das manhãs que me inundaram
Enfim bruma e fantasmas dispersaram
De noites brancas, lívidas, nefandas.


(Poesias Completas 2ªed.1979, Civilização Brasileira)

Nota: este blog coloca pela primeira vez na internet os Três Sonetos Positivos de Joaquim Cardozo.
Nota 1: o blog manteve a grafia original.


 



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Formiga Boa, Monteiro Lobato

Houve uma jovem cigarra que tinha de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.      Mas o tempo passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados passavam o dia cochilando nas tocas.      A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em apuros, deliberou socorrer-se de alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se foi para o formigueiro. Bateu - tic tic-tic...      Aparece uma formiga friorenta embrulhada num xalinho de paina.      - Que quer? - perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.      - Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu vivo ao relento.      A formiga olhou-a de alto a baixo.      - E que fez durante o bom tempo, que não construiu uma casa?

Era uma vez...Adivinha adivinhão, Luis da Câmara Cascudo

Era uma vez um homem muito sabido, mas infeliz nos negócios. Já estava ficando velho e continuava pobre como Jó. Pensou muito em melhorar sua vida e resolveu sair pelo mundo dizendo-se adivinhão. Dito e feito. arrumou uma trouxa com a roupa e largou-se.      Depois de muito andar, chegou ao palácio de um rei e pediu licença para dormir. Quando estava jantando, o rei lhe disse que o palácio estava cheio de ladrões astuciosos. Vai o homem e se oferece para descobrir tudo, ficando um mês naquela beleza. O rei aceitou.

Vinicius de Moraes e Cecília Meirelles

Esta segunda-feira vem com dois poemas, para ajudar a esclarecer uma confusão feita por alguns internautas, quando Ladyce West publicou no seu blog, Peregrina Cultural, o poema As Borboletas de Vinicius de Moraes.  Em alguns sites e até em livros didáticos a autoria é  dada a Cecília Meirelles.  O blogueira Ladyce está absolutamente certa. O poema é de Vinicius de Moraes e na postagem consta a referência.   Vamos aprender, então?