segunda-feira, 25 de março de 2013

Segunda Feira poética: Olegário Mariano

A Cigarra E A Formiga

Dona formiga, nesta redondeza
Rústica e solitária,
É tida
Como três vezes milionária,
Possuidora de esplêndica riqueza
Que levou a juntar durante toda a vida.

Acostumou-se desde criança à luta,
Ao sol de fogo e à aventura brava.
Vivia a trabalhar heróica e resoluta
Armazenando tudo o que ganhava.

Hoje está bem, mas é geralmente malquista
Faltam-lha uns poucos sentimentos nobres.
É em demasia egoísta
E odeia as raparigas que são pobres.

Dona Cigarra, por exemplo, alheia
A tudo, vive como pode, à toa ...
Canta os dias a fio...
Tem a garganta quase sempre cheia
E quase sempre o estômago vazio...
Entretanto,coitada! é humilde e boa.

Chega a passar misérias, mas que importa?
Só quer que a sua vida não se acabe.
Anda de porta em porta...
Se não trabalha, é só porque não sabe.

Entregou-se de vez à vida airada e quando
Se lhe fala em riqueza,
Ela responde, trêfega, cantando
Que o seu grande tesouro é a Natureza.

- Ora, um dia ... (chegara o inverno) a pobre
Foi ter à casa verde da vizinha
E apelou humilhada,
Para oseu grande sentimento nobre:
-"Mate-me a fome cruel que me espezinha,
Quero pão e mai nada."

Mas a irônica amiga.
Impassível britânica, solene,
Falou assim:
- "Sou a mesma Formiga
De que falava o velho La Fontaine,
Nada esperes de mim."

-"Tu que fizeste na estação ardente
Quando me extenuava, estrada a fora?"
-"Eu cantava - repnde-lhe a inocente.
"Ah! cantavas? - pois canta e dança agora!"

Deus que ouvira, entretanto,
Sentenciou da alta abóboda vazia:
Canta,Cigarra, canta que o teu canto
Será teu pão de cada dia.

 Esta Lenda bizarra
Que o tempo não consome,
Vem aos poetas provar
Que a Cigarra
Nunca mais morreu de fome...
Mas morre é de cantar.

Em: Últimas Cigarras, 1920

Nota da blogueira (1): A fábula A Cigarra e a formiga é atribuida e Esopo e foi recontada por Jean De La Fontaine
 Nota da blogueira:(2) Cigarra é nome genérico para várias espécies de insetos da família dos Cicadídeos. Uma dessas espécies, a Carineta fasciculata, é a mais comum no Brasil.  O canto das cigarras vem do atrito das asas do macho, que usa desse expediente para atrair a fêmea. Acasalamento, postura e eclosão dos ovos acontecem no verão. A lenda é ilustrativa do provérbio "colhe-se o que é plantado", porém não faz jus ao inseto que, ao contrário, não é preguiçoso.Se fosse, não devastaria plantações.