quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Do Canavial à Faculdade de Medicina ( primeira parte)

Do jeito que a gente aprende no colégio, o solo massapê é aquele fertilíssimo, ideal para plantar cana de açúcar. A gente só não vê nos livros que esse mesmo plantio pode prender, aprisionar o homem à terra, explorando uma mão de obra que, muitas vezes, não vê outro horizonte que não o monte de terra roxa. Uma sina de muitos pernambucanos. Uma história repetida há séculos na Zona da Mata no estado. Mas Jonas Lopes da Silva, de 24 anos, nascido em Palmares e criado em Joaquim Nabuco, abandonou essa geografia de escravidão. Deixou para trás essa herança de desesperança. Foi cortador de cana de açúcar ao lado dos pais até os 15 anos de idade. Hoje, aos 24, colhe uma riqueza de verdade: a aprovação no vestibular de medicina da Universidade de Pernambuco, um dos mais concorridos do estado (são 34,15 candidatos disputando uma vaga).
Foto Ricardo Fernandes DP/D.A Press
Jonas iniciou e concluiu a educação na rede pública aos 20 anos de idade. Atrasou dois anos em relação à maioria das crianças porque desistiu de estudar. "Eu era briguento e brincalhão. Também um pouco revoltado", justifica Jonas. Deixou de ir à escola na quinta e sexta série do antigo primeiro grau. Tinha em torno de 12 anos. Nesse tempo, andava ao lado da mãe, pelo canavial. De tanto vê-la derrubar e embolar cana, foi repetir a sina. Trabalhou em condições degradantes, um crime contra os direitos humanos previsto nos artigos 240 e 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). "O sol era escaldante e minhas costas doíam", lembra Jonas, tocando a cicatriz na mão direita. "Nunca fui obrigado a nada. Mas as coisas eram muito difíceis", lembra. Jonas é o quinto filho de uma prole de sete do pedreiro José Lopes, de 56 anos, e da trabalhadora rural Edileusa Maria, de 50 anos.

Além de Jonas, apenas o caçula da família, Renato, de 20, completou o ensino médio. Outros quatro largaram os estudos para trabalhar. "Minha mãe foi acabada pela cana de açúcar. Foi massacrada pelo destino. Minha avó até hoje se arrepende de ter tirado o sonho dela, de ter tirado ela da escola", conta Jonas. "Então, quando meu pai me disse que se eu não estudasse, eu iria cortar cana, fiquei danado. Daí para frente disparei. Fui aluno laureado no 1º, 2º e 3º ano", orgulha-se o rapaz, que salvou na memória afetiva, da pracinha de Joaquim Nabuco, os nomes dos professores da época. "Tive Alex, de matemática, e três professoras que foram mães. Dona Eulália, de história, dona Risonete, de português, e Elian, de geografia", recorda.

Foram quatro anos de tentativas, até a aprovação na UPE. Na primeira, em 2006, ainda morando em Joaquim Nabuco, levou ponto de corte. "Senti todas as carências do ensino público aí. Pensei em pedir emprego na prefeitura", afirma. Em 2007, recuperou o "prejuízo". Passou em um concurso do IBGE para ser agente do censo. Realizou o trabalho, mudou-se para Jaboatão (onde mora a irmã mais velha, Márcia) e pagou um curso pré-vestibular com o dinheiro que guardou. "Eu escutava falar muito de vestibular no rádio. Aí, já sabendo que para a minha condição social passar em medicina era difícil, decidi investir nesse curso, em um colégio famoso da capital", recorda o jovem, criado no bairro de São Miguel, que ele chama de "Coque de Joaquim Nabuco". "As pessoas diziam que eu nunca ia passar porque era pobre". Ele não acreditava nisso, mesmo reprovado pela segunda vez, no vestibular de 2007. "Aprendi a lutar com a dor da minha mãe e com a sabedoria do meu pai. São dois filósofos, apesar da dureza. Sempre ouvi deles que eu deveria me dar bem com Deus e o diabo", reproduz.