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Morro de Inveja dos Cronistas, Regina Porto

    Maçada fenomenal  e  acabei de ler Feliz Por Nada, na sala de espera do médico.  Se eu tivesse a habilidade da autora, daquela tarde teria feito uma crônica. Iria imaginar, o que levou cada paciente a aguardar mais de duas horas para ser atendido, se não foi a  vontade de validar o nome paciente, com que são consideradas cada pessoa que pacientemente espera...
     Talvez pudesse inventar que o médico da sala 2, fosse cliente ( não paciente porque esse não espera) do médico da sala 1 onde vou ser atendida.  E como seria essa consulta?  O  mais novo explicando ao de cabelos branquinhos o que este já sabe e que aprendeu primeiro...
     A moça que faz os eletrocardiogramas, afere  pressão, peso, altura e mede a circunferência da cintura comentou sobre o Ronaldinho, fenômeno: tem 107cm de circunferência e  tenta perder peso no programa domingueiro Fantástico. - Ela falou por falar ou, não muito discreta, me chamou de gorda?   Oh dúvida cruel!  Se eu fosse cronista com certeza me aproveitaria das intermináveis horas gastas em salas de espera para, inventar mentiras sobre as realidades dos consultórios ou soltar o verbo mesmo, sem enfeitar nada.
     Quem faz crônica tem alguma vantagem sobre o romancista: não precisa prestar atenção nos personagens, não lida com enredo longo, ambientação... nada! Pega um fato cotidiano, narra acrescentando uns enfeites e pronto. As histórias estão nas ruas pulando em cima dos autores. Completas ou parciais se oferecem ao escritor. Morro de inveja dos cronistas... 

      Semana passada, à esta hora, estava me preparando para ir para um hospital.
     Jejum desde o almoço, tranquila, organizando a bolsa me bate sede. É só saber que não posso beber água, começo a sentir sede. 
     Nada que um desviar de atenção não resolva, afinal não gosto de água mesmo!  Bem, chego lá no tempo combinado pelo médico e desse momento em diante fui acometida de um mal diferente, mas já dito antes: inveja de cronistas.      Aprendi, e quase sempre consigo, me distanciar de algum fato ou ambiente e soltar a imaginação feito quem solta menino em loja de brinquedo. Nisso vou longe.
     Conversava com minhas filha e irmã, formidáveis acompanhantes, mas também prestava atenção à decoração da sala de espera, às portas que se multiplicavam cada uma com uma informação útil aos funcionários do hospital. 
      Sem nada que me impedisse o caminhar, fui levada em cadeira de rodas por uns corredores que me atrapalharam a orientação. Sei lá onde estava! Comecei a me divertir:  se eu quiser fugir não vai dar certo!   Vou amarrar a mocinha gentilíssima com esse lençol!      
     Enquanto eu passeio livre por aqui Dr.B está engarrafado no transito. Arrá ganhei do médico! Que horas são? Salto alto em cadeira de rodas isso eu não aprendi com Glorinha Kalil. Antes que eu pudesse pensar mais asneiras chegamos ao apartamento. Minhas acompanhantes,  não faziam ideia de que além do coração furado, eu estava também de miolo mole.  Ficamos no 105 até a hora de ir para o procedimento propriamente dito.
     Já devidamente paramentada, lá fui eu novamente em cadeira de rodas .... outra viagem: outros corredores e portas, desorientada que sou, não sabia se subia, se descia se já os conhecia.  Melhor. Vou acompanhando tudo. Tenho idade de 8 anos e me encantam as novidades. Minha filha, tranquila, acompanha.  Responde o que é perguntado e pergunta o que precisa.  Não vê no hospital nada além de coisas de hospital. Que bom que ela é normalíssima. Na sala do procedimento,  enquanto, novamente de pensamentos soltos, quero saber por que eu falo cirurgia e eles falam procedimento. Fico atenta aos movimentos e são muitos. Cadê o equipamento? Ele já está trazendo. Lá vem o anestesista me explicar que vai ter de ser geral, por causa do transesofágico. 
     Ele, sorridente, organizando seus equipamentos e eu imaginando que podia nevar breve e, nesse caso, só eu ficaria petrificada. Todos os demais com muitas roupas, poderiam resistir e fugir. Eu tinha as pernas presas. Lá vem uma médica me perguntar sobre alergias a medicamentos, dois enfermeiros falavam de salgadinhos e vinhos. 
    Sim, eles fazendo coisas corriqueiras pela milésima vez, e eu no centro, um frio de matar.   Precisa mesmo ser tão frio, ou em alguns pacientes urge congelar os miolos?     
     Lá vem o sorridente de novo: - Quando eu tirar isso de seu nariz, a senhora respira por aqui, usando a boca, viu? Não vai durar 3 segundos, tá certo?
   - Tá. Pois sim! Quando terminar estou apagadinha total, vou lá me lembrar de fazer isso! E, se fizer, nem vou saber que fiz.   
     -Eu vou botar anestesia aqui, viu? Fique t-r-a-n-q-u-i.... 21:30h zzzzzzzzzzzzzz.
     Semana passada aprendi que UTI, não é lugar para paciente dormir. Minha irmã aprendeu isso no HC de São Paulo e me explicou: o paciente precisa estar com todas as funções cerebrais ativas, por isso o corpo médico hospitalar faz barulho. 
     É de propósito. Boa ideia.
     Se não me engano passei umas 8 horas na UTI. Nenhuma intercorrência. Faz parte do procedimento. Nesse tempo, ouvi alguém cantar músicas religiosas à direita. À esquerda alguém tirava e colocava algo numa máquina que, sem óculos e meio grogue, me pareceu tratar-se de um caixa eletrônico. O cantor não parava, nem saia do lugar. Alguém me espionava e vinha verificar minha temperatura a qualquer sinal de sonolência. 
     Água, jantar,termômetro, pastilha pra garganta ressecada, tudo!   Menos me deixar dormir. Melhor me divertir, então.

      Fiquei quietinha e de olhos fechados. Vou enganá-los!!     Para quê?   Fui descoberta e aí começou a maratona de aferição de pressão. Nada demais se fosse daquele jeito tradicional, com o paramédico lhe pondo tensiômetro. Nada! Foi com máquina que além de me apertar muito o braço ainda fazia barulho!  E isso a intervalos regulares.  Também teve discussão acalorada entre umas enfermeiras.    Lugarzinho movimentado, barulhento e cheio de coisas indefinidas, principalmente se você não enxerga bem sem os óculos.     
      Era manhã do dia seguinte, minhas pacientes e centradas acompanhantes já tinham ido para o apartamento quando saí, novamente em cadeira de rodas, deixando o cantor ainda fazendo seus louvores.
   Tive alta 24 horas depois, voltando pra casa com meus filhos e genro. Satisfeita por ter corrigido um defeito cardiológico congênito, num hospital onde, juro, apesar do enfado natural, me diverti. 
     Eu lamento profundamente não ser cronista porque UTI é lugar maluco o suficiente. De lá é possível narrar  ou inventar coisas.

Comentários

  1. Olá Regina! Achei divertido seu modo de encarar o hospital :D. Eu acho que pensaria em coisas tenebrosas só, rs... E não entendi sua inveja dos cronistas, eu adorei o seu texto! Parabéns!

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  2. Olá Regina! Achei divertido seu modo de encarar o hospital :D. Eu acho que pensaria em coisas tenebrosas só, rs... E não entendi sua inveja dos cronistas, eu adorei o seu texto! Parabéns

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